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Núcleos de informações prejudiciais: relações entre machosfera e extrema direita nas redes brasileiras do Telegram

Tese de doutorado do PPG em Processos e Manifestações Culturais da Universidade Feevale.

Eduarda Velho
Eduarda Velho

Professora e pesquisadora, PhD

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Aviso: Esse artigo se qualifica como estudo científico, de modo que seu objetivo é investigar um fenômeno político e comunicacional através de uma análise baseada nos métodos digitais. Os resultados apresentados neste trabalho são derivados da aplicação de um método cientifico sério, e não se caracterizam como militância ou manifestação de opinião política.

Resumo: As plataformas digitais melhoraram suas políticas de combate as informações prejudiciais, de modo que algumas contas de extrema direita estão sendo permanentemente suspensas e obrigadas a encontrar novas formas de continuar com suas práticas criminosas. Assim, essas contas podem mover suas atividades para as plataformas alternativas, que são coniventes com os núcleos de ódio ao viabilizar suas ações. Essa migração pode popularizar os núcleos de ódio, conforme os apoiadores das contas suspensas podem segui-los nas plataformas alternativas e entrar em contato com essas comunidades extremas. Dentre esses núcleos de ódio, destaca-se a "machosfera", que são subculturas masculinistas, misóginas e antifeministas pautadas como núcleos de militância da extrema direita. O Telegram é a plataforma alternativa que está sendo utilizada pela extrema direita do Brasil, cujo aplicativo está instalado em mais da metade dos smartphones brasileiros. Assim, o tema desta pesquisa são as relações entre machosfera, extrema direita e informações prejudiciais nas redes brasileiras do Telegram. A tese deste trabalho é de que a machosfera brasileira opera sob uma lógica de assortatividade, de modo que se configura como uma rede de informações prejudiciais que potencializam as pautas da extrema direita. Assim, pergunta-se: quais os impactos da machosfera no problema da circulação de informações prejudiciais no Telegram? O objetivo deste estudo é investigar as relações entre machosfera e extrema direita nas redes brasileiras do Telegram. Para tanto, os métodos digitais foram operacionalizados para coletar, analisar e visualizar uma rede de 3.157 comunidades do Telegram. Essa amostra foi obtida através de um programa que seguiu os links e encaminhamentos de mensagens dos participantes de uma única comunidade da machosfera (MGTOW Club), de modo que foi capaz de encontrar as conexões com os grupos e canais mais próximos dessa rede. Essas conexões foram utilizadas para construir um grafo capaz de representar as relações entre machosfera e extrema direita, que foram analisadas em vista de diversas métricas. Os resultados revelam que as redes de extrema direita se divergem entre as novas direitas e grupos neonazistas, que possuem em comum a aversão à esquerda política e o ataque aos veículos tradicionais de mídia, mas destoam por causa do racismo e do antissemitismo dos neonazistas. Já a machosfera, desdobra-se em redes anarcocapitalistas, politicamente incorretas e masculinistas, que se relacionam com as redes neonazistas por conta do racismo, antissemitismo e por não apoiarem as novas direitas. Ressalta-se que essas relações são um problema, pois esse contato pode tornar as novas direitas ainda mais extremas.

INTRODUÇÃO

É comum que a palavra "distopia" seja utilizada para se referir aos recentes avanços da extrema direita, que ganhou espaço político deslegitimando os veículos tradicionais de imprensa enquanto mobilizou um grande público utilizando mentiras e discursos de ódio (AMARAL; SANTOS, 2019). Mas, como chegamos até esse momento? O que aconteceu para que preconceitos e visões políticas defasadas, como, por exemplo, antissemitismo, racismo, homofobia, heteronormatividade e misoginia, voltassem ao palco da relativização? Ainda que esse questionamento inicial seja válido, é um pouco arbitrário realizá-lo, pois foram vários os motivos que potencializaram esse problema político e comunicacional.

Dentre esses problemas, frente aos objetivos deste trabalho, destaca-se a resignação coletiva que ocorreu nos últimos anos, a partir da qual governos, empresas e organizações civis subestimaram as redes de ódio e desinformação, ao ponto de que o problema teve que se tornar grave para que surgissem tentativas de resolvê-lo. A filosofia do "não alimente o troll" foi seguida à risca quando o assunto era controlar a circulação de desinformações e discursos de ódio na internet, e isso foi verdade tanto por parte dos governos, que subestimaram o problema e levaram muito tempo para agir [1]; quanto por parte das plataformas digitais, que, até 2016, estavam majoritariamente preocupadas em moderar "conteúdo impróprio" (GILLESPIE, 2018).

Do outro lado da equação, é desde a década de 90 que as comunidades anônimas (chans, subreddits, fóruns de internet, grupos anônimos em plataformas de redes sociais) já são conhecidas como núcleos de ódio da internet (STRYKER, 2011). Começando pelos primeiros chans japoneses e passando por suas diversas reencarnações ocidentais (4chan, 55chan), é que preconceitos, crimes e outras violências são uma constante nesses grupos (COLEMAN, 2014; VELHO, 2018). Para além da ingenuidade que é reconhecer as comunidades anônimas como meros centros de criatividade ("fábricas de memes") e de alteridade anônima ("um encontro dos marginalizados"), estão as consequências irreparáveis dos suicídios e dos crimes que foram organizados com o auxílio dos participantes desses grupos (STRYKER, 2011). Um exemplo que ganhou repercussão no Brasil foi o caso do massacre em uma escola em Suzano (SP), em 2019, que resultou em 10 mortes e 11 feridos. Quanto a isso, foi verificado que os atiradores pediram orientações em um chan brasileiro sobre como realizar o crime, que foi celebrado pelos participantes após ter acontecido [2].

Ao retomar o passado dos chans (HAGEN, 2021), não foi surpresa encontrar publicações em que os anônimos já defendiam algumas das teorias da conspiração ("governos globais"), revisionismo histórico (relativização da Ditadura Militar, referências ao nazismo), preconceitos (racismo, homofobia) e demais conservadorismos e ideias reacionárias que viriam a caracterizar os influenciadores digitais e políticos da extrema direita, como, por exemplo, Nando Moura [3], Abraham Weintraub [4] e Roberto Alvim [5]. Da mesma forma, como já faziam os anônimos (STRYKER, 2011; COLEMAN, 2014), os apoiadores da extrema direita também se caracterizam pelo uso do escárnio e do terrorismo digital para deslegitimar pessoas que negam ou que ameaçam suas convicções (EMPOLI, 2019; MELLO, 2020).

Como não seria difícil de imaginar, essas comunidades anônimas apoiaram tanto Donald Trump (NAGLE, 2017) quanto Jair Bolsonaro [6] em suas eleições presidenciais, de modo que seus participantes criaram e incentivaram o compartilhamento de conteúdo desinformativo que atacava a oposição e favorecia as narrativas dos seus candidatos. Desta forma, ainda que esses apoiadores possam ser uma minoria, já demonstraram ser suficientemente perigosos ao ponto de causar problemas e mobilizar a opinião pública, vide o espalhamento de teorias da conspiração como o QAnon [7] e a negação das vacinas durante a pandemia (BODNER; WELCH; BRODIE, 2020).

No entanto, as ideias mais hediondas desses grupos felizmente não são palatáveis para a maior parte das pessoas (racismo, antissemitismo, misoginia), pois mesmo dentre o eleitorado dos políticos de extrema direita (das "novas direitas"), são poucos aqueles que realmente concordam com todas essas pautas (NAGLE, 2017). Além disso, é provável que a maior parte desses apoiadores sequer saiba o que é um chan ou subreddit (ver glossário), pois os conteúdos desinformativos que influenciam as pessoas já chegam até os feeds e grupos das plataformas digitais (SOARES; VIEGAS; BONOTO; RECUERO, 2021). O problema é que esses conteúdos difundidos podem ser produzidos pelos apoiadores mais extremos, que participam dos núcleos de ódio e levam para as plataformas digitais uma versão mais leve, diluída e aparentemente menos perigosa dessas narrativas (NAGLE, 2017). Assim, entende-se que as comunidades anônimas podem servir como núcleos de informações prejudiciais, as quais podem chegar as plataformas de redes sociais através desses apoiadores intermediários. Essas "informações prejudiciais" são conteúdos negativos (desinformações, discursos de ódio, organização de crimes, teorias da conspiração, vazamentos, etc.) e que falham em contribuir para o bem comum, pois geram apenas consequências negativas quando são compartilhados (YANG et al, 2018; GIACHANOU; ROSSO, 2020). Deste ponto, é importante assumir a materialidade das relações entre as comunidades anônimas e a extrema direita, pois ambos os grupos são majoritariamente compostos por homens brancos, heterossexuais, antifeministas e reacionários (ZUCKERBERG, 2018).

Já faz algum tempo que os trabalhos acadêmicos deixaram de perceber as comunidades anônimas como meros espaços de diversão que eventualmente saem do controle, de modo que a dimensão misógina e violenta desses grupos salta cada vez mais aos olhos dos pesquisadores e pesquisadoras. Assim, esses estudos se voltam majoritariamente para a "machosfera" (manosphere), que se define como um conjunto de subculturas que se caracterizam pelos antifeminismos e pelos movimentos masculinistas de militância em prol dos "direitos dos homens" (NAGLE, 2017; GING, 2019). Esse termo foi popularizado pelos próprios participantes dessas subculturas, e serve justamente para se referir as redes masculinistas que se formam a partir da interligação de comunidades anônimas ou parcialmente anônimas (VILAÇA, D'ANDRÉA, 2021), como chans, subreddits, fóruns de internet e grupos ou perfis em plataformas de redes sociais (Facebook, Gab, Gettr, Instagram, Telegram, Twitter, YouTube, dentre outras).

Há tempos que essas subculturas anônimas já possuem espaço nas plataformas digitais, de modo que se beneficiam da infraestrutura e da visibilidade provisionada por esses sistemas. Mas, em contrapartida, seus administradores e moderadores precisam controlar o conteúdo produzido pelos participantes como forma de evitar as punições das plataformas (VELHO, 2018). No entanto, a presença dessas comunidades está se tornando cada vez mais instável, pois as plataformas convencionais estão mais "motivadas" em coibir a circulação de informações prejudiciais.

O que mudou desde as eleições presidenciais estadunidenses de 2016 (um marco para o problema da desinformação) (GILLESPIE, 2018), é que o problema das informações prejudiciais passou a ser combatido com mais vigor, pois os governos e organizações civis finalmente começaram a exigir que as plataformas digitais tomassem responsabilidade pelos conteúdos que circulavam em suas redes (SILVA; BOTELHO-FRANCISCO; DE OLIVEIRA; PONTES, 2019). O impacto disso é que ficou mais difícil publicar e compartilhar esses conteúdos, pois os perfis que lucravam com a difusão de informações prejudiciais começaram a ser ativamente suspensos ou desmonetizados (ROGERS, 2020), bem como os algoritmos das plataformas digitais também se tornaram mais eficientes em detectar e impedir a ação dos atores maliciosos (INNES; INNES, 2021).

Nesse sentido, destaca-se o fenômeno da deplataformização, que se refere aos acontecimentos e consequências em torno da suspensão permanente das contas de entidades ou figuras públicas em plataformas digitais (ROGERS, 2020; JHAVER et al, 2021). Essas práticas já demonstraram ser efetivas em coibir a circulação de conteúdos negativos, mas também foi percebido que podem ocasionar diversos efeitos colaterais (ALI et al, 2021). Dentre esses reveses, para cada suspensão permanente, existe a possibilidade de que esse perfil ressurja nas plataformas alternativas, que são plataformas digitais com regras mais flexíveis e que funcionam como alternativas as plataformas convencionais, pois possuem estrutura técnica, modelo de negócio e regras que viabilizam a publicação de informações prejudiciais (geralmente) sem qualquer consequência (LABARBERA, 2020; KEULENAAR; BURTON, 2021). Essas plataformas alternativas já eram terreno conhecido da machosfera e da extrema direita antes mesmo desse arranjo da deplataformização (ROGERS, 2020), pois a estrutura técnica que dificulta a rastreabilidade, aliada ao modelo de negócio irresponsável dessas empresas, tornam-nas espaços ideias para a proliferação de núcleos de ódio.

Deste modo, plataformas alternativas como Telegram, Gettr, Parler e Rumble, que já eram conhecidas como espaços de liberdade para os núcleos de ódio, agora também são acessadas por pessoas que não fazem parte desses grupos extremistas, pois, quando uma conta é suspensa e ressurge nas plataformas alternativas, seus seguidores também podem começar a acessá-las (INNES; INNES, 2021). Além disso, quando essas contas renascem nas plataformas alternativas, a tendência é que se tornem ainda mais violentas (ROGERS, 2020; ALI et al, 2021), de modo que seus seguidores também passarão a consumir conteúdos mais extremos.

Como consequência, assumindo lógicas de assortatividade, existe a possibilidade de que os núcleos de ódio, já antigos nas plataformas alternativas, conectem-se com essas novas redes de usuários, de modo que o contato dessas pessoas com esses conteúdos extremos poderia aumentar a adesão a essas ideias. Assim, a assortatividade se refere às preferências de alguns nós em se conectar com outros que são similares de alguma forma. Em redes sociais, a assortatividade pode ocorrer entre pessoas que possuem interesses em comum ou que estão geograficamente próximas (KOLACZYK; CSÁRDI, 2014).

Nesse sentido, dentre as plataformas alternativas, destaca-se o Telegram, que vem sendo utilizado pela extrema direita brasileira para difundir informações prejudicais (NASCIMENTO et al, 2022), e cujo aplicativo está instalado em pouco mais da metade dos smartphones brasileiros [8]. Jair Bolsonaro, inclusive, possui um canal com mais de 2,6 milhões de seguidores na plataforma [9], bem como diversos políticos e figuras públicas da extrema direita também possuem contas com bastante audiência [10].

Assumindo esses contornos, o tema desta pesquisa são as relações entre machosfera, extrema direita e informações prejudiciais nas redes brasileiras do Telegram. A tese deste trabalho é de que a machosfera brasileira opera sob uma lógica de assortatividade, de modo que se configura como uma rede de informações prejudiciais que potencializam as pautas da extrema direita. A questão de pesquisa é a seguinte: quais os impactos da machosfera no problema da circulação de informações prejudiciais no Telegram? O objetivo deste estudo é investigar as relações entre machosfera e extrema direita nas redes brasileiras do Telegram. Os objetivos específicos são (a) construir uma rede de grupos e canais brasileiros do Telegram que representam uma amostra da machosfera e suas comunidades relacionadas, (b) detectar os focos de informações prejudiciais nessa estrutura, (c) encontrar os grupos e canais de extrema direita que fazem parte desse conjunto e (d) analisar as conexões da rede e o teor dos conteúdos compartilhados pelos participantes entre as comunidades.

Quanto aos procedimentos metodológicos, optou-se por operacionalizar os métodos digitais (digital methods), os quais se caracterizam como um termo guarda-chuva utilizado para se referir ao uso de tecnologias digitais em razão de gerar, coletar e analisar dados qualitativos e quantitativos (ROGERS, 2013). Esses estudos possuem uma abordagem muito similar ao trabalho estatístico nas etapas de coleta e visualização dos dados, mas voltam-se para uma análise qualitativa na hora de interpretar os seus resultados. Em conformidade com esse recorte, optou-se pela abordagem "quali-quantitativa" de Omena (2019), que propõe uma análise de dados em conformidade com os métodos digitais, a qual interpreta os resultados da pesquisa (geralmente apresentados através de gráficos e redes semânticas) como um "mapa" do fenômeno que está representado na amostra.

Essa pesquisa possui adesão com a linha de pesquisa em "Linguagens e Processos Comunicacionais" do Programa de Pós-Graduação em Processos e Manifestações Culturais da Universidade Feevale, que investiga as manifestações culturais e suas relações com os processos comunicacionais contemporâneos. Este estudo foi possibilitado via fomento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), através do Edital de Apoio à Formação de Doutores em Áreas Estratégicas, que, sob o eixo temático "Economia e Sociedade Digital", concedeu três bolsas integrais de doutorado (sendo a autora deste trabalho uma das beneficiárias) e firmou parceria com a Universidade do Vale dos Sinos (Unisinos). Essa parceria permitiu que os doutorandos realizassem algumas das disciplinas do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Unisinos, e também que participassem dos grupos de pesquisa do referido PPG.

Quanto à estrutura da tese, no primeiro capítulo, o problema das informações prejudiciais é apresentado, bem como suas relações com a extrema direita, que ascenderam no mundo todo e se materializaram no Brasil através das "novas direitas" e do Governo Bolsonaro. Em seguida, estuda-se as relações entre machosfera e extrema direita, que se manifestam como núcleos de ódio que podem incitar o extremismo ao ponto de levar alguns participantes a cometerem massacres. Após, apresenta-se os conceitos de plataformas digitais, plataformas alternativas (alt-tech) e deplataformização (deplatforming), os quais desdobram-se em uma análise acerca do Telegram, que é um dos enfoques deste estudo. A seguir, descreve-se o delineamento metodológico da pesquisa, apresentando os procedimentos de coleta e análise dos dados, que estão pautados pelos métodos digitais quali-quantitativos. Por fim, os resultados do estudo são apresentados, seguido das considerações finais, referências bibliográficas e apêndices.

1 A SERVIÇO DE QUEM? INFORMAÇÕES PREJUDICIAIS E SUA RELAÇÃO COM A EXTREMA DIREITA

É difícil não relacionar o problema das informações prejudiciais com a ascensão da extrema direita no Brasil, que se manifestou através do governo de Jair Bolsonaro e seus aliados, nesse movimento político que ficou conhecido como novas direitas (KELLER; KELLER, 2019). Ao investigar sobre os motivos que levaram a essa situação, é comum encontrar citações às Jornadas de Junho em 2013, quando as pessoas tomaram as ruas em virtude do aumento da tarifa de ônibus ("Não É Pelos 20 Centavos") e perceberam que poderiam se posicionar de forma mais crítica diante dos problemas do país (MELO, 2019). Conforme Fernandes (2019), essas manifestações iniciaram impulsionadas tanto pela esquerda quanto pela direita, mas foi apenas um subconjunto das direitas brasileiras que foram capazes de construir narrativas que viriam a ter adesão nos anos seguintes, pois suas ideias se alinhavam a um descontentamento coletivo que, naquele momento, fazia sentido para as pessoas (MELO, 2019).

No ano seguinte às Jornadas de Junho, em 2014, começaram a surgir movimentos direitistas que se organizavam através da internet. Dentre esses movimentos, destaca-se o Movimento Brasil Livre (MBL), que logo conquistou popularidade nas plataformas de redes sociais (PEREZ, 2020), de modo que alguns de seus representantes inclusive foram eleitos em cargos políticos nos anos seguintes (Arthur do Val [11] e Kim Kataguiri [12] como deputados federais; Gabriel Monteiro [13] como vereador do Rio de Janeiro). No mesmo período, produtores de conteúdo como o Terça Livre (de Allan dos Santos [14]) e o Brasil Paralelo [15] também começaram a ganhar tração, desde já pautados pelo discurso revisionista e pelas teorias da conspiração (BRAGHINI; SEPULVEDA, 2022). Esses veículos independentes ganharam adesão em massa à medida que o povo brasileiro se sentia traído pelo Partido dos Trabalhadores e pelo establishment daquele período, de modo que os escândalos de corrupção e a crise econômica do país eram as principais indignações daquele momento (MELO, 2019).

Desta forma, esses influenciadores digitais e veículos independentes, enquanto apoiadores das novas direitas, conseguiram ganhar adesão em massa na internet, criando conteúdos fáceis de consumir, de compartilhar, e que se beneficiavam dos algoritmos de recomendação das plataformas digitais (PENTEADO; CRUZ JUNIOR, 2019). Esses conteúdos repercutiam com poucos impedimentos, pois os mecanismos de combate às informações prejudiciais viriam a surgir apenas nos anos seguintes (GILLESPIE, 2018).

Enquanto isso, havia um sentimento de desconfiança acerca dos veículos tradicionais de mídia, conforme as novas direitas os acusavam de realizar gatekeeping [16] antiético, defendendo que essas empresas estariam supostamente alinhadas aos interesses da esquerda brasileira (SEABRA, 2020). Aliado a esse problema, muitas pessoas já começavam a se informar através de notícias compartilhadas em plataformas de redes sociais e mensageiros instantâneos, as quais não necessariamente recebiam curadoria profissional e poderiam ser apenas desinformações (AMARAL; SANTOS, 2019).

Nos anos seguintes, houve o impeachment de Dilma Rousseff (2016) e a vitória de Jair Bolsonaro nas urnas (2018), ambos eventos que se pautaram pela difusão de informações prejudiciais para benefício político (PIAIA, 2018; MELLO, 2020). As manifestações exigindo o impeachment da Presidenta já começaram em 2015, ano em que, pela primeira vez, os brasileiros foram as ruas vestindo verde e amarelo para pedir por intervenção militar [17]. Essas manifestações golpistas foram amplamente divulgadas nas plataformas de redes sociais da época, num momento em que os influenciadores digitais se legitimavam com discursos inflamados para convidar as pessoas a mostrar seu "patriotismo" nas ruas [18].

Por fim, já nesta situação de ocaso iminente, em 2018, Jair Bolsonaro se tornou presidente, com um esquema de disparo de desinformações via WhatsApp financiado por empresas privadas, que posteriormente ficou conhecido como "terceirização do caixa dois" (MELLO, 2020).

Figura 1 – Manifestações golpistas de 2015 exigindo intervenção militar

Novo protesto aconteceu na Avenida Boa Viagem, no Recife, na tarde
deste domingo (Foto: Luna Markman /
G1)

Fonte: https://g1.globo.com/pernambuco/noticia/2015/03/manifestantes-no-recife-pedem-intervencao-militar-no-brasil.html.

Conforme essa contextualização, fica evidente que o problema da circulação de informações prejudiciais possui fortes laços com as novas direitas do Brasil, que conquistaram seu espaço utilizando desinformações e estratégias de ataque a oposição para ganhar vantagem política ilegítima. Desta forma, o objetivo desta seção é construir essa aproximação entre extrema direita e o problema das informações prejudiciais no Brasil.

1.1 ASCENSÃO DA EXTREMA DIREITA NO BRASIL

Após o impeachment de Dilma Rousseff em 2016, iniciou-se a concretização de um movimento político [19] que já vinha ganhando cada vez mais espaço desde as Jornadas de Junho em 2013 [20]. Termos como comunismo, redistribuição de renda e cotas raciais se tornavam tabu em meio à ascensão de ideias neoliberais que privilegiavam a economia em detrimento do bem-estar das pessoas (BROWN, 2018). O papel do Estado foi constantemente questionado por políticos [21] e influenciadores digitais [22] que defendiam uma concepção de "estado mínimo", o qual priorizava tornar o Brasil terreno fértil para a ação do setor privado, que supostamente era repelido do país em função das leis trabalhistas e dos altos impostos. Aliado a isso, a operação Lava Jato, mesmo com seus vieses ideológicos [23], golpeou fortemente o PT e a esquerda política, sendo um dos possíveis fatores que levaram ao pedido de impeachment de Dilma Rousseff, que já estava perdendo força e legitimidade na ocasião (PINTO; FILGUEIRAS; GONÇALVES, 2015).

Foi questão de tempo até que as novas direitas, que se dizia "conservadora" nos costumes e "liberal" na economia (KELLER; KELLER, 2019), assumisse diversos cargos importantes, dentre eles a Presidência da República, que foi ocupada por Jair Bolsonaro no ano de 2018. Nesse cenário, a autoestima do Brasil foi severamente atacada através de falas proferidas por políticos das novas direitas, que desvalorizaram o povo brasileiro [24], realizaram acordos verticais com superpotências [25] e insultaram outros países da América Latina [26]. Assim, o chamado "complexo de vira-latas" atinge novas dimensões, pois tudo isso aponta para a desvalorização do país, cujos representantes, voluntariamente, colocam-se em posição de subserviência perante essas superpotências, que são tomadas como um exemplo a ser seguido.

Boaventura de Souza Santos (2018) argumenta que o capitalismo contemporâneo se expande tendo como frente os Estados Unidos, vide o processo de globalização hegemônica, que avança a passos largos e de forma cada vez mais violenta e imprevisível. O autor utiliza do termo fascismo social para se referir ao arranjo social que vigora na contemporaneidade, segundo o qual grandes setores da sociedade são simplesmente excluídos e marginalizados, de forma a viverem na miséria, em meio à violência, sem trabalho e sem direitos. Conforme Santos (2018), o fascismo social pode coexistir com a democracia, pois é um fenômeno que atua em uma camada diferente dos sistemas políticos.

Frente a isso, destaca-se que o Brasil ainda é assombrado por movimentos separatistas, como, por exemplo, quando pessoas insistem que a região Sul do país é uma Europa geograficamente deslocada do mapa-múndi. Esses coletivos defendem a superioridade da "raça europeia" e, visto que o Sul foi majoritariamente colonizado por alemães e italianos, e também foi uma região onde houve menor miscigenação com negros e indígenas, existe essa concepção de que o Sul é uma nação à parte do Brasil (LUVIZOTTO, 2009). Nesse sentido, conforme relatório da Safernet, as denúncias de conteúdo com apologia ao nazismo na internet aumentaram em 600% entre 2015 e 2020 [27]. Segundo a mesma notícia, em entrevista concedida à Folha de São Paulo, Adriana Dias, antropóloga que estuda grupos neonazistas brasileiros há duas décadas, disse que houve crescimento considerável de células neonazistas no país, de 75 em 2015, para 530 em 2021. Ainda conforme Dias (2007), esses grupos são mobilizados pelo "pânico coletivo", pois seus participantes acreditam que a "raça branca" está em "extinção", de forma que justificam que suas ações sejam em prol de evitar esse suposto fim iminente.

Para além desse timing perfeito, é difícil não relacionar esse crescimento com a recente ascensão das novas direitas e do governo de Jair Bolsonaro, que já protagonizou diversas falas racistas [28] e acenos ao neonazismo [29], bem como seus apoiadores também já realizaram atos públicos de terror ao estilo Ku Klux Klan.

Figura 2 – Manifestação golpista contra o STF dos "300 do Brasil" de Sarah Winter

Fonte: https://veja.abril.com.br/politica/sara-winter-antes-de-ser-presa-preparava-nova-surpresa-ao-supremo.

Por fim, ressalta-se também o papel das teorias da conspiração nesse arranjo das novas direitas, pois cumprem a função de fornecer justificativas que mobilizam seus apoiadores em uma lógica de "nós" e "eles". Dentre essas teorias da conspiração, destaca-se o "globalismo", que foi defendido por Olavo de Carvalho (2009) como um suposto projeto de governo mundial. Conforme a leitura de Pena (2019), o globalismo é a negação da globalização, que enxerga esse processo como uma forma de romper as fronteiras culturais e econômicas das nações. Essa teoria da conspiração chegou ao Brasil através de Olavo de Carvalho, falecido em 2022, mas só foi colocada em pauta no governo de Jair Bolsonaro pela palavra do ex-Ministro de Relações Exteriores, Ernesto Araújo, que trouxe essa ideia a público através de discursos e textos de internet. Já no Brasil, o globalismo passa a não ser somente a negação da globalização, mas também a recusa a um suposto projeto de hegemonia esquerdista que, conforme Ernesto Araújo defende, infiltra-se na sociedade através de um processo de "doutrinação" (PENA, 2019).

Em vista dessa contextualização, a próxima seção deste estudo caracteriza o problema das informações prejudiciais e seus impactos negativos durante o governo de Jair Bolsonaro.

1.2 INFORMAÇÕES PREJUDICIAIS NA INTERNET: UM SUPERCONJUNTO DE PROBLEMAS

Informações prejudiciais (harmful informations) são conteúdos negativos e que falham em contribuir para o bem comum, pois geram apenas consequências negativas quando são compartilhados (YANG et al, 2018; GIACHANOU; ROSSO, 2020). Esses conteúdos são mais propagáveis do que as informações benéficas (TSUGAWA; OHSAKI, 2015), bem como as redes sociais que os difundem podem ser mais densas e conectadas entre si (MATHEW; DUTT; GOYAL; MUKHERJEE, 2019; RECUERO et al, 2021). As informações prejudiciais podem ser entendidas como um superconjunto que se refere aos diversos tipos de conteúdos negativos, tais como assédio virtual, conteúdos ilegais, discursos de ódio, factoides ("notícias falsas"), negação da ciência (pseudociência, anticiência), organização de crimes, rumores, teorias da conspiração, vazamentos (doxing), dentre outros (YANG et al, 2018; BANKO; MACKEEN; RAY, 2020; GIACHANOU; ROSSO, 2020; HANSSON et al, 2021).

Esses conteúdos negativos, geralmente, são desenvolvidos e difundidos por atores maliciosos que sabem exatamente o que estão fazendo, mas em alguns casos, por pessoas que, por ignorância, os compartilham sem entender que se tratam de informações prejudiciais (GIACHANOU; ROSSO, 2020; ICRC, 2021). Nesse sentido, é possível compreendê-las em três categorias distintas: informações equivocadas (misinformation), desinformações (disinformation) e más informações (malinformation) (WARDLE; DERAKHSHAN, 2017; CGI, 2020; GIACHANOU; ROSSO, 2020; ICRC, 2021). As informações equivocadas são criadas por acidente, quando não há intenção de causar qualquer prejuízo (datas incorretas, erros estatísticos, falhas não-intencionais); já as desinformações são conteúdos fabricados ou deliberadamente manipulados (factoides, negação da ciência, teorias da conspiração); por fim, as más informações são informações verdadeiras, mas que foram retiradas de contexto ou publicadas sem autorização (conteúdo ilegal, pornografia de vingança, vazamentos), onde os atores maliciosos possuem intenção de prejudicar terceiros em benefício próprio, seja para ganho pessoal, político ou corporativo.

A circulação de informações prejudiciais é um fenômeno complexo e difícil de rastrear, pois existem diversos focos de fabricação e de compartilhamento desses conteúdos. Existem sites noticiosos antiéticos que publicam desinformação (EMPOLI, 2019); influenciadores digitais de extrema direita que incitam o ódio (KERCHE, 2019); comunidades anônimas que se configuram como núcleos de informações prejudiciais (VELHO, 2018); grupos de WhatsApp pautados pela desinformação e pela polarização política (MELLO, 2020); conteúdos de assédio em plataformas de redes sociais (STOCKER; DALMASO, 2016); e conversas de caráter privado que ocorrem somente entre amigos e pessoas íntimas (SENNETT, 1988).

Embora essas informações sejam prejudiciais do ponto de vista público, podem ser consideradas positivas para pessoas e entidades que se beneficiam da circulação desses conteúdos; seja porque corroboram com suas pautas, ou porque prejudicam seus adversários (EMPOLI, 2019; MELLO, 2020). É importante destacar o teor político que é inseparável desse problema, tal como foi a circulação de desinformações durante a pandemia de COVID-19, que, no Brasil, pôde ser entendida como uma questão político-partidária para além de ser um problema de saúde pública, pois as estratégias de combate ao vírus (distanciamento social, uso de máscaras), mesmo com respaldo científico, foram tomadas como um mero alinhamento ideológico (RECUERO et al., 2021). As informações prejudiciais também já demonstraram ser capazes de impactar em decisões políticas importantes, conforme Donald Trump (em 2016) e Jair Bolsonaro (em 2018) se beneficiaram da circulação desses conteúdos em eleições presidenciais anteriores (MELLO, 2020; NAGLE, 2017).

Esse problema é potencializado pelas bolhas informativas das mídias sociais, onde os usuários tendem a interagir com conteúdos e pessoas que confirmam suas crenças, de modo a fazer surgir grupos e redes sociais onde todos pensam de forma muito parecida (PARISER, 2011; BRYANT, 2021). Assim, surgem também as disputas ideológicas que acontecem devido ao problema da polarização, pois quando essas pessoas entram em contato com ideias destoantes das suas, há um efeito de rejeição que as afasta ainda mais daqueles que discordam das suas crenças (INNES; INNES, 2021).

As plataformas digitais também podem ampliar esse fenômeno com seus algoritmos de recomendação ("filtros bolha"), que selecionam e ordenam os conteúdos em feeds personalizados, os quais ressaltam aquilo que poderia agradar seus usuários, de modo a complexificar ainda mais esse problema da polarização (PARISER, 2011). No entanto, é importante destacar que, empiricamente, já foi verificado que os usuários de plataformas digitais entram sim em contato com conteúdos que destoam de suas crenças, de modo que os algoritmos de recomendação impactam nos feeds dos usuários, mas não os impede de ver outros conteúdos diversos (BRUNS, 2019). As "bolhas informacionais", no entanto, podem sim ocorrer, mas geralmente acontecem nas redes extremistas (neonazistas, por exemplo) (BRUNS, 2019), e inclusive já foram encontradas em outros estudos (MATHEW; DUTT; GOYAL; MUKHERJEE, 2019). Com isso, destacam-se novamente os distúrbios informacionais que ocorreram durante a pandemia de Covid, pois as checagens de fatos não foram capazes de adentrar as bolhas de desinformação, de modo que essas pessoas continuaram a se orientar por informações prejudiciais, o que tornou mais grave o problema da doença (SOARES; VIEGAS; BONOTO; RECUERO, 2021).

Destaca-se que o conceito de "informações prejudiciais" possui versatilidade por ser um termo "guarda-chuva" para diversos tipos de conteúdos negativos. Mas, pelo mesmo motivo, também pode ser considerado "genérico", justamente por não considerar as facetas específicas desses conteúdos. No entanto, para esse estudo, entende-se que sua versatilidade compensa seus problemas, pois os conteúdos negativos das plataformas digitais podem se manifestar de formas tão diversas que se torna limitante (e desafiador!) classificá-los pela sua especificidade. Um exemplo é o tweet da Figura 3 (será apresentado a seguir), que foi entendido como discurso de ódio, mas, ao mesmo tempo, também é desinformativo.

Com isso, partindo dessa problematização, as próximas seções descrevem os principais tipos de informações prejudiciais que são importantes para este estudo.

1.2.1 Discursos de ódio

"Maldita inclusão digital" foi a fala de muitas pessoas quando a internet se tornou mais acessível e os brasileiros mais pobres começaram a utilizar computadores com acesso à rede. Como Araújo e Rios (2012) destacam, depois dos anos 2000 ficou muito mais fácil adquirir um computador e, com isso, os sites de redes sociais que antes eram exclusivos a uma "elite" de pessoas, passaram a ser utilizados por indivíduos que não estavam no nicho da comunicação e da tecnologia. Esse fenômeno ocasionou um incômodo às classes mais altas que já participavam desses espaços digitais, pois esses novos usuários muitas vezes compartilhavam conteúdo que fugia da estética dos grupos, frequentemente publicando fotos retratando sua realidade e textos que não seguiam a norma culta (ARAÚJO; RIOS, 2012). Os autores também destacam que a migração dos usuários do Orkut para o Facebook foi motivada pela busca por um espaço mais "exclusivo" e longe da "orkutização". Naturalmente, as pessoas das quais esses grupos estavam "fugindo" também chegaram ao Facebook, e da mesma forma como ocorreu no Orkut, essas pessoas voltaram a ser alvo dessas violências.

Nesse sentido, Rodeghiero (2012) analisou casos de violência no Facebook, e observou assédio contra pobres, mulheres e pessoas de baixa escolaridade. De forma similar, Stocker e Dalmaso (2016) analisaram os comentários ofensivos no Facebook da Folha de São Paulo, que foram postados em reação à uma entrevista com a ex-presidenta Dilma Rousseff, onde as falas misóginas e carregadas de ódio corresponderam a 56% do material analisado (STOCKER; DALMASO, 2016).

Figura 3 – Tweet de Alberto Fraga com discurso de ódio contra Marielle Franco

Fonte: https://g1.globo.com/df/distrito-federal/noticia/apos-divulgar-fake-news-sobre-marielle-deputado-alberto-fraga-suspende-redes-sociais.ghtml.

Frente a esses exemplos, os discursos de ódio são entendidos conforme a violência simbólica de Pierre Bourdieu (1989), que parte da prerrogativa de que toda comunicação se estabelece através das relações de poder entre seus agentes. O autor entende que em uma comunicação, o conteúdo da mensagem é inseparável do "poder simbólico" e do "poder material" acumulado pelos seus enunciadores, de forma que essas relações de poder sejam aquilo que viabiliza a violência simbólica, onde uma classe pode assegurar sua dominação sobre a outra sem a necessidade de qualquer violência física. Em concordância com Silva (2016), o discurso de ódio é um ato de "disciplina", onde o agressor utiliza da discriminação para demarcar ao "desviante" suas fronteiras, de forma a coagi-lo a voltar a sua "posição" de origem.

Conforme Recuero e Soares (2013), a violência simbólica que ocorre nas plataformas de redes sociais pode ser sintetizada em três instâncias que perpetuam sua manifestação: quando o humor é utilizado para suavizar e naturalizar a violência ("permissão do humor"); quando a violência é naturalizada e reforçada através de diversos compartilhamentos ("legitimação pela interação"); e quando pessoas que criticam a violência são repreendidas pela sua suposta falta de "senso de humor" ("descrédito dos críticos").

1.2.2 Factoides

De acordo com Muníz Sodré (2019), factoides são informações falsas (fake news) que tentam (intencionalmente) se passar por conteúdo noticioso legítimo, mas que na verdade são apenas desinformação fabricada. Esse termo é utilizado pela imprensa norte-americana desde o século XIX para se referir às mentiras que se pareciam com a verdade. Desta forma, devido à escala dos distúrbios informacionais contemporâneos, houve uma popularização dessa expressão, que vem sendo utilizada para se referir a um "fato falso" (SODRÉ, 2019).

Factoides podem se manifestar em sites noticiosos antiéticos (FREITAS et al, 2021), plataformas digitais (vídeos do YouTube, publicações do Facebook, resultados do Google) (ZUBIAGA et al, 2016) ou mensageiros instantâneos (WhatsApp, Telegram, etc.) (SOARES et al, 2021; VELHO, 2022). Tal qual o nome sugere, os factoides tentam se parecer com fatos verdadeiros, seja copiando a estética e a linguagem dos sites noticiosos confiáveis (FREITAS et al, 2021), ou tentando convencer as pessoas com fontes falsas e estratégias de retórica (SOARES et al, 2021).

Essas informações falsas geralmente são fabricadas por pessoas ou entidades que desejam convencer um público a aderir às suas convicções ideológicas (ICRC, 2021). Esses atores maliciosos exploram as emoções e os medos de um imaginário político para evocar legitimidade às suas narrativas, de modo que conseguem mobilizar um grande público através desses recursos discursivos (AZARIAS, 2015).

Assim, destaca-se o fenômeno da pós-verdade, que ocorre quando os fatos são ignorados em sua verdade, pois as pessoas assumem, equivocadamente, que suas emoções e crenças são mais importantes do que as evidências que sustentam a informação (ROCHLIN, 2017, LEWANDOWSKY; ECKER; COOK, 2017). Em vista da pós-verdade, teorias da conspiração e discursos de negação da ciência ganham adesão em massa, pois, ainda que sejam desinformações, são capazes de reafirmar as crenças e alimentar os medos de um imaginário político (AZARIAS, 2015).

Uma situação que ilustra muito bem o problema da pós-verdade ocorreu em 2019, quando a Bia Kicis (PSL) compartilhou no Twitter um vídeo desinformativo que associava o presidente Lula às Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), que logo foi removido pela própria deputada assim que ela soube que se tratava de uma mentira [30]. No entanto, Olavo de Carvalho se posicionou sobre o assunto defendendo que a veracidade dos fatos não importava, pois, "o sentido do que ele expressa é verdade pura".

Figura 4 – Tweet de Olavo de Carvalho sobre o vídeo que associa Farc com Lula

Fonte: https://twitter.com/olavoopressor/status/1188167295773872129.

1.2.3 Teorias da conspiração

É desde a época dos BBSs [31] (bulletin board system) nos anos 80, passando pelo desenvolvimento dos primeiros fóruns de internet nos anos 90, que as comunicações digitais são fomentadoras de lendas e teorias da conspiração. As antigas correntes de e-mail (que foram posteriormente substituídas por correntes de WhatsApp) e os contos do gênero creepypasta [32], há muito tempo já assumem lógicas de compartilhamento capazes de gerar interações que amplificam os medos das pessoas. Da mesma forma, existem teorias da conspiração que já são bem antigas e que circulavam na rede desde e época do Orkut, as quais vez ou outra reaparecem com algumas pequenas modificações e atualizações.

Dentre esses conteúdos mais antigos, destaca-se a série "A Chegada" [33], que realizava uma compilação das teorias da conspiração popularizadas na internet da década de 2000 ("a humanidade nunca foi a lua", negação do 11 de setembro, sociedades secretas, etc.). Essa série costurava essas narrativas para fundamentar um suposto e iminente "fim dos tempos", defendendo que os elementos fantásticos da cultura popular (super-heróis, deuses, criaturas mágicas) continham o propósito oculto de fazer as pessoas aceitarem a chegada do "anticristo". Essa série possuía 35 episódios com duração média de 10 minutos (longa duração para a época), e que ficou online no YouTube por anos sem ser removida da plataforma. É importante destacar que os elementos narrativos dessa série (sonoplastia aterrorizante, recortes de entrevistas e documentários para ganhar legitimidade, citações bíblicas, etc.) são bastante similares àqueles utilizados nas produções do Brasil Paralelo, canal do YouTube que ficou conhecido por difundir teorias da conspiração através de "documentários" de longa duração.

Assim, conforme Douglas et al. (2019, p. 4, tradução nossa), teorias da conspiração são "tentativas de explicar as causas finais de circunstâncias ou eventos políticos e sociais significativos com afirmações de planos secretos por parte de dois ou mais atores poderosos". Esse termo foi popularizado nos anos 60 quando a mídia estadunidense o utilizou para se referir aos investigadores independentes que não acreditavam na explicação oficial para o assassinato do presidente John Kennedy (AZARIAS, 2016). Quanto a um período mais recente, destaca-se acerca da ampliação desse fenômeno (uma "crise epistemológica"), quando canais do YouTube foram veículos para a difusão de teorias da conspiração e de narrativas anticiência (ALBUQUERQUE; QUINAN, 2019).

Figura 5 – Tweet onde Ernesto Araújo defende que a pandemia foi planejada

Fonte: https://twitter.com/ernestofaraujo/status/1334918898509082639.

Ressaltam-se os impactos negativos de uma possível adesão em massa a essas ideias, os quais podem ser observados no caso de negação da ciência que ocorreu durante o governo de Jair Bolsonaro, que tomava decisões favoráveis ao espalhamento da Covid [34]. Em março de 2020 [35], o presidente realizou um pronunciamento em que ele minimizou os impactos da pandemia ("gripezinha"), defendeu o uso da cloroquina para combater a doença, disse que o isolamento social era desnecessário, posicionou-se contra o uso da máscara e, também, disse que a imprensa estava "superdimensionando" o vírus. Com isso, embora teorias da conspiração não sejam baseadas em evidências, destaca-se que a circulação desse tipo de desinformação acarreta consequências reais.

Por fim, destaca-se também o caráter de "catástrofe iminente" dos discursos das novas direitas brasileiras, os quais sustentam uma narrativa de que, por um lado, um grande evento catastrófico está prestes a começar, mas, por outro, esse evento já está sendo maquinado há muito tempo (DEMURU, 2021).

2 PORQUE OS NÚCLEOS DE ÓDIO SÃO UM PROBLEMA: RELAÇÕES ENTRE MACHOSFERA E EXTREMA DIREITA

"Incel", "redpill", "machosfera" e "MGTOW" foram expressões que começaram a aparecer nas manchetes dos sites noticiosos, em matérias que explicavam as lógicas sexistas dos movimentos masculinistas contemporâneos [36]. Em grande parte, a popularização desse tema no Brasil aconteceu por causa de Thiago Schutz, um influenciador e "coach" brasileiro que "ensinava" os homens a "resgatar" sua masculinidade através de cursos, livros e palestras sobre o assunto. Após ser alvo de risos em uma paródia produzida pela atriz Lívia La Gatto, em que ela ironizou as lógicas absurdas dos conteúdos produzidos por Thiago em sua página do Instagram ("Manual Red Pill Brasil"), o influenciador "exigiu" que o conteúdo fosse imediatamente removido das plataformas, inclusive coagindo a atriz com ameaças de morte e medidas judiciais ("processo ou bala") [37]. Com a repercussão dessa violência, também começaram a surgir matérias de sites noticiosos sobre as relações entre "filosofia redpill" e extrema direita [38]^,^ [39]. Esses textos recordavam falas de participantes do governo de Jair Bolsonaro e, também, ressaltavam os problemas causados pelo Gamergate (ver glossário), quando as expressões "pílula azul" e "pílula vermelha" começaram a ser utilizadas em contexto político (WENDLING, 2018).

No entanto, ainda que pareça ser um problema novo, é desde a década de 1990 que comunidades anônimas caracterizadas como núcleos de ódio e de misoginia estão presentes na internet (STRYKER, 2011). No Brasil, ressaltam-se comunidades como o Fórum do Bufalo (fórum) [40], Legado Realista (fórum) [41], Suprema Ordem dos Homens de Bem (comunidade do Orkut) [42] e Dogolachan (chan) [43], que já existiam na internet muito antes da expressão pílula vermelha se tornar popular. Além disso, também não é novidade que esses homens estão alinhados as pautas da extrema direita, sendo constantemente associados a esse espectro político em diversos estudos sobre o assunto (NAGLE, 2017; WENDLING 2018; ZUCKERBERG, 2018).

Assim, o objetivo desse capítulo é descrever essas relações entre machosfera e extrema direita, de modo a destacar seus principais alinhamentos ideológicos. Esse texto foi enriquecido pelos achados de uma pesquisa exploratória "em cascata" (FRAGOSO, 2015), que investigou as comunidades anônimas brasileiras ativas (inclusive na dark web), e também utilizou a Internet Wayback Machine [44] para recuperar registros mais antigos de espaços digitais que já foram extintos. Destaca-se também que esse estudo possui enfoque na machosfera brasileira, assumindo que, conforme Vilaça e d'Andréa (2022), existem divergências entre as construções arquetípicas da "machosfera" (comunidades brasileiras) e da manosphere (comunidades em inglês). Para tanto, inicia-se abordando o surgimento das comunidades anônimas, bem como as possíveis razões pelas quais se estabeleceram como núcleos de ódio e de misoginia. Por seguinte, essa construção teórica é utilizada como base para descrever as relações entre machosfera e extrema direita. Por fim, ressaltam-se algumas tragédias que envolveram a machosfera e as comunidades anônimas, com o objetivo de justificar as razões pelas quais esses núcleos de ódio são perigosos e não devem ser tolerados.

2.1 SURGIMENTO DAS COMUNIDADES ANÔNIMAS

Até o ano de 1985, a quantidade de mulheres na área de Tecnologia da Informação crescia em um ritmo bastante acelerado. Em 1977, nos Estados Unidos, 1,5 mil mulheres e 4,8 mil homens conquistaram um bacharel em Ciência da Computação; em 1985, esse número cresceu para 13,4 mil mulheres (aumento de 10 vezes) e 24,6 mil homens (aumento de 5 vezes) (VARMA, 2010). No entanto, o cenário começou a mudar na segunda metade dos anos 1980, de modo que, em 1995, foram apenas 7 mil mulheres e 17,7 mil homens que se graduaram na área (VARMA, 2010). As ciências exatas sempre foram associadas aos homens brancos e de classe média (FRACHTENBERG, 2023), mas, retomando esse passado, é possível relacionar a queda com o marketing da época, que vendia os computadores e videogames como hobbies masculinos (KIRKPATRICK, 2017). Até os dias de hoje, as mulheres seguem sendo uma minoria na área de TI (RICHTER; YAMAMOTO; FRACHTENBERG, 2023), e os jogos digitais continuam sendo majoritariamente desenvolvidos para o público masculino (SALTER; BLODGETT, 2017).

Nesse cenário, nos anos 1980, surgiram as primeiras comunidades digitais, que antecederam o surgimento da web, as quais já se organizavam através do sistema de postagens e linhas de discussão que caracterizariam os fóruns de internet até hoje (MANIVANNAN, 2013). Essas comunidades digitais foram possibilitadas pelos BBSs (bulletin board system), que foram sistemas informáticos acessíveis via conexão de telefone, e que funcionavam através das interfaces de linha de comando dos computadores pessoais da época (DRISCOLL, 2022). Essas comunidades já se caracterizavam pelo anonimato, de modo que, inclusive, expressões como trolling a bait ("jogar uma isca" para incitar o caos), que são utilizadas até hoje, surgiram nessa época (STRYKER, 2011), demonstrando que as práticas de "trollar" sempre estiveram presentes. Além disso, desde 1984, existem registros de neonazismo, antissemitismo e misoginia nos BBSs (BERLET, 2001; DRISCOLL, 2022), de modo que o problema dos núcleos de ódio é mais antigo do que se poderia imaginar.

Quando a web surgiu nos anos 1990, as linhas de discussão dos BBSs foram transportadas para os primeiros fóruns de internet (STRYKER, 2011; DRISCOLL, 2022), os quais se beneficiaram das novas interfaces gráficas da época, que também permitiam a publicação de imagens, e não apenas textos. Esses fóruns já tratavam de diversos temas que continuariam sendo abordados até os dias de hoje, como animes, cultura geek, pirataria, problemas pessoais, racismo, tecnologia, dentre outros (STRYKER, 2011). Da mesma forma, os participantes também já defendiam discursos de ódio como "liberdade de expressão", característica que se ressaltou com o surgimento dos primeiros chans japoneses, os quais inspiraram cópias ocidentais (como o 4chan) que tentavam reproduzir uma versão em inglês desses espaços (STRYKER, 2011; MANIVANNAN, 2013; WENDLING, 2018). Os fundadores dessas primeiras comunidades anônimas acreditavam que não eram responsáveis pelos conteúdos enviados pelos participantes, pois entendiam ter apenas provisionado um espaço digital para a prática do discurso livre, e o que viria disso seria determinado pelas escolhas das pessoas (STRYKER, 2011).

Assim, os chans são um tipo de fórum anônimo de internet, onde seus usuários não possuem identificadores, de modo que sequer é possível reconhecer um participante pelas suas publicações (STRYKER, 2011; VELHO, 2018). Conforme surgem publicações novas, os conteúdos mais antigos são automaticamente removidos do site, fazendo com que essa efemeridade viabilize a publicação de conteúdos tóxicos que não deixam rastros (COLEMAN, 2014). Os primeiros chans surgiram no Japão, e por isso, os que vieram depois, estão pautados pela cultura desse país, mesmo nas versões ocidentais. Além disso, se caracterizam pela cultura geek, cultura hacker e cultura otaku, mas também são conhecidos como núcleos masculinistas de extrema direita, que difundem antissemitismo, homofobia, misoginia, racismo e diversos outros tipos de discursos de ódio (NAGLE, 2017). Comunidades chan-like podem se manifestar em plataformas digitais, mas apresentam um subconjunto diluído dos aspectos culturais dos chans, principalmente em função das materialidades das plataformas, que dificultam o anonimato (VELHO, 2018).

Fica evidente que as materialidades das comunidades anônimas fomentaram o desenvolvimento da machosfera, pois desde o começo já eram majoritariamente ocupadas por homens que relativizavam a liberdade de expressão (STRYKER, 2011). Deste modo, esse relativismo, somado às possibilidades de anonimato dos participantes nesse tipo de plataforma, tornou essas comunidades digitais terreno-fértil para a penetração de criminosos e grupos extremistas (STRYKER, 2011; COLEMAN, 2014). Assim, com o tempo, as comunidades anônimas se tornaram uma coalização entre cultura geek (KENDALL, 2011; SALTER; BLODGETT, 2017), cultura hacker (COLEMAN, 2014), movimentos masculinistas (ZUCKERBERG, 2018), extrema direita (antissemitas, fundamentalistas, misóginos, neonazistas, racialistas) (NAGLE, 2017; WENDLING, 2018), teorias da conspiração (BODNER; WELCH; BRODIE, 2020) e crimes digitais (cracking, pedofilia, pirataria, terrorismo) (STRYKER, 2011; COLEMAN, 2014). Fica evidente que a construção da machosfera perpassa por todas essas pautas, pois os movimentos masculinistas são evidentemente de extrema direita (NAGLE, 2017), orientados por teorias da conspiração (WENDLING, 2018; BODNER; WELCH; BRODIE, 2020), pela prática do terrorismo digital (WENDLING, 2018; ARONOVICH, 2022) e caracterizados por uma masculinidade branca, geek e de classe média (ZUCKERBERG, 2018).

É claro que as "comunidades anônimas" não se limitam aos fóruns de internet e BBSs. Na verdade, "plataformas" de fóruns de internet sempre foram uma realidade, pois serviços como o Forumeiros (site de fóruns), Blogspot (site de blogs), 8chan (site de chans) e Orkut (site de redes sociais) já existam desde a década de 2000, e sempre foram utilizados pela machosfera. Assim, é importante destacar que perfis do Twitter, páginas do Instagram e grupos do Facebook também fazem parte da machosfera (GING, 2019), ainda que suas permanências sejam incertas por causa dos algoritmos e da moderação das plataformas digitais (VELHO, 2018). Acontece que esses grupos muitas vezes são apenas portas de entrada para comunidades mais extremas (NAGLE, 2017), conforme seus participantes utilizam da visibilidade desses espaços para compartilhar links e instigar a curiosidade pelos núcleos de ódio (INNES; INNES, 2021). Aliado a isso, o anonimato segue presente mesmo nas plataformas digitais, pois os participantes utilizam affordances para ocultar suas identidades (contas falsas) e evitar a suspensão das comunidades (conteúdos tóxicos são periodicamente deletados, textos são codificados para enganar os algoritmos, etc.) (VELHO, 2018).

Assim, há um arranjo das comunidades anônimas, que estão presentes nas plataformas convencionais, nas plataformas alternativas, na web e na dark web, de forma que seus conteúdos e práticas são moldados pelas materialidades desses espaços. Por exemplo, as comunidades que existem nas plataformas convencionais geralmente possuem um grande número de participantes, mas seu conteúdo não é tão extremo, possivelmente para atrair um público maior e evitar as lógicas de moderação. Já as comunidades da dark web tendem a ser as mais extremas, mas geralmente possuem pouquíssimo tráfego e muito spam, porque são antiquadas (lentas e com péssima usabilidade), difíceis de encontrar (não aparecem nos motores de busca e possuem endereços ininteligíveis), de moderar (por causa do nível de anonimato) e logo terminam abandonadas pela falta de participantes (VELHO, 2019).

Por fim, destaca-se que as relações entre extrema direita e comunidades anônimas começaram a se fortalecer no final da década de 2000, de modo que os primeiros conteúdos do 4chan (2004) possuíam outro teor, destacando-se pelas discussões sobre anime, mangá e cultura japonesa (HAGEN, 2021). É claro que, os participantes dessas comunidades anônimas sempre se alinharam com misoginia e extrema direita (WENDLING, 2018), mas as primeiras manifestações dessas ideias (divulgação de shock sites com conteúdo racista e antissemita, por exemplo) foram motivadas pela prática do lulz ("rir às custas de alguém") (COLEMAN, 2014) e, também, para mostrar o poder dos anônimos (WENDLING, 2018). Esses homens só começaram a ficar "sérios" quando perceberam o avanço das minorias sociais, que estavam ganhando voz e conquistando mais espaço nas sociedades (NAGLE, 2017). Nos anos seguintes, o descontentamento desses homens ficou evidente em eventos como o Gamergate, quando as comunidades anônimas se organizaram para praticar terrorismo digital contra as mulheres da indústria de jogos digitais (GOULART; NARDI, 2017; WENDLING, 2018). Esse evento trouxe uma onda de misoginia nos Estados Unidos, a partir da qual deslegitimava-se as mulheres e se defendia a volta aos papéis tradicionais de gênero. Esse momento foi um marco para a popularização da machosfera, e também foi quando as expressões "pílula azul" e "pílula vermelha" começaram a se tornar populares nas comunidades anônimas (WENDLING, 2018). Assim, a próxima subseção do estudo estabelece essa aproximação entre machosfera, extrema direita e comunidades anônimas.

2.2 MACHOSFERA E SUAS RELAÇÕES COM A EXTREMA DIREITA

As relações entre movimentos masculinistas e grupos de extrema direita já são alvo de estudo há algum tempo, mas o assunto tem ganhado repercussão por causa da popularidade dos coachs de relacionamento. Esses "artistas da pegação" (PUAs ou pick-up artists) ensinam outros homens que as mulheres são levadas pelos seus instintos, e, também, que existem "técnicas de sedução" capazes de explorar esses supostos anseios biológicos (ALMOG, KAPLAN, 2017). Esses homens generalizam as mulheres e assumem, equivocadamente, que suas individualidades não importam, pois sempre vão buscar pelo "melhor homem" possível [45] (ALMOG, KAPLAN, 2017). Na percepção desses homens, o modelo de masculinidade desejado pelas mulheres é de alguém confiante, inteligente, fisicamente forte, poderoso e rico ("homem alfa") [46] (ZUCKERBERG, 2018). Por outro lado, a antítese dessa figura é um homem inseguro, sensível, com o corpo "fora de forma" ("homem beta") e interesse pela cultura geek (SALTER; BLODGETT, 2017).

O que os PUAs fazem é vender que todos os homens podem "resgatar" essa masculinidade latente, e que basta uma "mudança de comportamento" para alcançar todos esses atributos que são supostamente valorizados pelas mulheres (KENDALL, 2011). Esses homens entendem que há uma distorção dos papeis de gênero, e que precisam retomar a virilidade dos seus ancestrais, pois assim seriam capazes de conduzir as mulheres ao papel de subserviência que estariam destinadas a ocupar (ZUCKERBERG, 2018; GING, 2019). Para alcançar esses objetivos, o caminho parece ser comprar os cursos, livros e palestras dos coachs de relacionamento, que na verdade são apenas pseudociência disfarçada de autoajuda, estrategicamente desenvolvida para monetizar as inseguranças masculinas. Esses conteúdos ganham adesão em massa porque exploram os medos de muitos homens, que enxergam nessas ideias uma verdade acolhedora (NAGLE, 2017). Esses homens são colocados como vítimas, pois entendem que a "verdade" lhes foi escondida durante toda sua vida, mas também estão convencidos de que são guerreiros lendários frente uma jornada a ser superada (NAGLE, 2017; WENDLING, 2018).

Para tanto, os masculinistas se organizam e conversam através de comunidades anônimas, onde compartilham suas técnicas de sedução e práticas de autoaperfeiçoamento, bem como fomentam o ódio contra as mulheres (NAGLE, 2017). Existem vários movimentos masculinistas, e a maior parte deles concorda em vários pontos (principalmente quanto à inferioridade das mulheres), mas destoam quanto aos seus objetivos e práticas (nem todos acreditam nas técnicas de sedução, por exemplo), bem como algumas facções podem ser mais extremas do que outros (mas todas são núcleos de ódio) (ZUCKERBERG, 2018; GING, 2019). Os participantes desses movimentos autodenominam-se como parte da machosfera (manosphere), que se define como um conjunto de subculturas que se caracterizam pelos antifeminismos e pelos movimentos masculinistas de militância em prol dos "direitos dos homens" (NAGLE, 2017; GING, 2019).

A machosfera está "espalhada em subreddits, blogs, perfis no Twitter, canais do YouTube e fóruns chans, de maneira que pode ser pensada como rede sociotécnica multiplataforma" (VILAÇA, D'ANDRÉA, 2021, p. 414). Conforme Zuckerberg (2018), a machosfera está pautada pela "filosofia redpill", que faz analogia ao filme The Matrix para se referir as "descobertas" dos homens acerca das supostas injustiças sociais que os cercam. Conforme essa lógica, existem os homens que são "pílulas azuis" ("vivem uma mentira confortável") e os que são "pílulas vermelhas" ("vivem uma verdade dolorosa"). Nessa inversão das desigualdades sociais, esses homens se colocam como vítimas do feminismo e de uma sociedade que supostamente favorece as mulheres e oprime os homens (GING, 2019). A masculinidade tóxica que se manifesta na machosfera possui como base a concepção de superioridade dos homens beta em relação aos alfas, chads [47] e normies [48] (NAGLE, 2017), que têm em comum o fato de manifestarem sua masculinidade através de atributos físicos e habilidades sociais (KENDALL, 2011). Conforme Zuckerberg (2018), fica evidente que esse "homem oprimido" é branco, heterossexual e cisgênero.

Assim, a filosofia redpill nasceu dessa analogia ao filme The Matrix (spoilers até o final do parágrafo), onde o protagonista, Thomas A. Anderson, um jovem homem branco, que durante o dia é um dos programadores de uma Big Tech, e durante a noite um hacker conhecido como Neo, está buscando a "verdade" sobre o mundo, pois "sente" que há alguma coisa errada na própria natureza do espaço, mas não sabe dizer o que é. Em certo momento, o protagonista finalmente pôde descobrir a "verdade" (uma realidade virtual controlada por máquinas que se voltaram contra os humanos), mas é colocado diante de uma escolha: tomar a "pílula vermelha" por sua conta e risco ("sair da Matrix") e ser confrontado com uma terrível mas verdadeira realidade (um mundo distópico e devastado); ou tomar a "pílula azul", esquecer de tudo e viver uma vida normal, mesmo com a sensação de que há alguma coisa errada. Conforme o roteiro, Neo escolhe a pílula vermelha, sofre com a verdade, mas descobre que é um herói escolhido para salvar a humanidade do controle das máquinas.

Ignorando o fato de que, segundo as diretoras, "tomar a pílula vermelha" seria uma alegoria para ingerir pílulas de estrogênio e realizar a transição de gênero [49], The Matrix contempla temáticas (ficção científica, hacking, cenário distópico) e escolhas de roteiro ("jornada do herói" de um homem branco da área de tecnologia) que fazem muito sentido para a machosfera. Desde o Gamergate, a expressão redpill ganhou contornos políticos, pois se tornou um sinônimo para a "verdade", que consiste em teorias da conspiração de extrema direita (WENDLING, 2018). Dentre outras opções, alguns masculinistas também se descrevem como "pílulas pretas" (blackpills), de modo a quebrar o binarismo das pílulas azuis e vermelhas. Esses homens concordam com a percepção de que as mulheres são inferiores e irracionais, mas entendem que não vale a pena abrir espaço para relacionamentos, nem mesmo os casuais, pois defendem que a prioridade de suas vidas devem ser as conquistas pessoais e o sucesso financeiro (WENDLING, 2018). Esses homens seguem um caminho mais pessimista do que os MGTOWs, pois acreditam que as mulheres se atraem por características físicas que são determinadas biologicamente, de modo que não acreditam nas "técnicas de sedução" dos PUAs. Os blackpills são diferentes dos incels, pois já desistiram e ficaram deprimidos porque assumem que não poderiam ser alfas, enquanto os incels se sentem irritados e culpam a sociedade, as mulheres e os alfas pelos seus fracassos (GING, 2019).

Essas lógicas misóginas evidentemente estão baseadas em pseudociência, conforme partem de determinismos biológicos para justificar suas falhas em "pegar" mulheres (ALMOG, KAPLAN, 2017). Mas também ficam evidentes suas lógicas conservadoras e reacionárias, pois entendem que é um absurdo que as mulheres não queiram se relacionar com eles, "homens honrados", e prefiram (supostamente) se relacionar com os alfas, que são brutos e inferiores. Esses masculinistas acreditam que o mundo lhes deve isso, que é um direito adquirido em vista de sua condição de homem (NAGLE, 2017; GING, 2019). Observa-se que, assim como os apoiadores da extrema direita, esses homens entendem que são oprimidos pela sociedade, e que precisam lutar contra um inimigo poderoso para conquistar seus direitos (mesmo que seja justamente o contrário) (NAGLE, 2017). Ambos os grupos se orientam por ideias conservadoras, reacionárias e preconceituosas, que estão apoiadas em pseudociência, teorias da conspiração e negação da realidade (WENDLING, 2018; BODNER; WELCH; BRODIE, 2020).

Os alinhamentos ideológicos entre machosfera e extrema direita surgem justamente nas lógicas conservadoras, reacionárias, racistas, misóginas e anti-multiculturalistas que ambos possuem em comum (NAGLE, 2017). Vale destacar a importância das "novas direitas" que surgiram nas comunidades anônimas, como a direita alternativa (alt-rights), os neorreacionários (NRx) e os anarcocapitalistas (ancaps) (WENDLING, 2018). Os militantes dessas extremas direitas operam de forma descentralizada e colaborativa, destacando-se pelo uso de memes, da cultura DIY e do conteúdo gerado pelos usuários (UGC) (NAGLE, 2017).

Assim, as relações entre esses movimentos masculinistas e apoiadores da extrema direita ficam bastante evidentes, conforme ambos os grupos se destacam pelas seguintes características (NAGLE, 2017; WENDLING, 2018): (a) são reacionários, pois entendem que o mundo está errado, enquanto projetam um passado onde tudo era melhor e defendem um "retorno ao básico"; (b) acreditam que são protagonistas em uma fábula de "bem contra o mal", e para vencer o "mal" vale tudo, inclusive violência; (c) entendem que são especiais porque conhecem a "verdade", enquanto a maior parte das pessoas é ignorante; (d) se orientam por pseudociência e teorias da conspiração, de modo que as tentativas de mitigar esse problema são encaradas como censura, o que fortalece ainda mais suas crenças, pois o "mal" estaria tentando encobrir a "verdade"; (e) possuem um forte senso de coletividade, pois acreditam que são uma minoria prestes a ser massacrada, e que precisam lutar para garantir a sobrevivência.

Desta forma, líderes da extrema direita inclusive já realizaram acenos a esse público, provavelmente porque estão cientes desses alinhamentos e desejam fidelizar uma base de apoiadores. Em 2019, Jair Bolsonaro mandou "um forte abraço aos gamers" em seu Twitter [50]. Já em 2020, Abraham Weintraub (ex-Ministro da Educação no governo de Jair Bolsonaro) e Ivanka Trump (filha e ex-assessora de Donald Trump, quando ocupava a presidência dos Estados Unidos) também escreveram no Twitter que estava chegando o momento de a população escolher entre a pílula vermelha e a pílula azul, de modo que inclusive foram respondidos por uma das criadoras de The Matrix com um "fuck both of you" [51]. Além disso, em 2021, o ex-Ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, que foi afastado do governo por causa de um discurso com referências nazistas, disse em um evento que Jair Bolsonaro e seus ministros tomaram a pílula azul, mas que ele não tomou e nem tomaria [52].

Entende-se que "tomar a pílula azul" foi um ataque a masculinidade do Governo Bolsonaro, cujos líderes cederam a opinião pública e afastaram Ernesto Araújo. Essa acusação faz sentido dentro das lógicas desses homens, mas não é a primeira vez que situações contraditórias acontecem, de modo que os líderes da extrema direita defendem um padrão de masculinidade que eles mesmo não conseguem atingir (DINIZ, 2019). Defendem a ampliação do porte de armas, mas Bolsonaro já demonstrou não estar familiarizado com elas [53]; também defendem a militarização, mas Bolsonaro não conseguiu sequer fazer algumas flexões na frente de outros homens [54]; Sérgio Moro é tomado pelas novas direitas como um herói anticorrupção, mas demonstrou medo (e não "força") ao prestar contas no Senado, sobre os vieses da Operação Lava-Jato [55].

Por fim, é importante destacar que esses núcleos de ódio produzem impactos que vão muito além do escopo das comunidades anônimas, de modo que sequer é necessário estar ciente da sua existência para sofrer com suas consequências. Assim, a próxima seção do estudo ressalta eventos que foram conduzidos pela ação da machosfera, de modo justificar que esses núcleos de ódio não devem ser tolerados.

2.3 PORQUE OS NÚCLEOS DE ÓDIO SÃO UM PROBLEMA

Comunidades anônimas que se caracterizam como núcleos de ódio já existem na web desde os anos 1990 (STRYKER, 2011). Ainda assim, em vista do anonimato e das lógicas de efemeridade (COLEMAN, 2014), é comum que essas subculturas sejam lembradas somente quando alguma coisa "grande" acontece. No Brasil, com a popularização da filosofia redpill, que ocorreu por causa da situação de Thiago Schutz, começaram a surgir matérias em sites noticiosos explicando as pautas misóginas da machosfera, e alertando as pessoas sobre o problema da violência digital contra as mulheres. No entanto, não foi a primeira vez que as comunidades anônimas foram expostas como núcleos de ódio e ganharam atenção da grande mídia. Vale lembrar dos ataques contra o Estadão organizados no 55chan (2010) [56], dos conteúdos tóxicos publicados pelo blog Silvio Koerich (2011), da prisão de Marcelo Valle Silveira Mello (2009, 2012 e 2018), do vídeo-denúncia de Felipe Neto sobre os chans brasileiros (2016) [57] e também do Massacre de Suzano (2019), para perceber que esses núcleos de ódio são rapidamente esquecidos quando deixam de ser interesse público.

Figura 6 – Buscas pelos chans brasileiros

Fonte: Google Trends.

Nesse sentido, a Figura 6 apresenta um gráfico do Google Trends que mostra a quantidade de buscas pelas palavras-chave dogolachan, 55chan e brchan (maiores chans brasileiros das últimas décadas). Conforme é possível observar, houve um aumento significativo das buscas nos períodos próximos a quando os eventos citados anteriormente aconteceram. No entanto, o interesse por essas palavras-chave diminuiu drasticamente assim que esses temas deixaram as pautas da grande mídia, de modo que essas comunidades anônimas foram novamente esquecidas. Desta forma, ainda que essa exposição temporária seja de fato uma perturbação, por falta de impedimentos, as comunidades anônimas, eventualmente, reorganizam-se e continuam com suas práticas tóxicas, de modo que, para evitar a recorrência desses eventos, seria necessário um acompanhamento constante dessas redes de ódio. Evidentemente, não seria difícil encontrar justificativas para sustentar o monitoramento de grupos extremistas ligados ao terrorismo digital (COLEMAN, 2014), incentivo ao suicídio coletivo (STRYKER, 2011) e a organização de massacres em escolas (school shooting) (NAGLE, 2017), mas fica claro que os órgãos fiscalizadores ainda subestimam o problema. A Lei Lola, por exemplo, surgiu após quase 10 anos dos boletins de ocorrência de Lola Aronovich [58], que até hoje é alvo de perseguição e de ameaças dos masculinistas participantes de comunidades anônimas (ARONOVICH, 2022). Da mesma forma, ainda que tenham sido encontradas evidências que relacionam o Dogolachan ao Massacre de Suzano, não há registro de investigações que foram levadas adiante.

Assim, assumindo que a continuidade dessas práticas tóxicas ocorre com a conivência dos órgãos fiscalizadores, as próximas subseções deste estudo descrevem o caso de Lola Aronovich, Massacre de Realengo e Massacre de Suzano com o objetivo de justificar os motivos pelos quais as comunidades anônimas não deveriam ser subestimadas.

2.3.1 Terrorismo digital contra Lola Aronovich

Pago 5 mil reais via PayPal para quem conseguir montar na escrevalolaescreva como se fosse um touro de rodeio, filmar o ato e botar no YouTube.

A citação acima foi o conteúdo de um "anúncio" no blog Silvio Koerich (2011-2012) [59], um site de ódio que, dentre outras pautas hediondas, defendia assassinato de negros, mulheres e homossexuais, estupro coletivo para punir lésbicas, legalização da pedofilia, e também publicava imagens e vídeos de meninas sendo assassinadas ou estupradas e animais sendo torturados (gore). Além desses conteúdos, o site citava o Stormfront.org (fórum neonazista) e o Fórum do Búfalo (fórum masculinista) como "parceiros". O nome "Silvio Koerich" era um pseudônimo utilizado por um usuário do Orkut que frequentava as comunidades masculinistas da época, de modo que, em 2011, criou o blog para escrever sobre o assunto (ARONOVICH, 2022). No entanto, ainda que esse blog já pudesse ser considerado misógino, os conteúdos extremos citados anteriormente vieram de uma cópia, que repercutiu muito mais do que o original. Não é possível saber quem publicou o primeiro site [60], mas sabe-se que a cópia foi criada por Emerson Eduardo Rodrigues (antigo neonazista) e Marcelo Valle Silveira Mello (primeiro brasileiro a ser preso por racismo na internet), que já participavam dos núcleos de ódio há algum tempo.

Figura 7 – Banner do site Silvio Koerich

Fonte: https://web.archive.org/web/20110815000000/silviokoerich.org*

Deste ponto, destaca-se a história da professora universitária Lola Aronovich, que há muito tempo já é alvo do terrorismo digital praticado pelos participantes da machosfera. O problema começou em 2008, quando Lola criou um blog feminista intitulado "Escreva Lola Escreva", um dos pioneiros sobre o tema na blogosfera brasileira da época. Neste blog, dentre outros assuntos, a autora escrevia sobre questões de gênero e violência contra a mulher, assim como publicava posts de convidados [61] e divulgava links para outros blogs feministas (ARONOVICH, 2022).

Desde seus primeiros anos como blogueira, Lola já era vítima de ameaças e insultos nos comentários de suas publicações, assim como já era alvo dos discursos de ódio das comunidades anônimas da época. Lola sempre respondia aos insultos de forma sarcástica, inclusive criando publicações que compilavam os comentários mais estúpidos dos "mascus" (forma pejorativa como apelidou esses masculinistas) (ARONOVICH, 2022). A situação começou a ficar mais intensa com o surgimento do blog Silvio Koerich, que frequentemente ameaçava a blogueira de morte, inclusive prometendo uma recompensa para quem fosse capaz de assassiná-la. Além disso, havia ameaças constantes às alunas da Universidade de Brasília (UnB) [62], conforme prometiam um massacre ao prédio de Ciências Sociais, onde tentariam "matar o maior número de vadias e esquerdistas" (ARONOVICH, 2022).

O site de ódio foi alvo de boletins de ocorrência e denunciado mais de 70 mil vezes para a SaferNet [63], mas, supostamente, os responsáveis pela descoberta das identidades dos criminosos foram os participantes do Coletivo Anonymous [64]. Assim, em 2012, Emerson e Marcelo foram alvo da Operação Intolerância, organizada pela Polícia Federal, que prendeu os criminosos por um ano, acusados de publicar conteúdos discriminatórios e realizar apologia a diversos crimes. No entanto, após suas solturas, ambos os criminosos continuaram enviando ameaças de morte e escarnecendo Lola através da internet, pois culpavam a blogueira pelo rumo que suas vidas teriam tomado.

Em 2013, Marcelo criou o Dogolachan, um chan brasileiro que conseguia ser extremo até mesmo para os padrões das comunidades anônimas. O principal objetivo desse chan era convencer seus participantes a cometerem um "Actum Sanctum", que significa realizar um massacre e matar a maior quantidade de mulheres, homossexuais e "esquerdistas" possível, e logo após cometer suicídio (ou ser assassinado pela polícia) [65]. O próprio Marcelo enviou o link do site para Lola, que, por mais de quatro anos, acompanhou ameaças de morte a ela e sua família. Marcelo também testava a "lealdade" dos participantes do Dogolachan, fazendo com que eles ligassem para a blogueira com o objetivo de aterrorizá-la. Lola acompanhou o site durante anos e criou um dossiê com todas as provas de identidade (publicadas quando os participantes brigavam) e crimes cometidos, pontualmente criando boletins de ocorrência para as situações mais sérias (ARONOVICH, 2022).

Entre 2013 e 2017, Marcelo e seus seguidores criaram diversos sites em nome da blogueira, os quais publicavam discursos de ódio que tinham como objetivo horrorizar as pessoas e promover um linchamento contra Lola (ARONOVICH, 2022). Esses sites não ganharam muita repercussão, até que, em 2015, um deles foi impulsionado por Olavo de Carvalho e outros reacionários [66], que divulgaram o conteúdo mesmo sabendo que se tratava de mentiras associadas à blogueira. O site em questão utilizava o nome da blogueira (com seus dados pessoais, inclusive telefone e endereço) para defender racismo, aborto de fetos masculinos e queima de bíblias [67]. Como resultado, ela recebeu ligações de vários homens indignados, e, também, foi denunciada e teve que provar para a polícia que o site não era dela (o que foi fácil por causa do dossiê que estava montando) (ARONOVICH, 2022).

Essa situação chamou a atenção da grande mídia, que estava interessada em saber por que uma professora universitária estava sendo tão atacada. Com a repercussão, em 2016, a deputada federal Luizianne Lins (PT do Ceará), percebeu as dificuldades de Lola em denunciar o terrorismo digital, e redigiu um projeto de lei que atribua a Polícia Federal investigar crimes de ódio contra as mulheres na internet, que viria ser sancionada em 2018 como a "Lei Lola" (primeira vez em que a palavra "misoginia" apareceu na lei brasileira) (ARONOVICH, 2022). Em 2018, Marcelo finalmente foi preso com pena de 41 anos pela Operação Bravata [68], em que foi acusado por divulgação de pedofilia, racismo, terrorismo, dentre outros crimes. No entanto, o Dogolachan continuou mesmo sem a ação do seu fundador, e Lola segue recebendo ameaças dos "mascus" até hoje (ARONOVICH, 2022). Assim, em vista da falta de fiscalização das comunidades anônimas, em 2019, aconteceu o Massacre de Suzano, uma vez que foi verificado que o crime foi parcialmente planejado no Dogolachan, que já enaltecia o Massacre de Realengo.

2.3.2 Massacre de Realengo e Massacre de Suzano

O Massacre de Realengo [69] foi um massacre escolar (school shooting) que ocorreu em 2011 na Escola Municipal Tasso da Silveira, no município de Rio de Janeiro. Na ocasião, Wellington Menezes de Oliveira, de 23 anos, invadiu a escola e atirou nos alunos e alunas que estavam presentes, todos com idade entre 13 e 16 anos, de modo que matou 12 e deixou 22 feridos. Wellington chegou na escola pela manhã, bem-vestido, apresentou-se como palestrante, e entrou em uma sala de aula do 9º ano. Calmamente, sacou as armas e começou a disparar nas meninas com a intenção de matar, e nos meninos somente mirava nos braços e pernas para machucar. Durante a execução, ele se referia as meninas com seres impuros, e as assassinava de forma cruel mirando diretamente na cabeça. Wellington conseguiu efetuar trinta disparos, até que foi impedido com dois disparos da polícia e cometeu suicídio com um tiro na própria cabeça.

Wellington era conhecido como um jovem introspectivo, que passava a maior parte do tempo no computador. Ele sofria bullying e pesquisava muito sobre atentados terroristas e grupos religiosos fundamentalistas. Na época, a execução não foi entendida como um crime de ódio, e, também, não foram encontradas evidências que ligavam o planejamento do crime às comunidades anônimas, ainda que Lola Aronovich tivesse estabelecido essa associação (ARONOVICH, 2022). No entanto, um dos "heróis" que aparecia no banner original do Dogolachan, era Wellington, que pelas lógicas dos seus participantes, havia realizado um "ato santo". O que liga o Massacre de Realengo ao Massacre de Suzano é o cenário de bullying e suposta participação em comunidades anônimas, de modo que esses criminosos podem ter sido motivados por esses núcleos de ódio.

No caso do Massacre de Suzano [70], veículos noticiosos relevantes divulgaram (mostrando apenas capturas de tela) que o crime foi parcialmente organizado no Dogolachan, cujos participantes celebraram as mortes após o ocorrido. Nesse massacre, dois ex-alunos da Escola Estadual Professor Raul Brasil, no município de Suzano em São Paulo, mataram 5 estudantes, 2 funcionárias e deixaram 12 estudantes feridos. Antes do crime, eles também mataram o tio de um dos atiradores. O massacre ocorreu em 2019, quando Guilherme Taucci Monteiro (17 anos) e Luiz Henrique de Castro (25 anos) entraram na escola encapuzados com máscaras de caveira e equipados com diversas armas (inclusive uma machadinha). Um dos terroristas se dirigiu ao pátio da escola com uma arma de fogo enquanto o outro acertava as pessoas já caídas efetuando cortes com a machadinha. Após o crime, Guilherme matou o parceiro e depois cometeu suicídio.

Guilherme sofria bullying e era simpatizante do nazismo, sendo amigo de Luiz desde a infância. Os atiradores passavam a maior parte do tempo juntos e, segundo pessoas próximas, nunca tiveram antecedentes de violência. Antes do crime, um dos atiradores publicou diversas imagens em sua rede social, utilizando a máscara de caveira e segurando uma das armas de fogo. Sabe-se também que houve um terceiro envolvido, que colaborou na organização do crime e informou que os atiradores também tinham a intenção de realizar estupros, bem como contou que acreditavam realizar um "ato santo". As autoridades entenderam que o crime ocorreu por causa de bullying, e, também, porque desejavam superar o Massacre de Columbine (Estados Unidos) em número de armas e mortes.

Por fim, ainda que nesses casos as evidências sejam meras capturas de tela e "coincidências linguísticas" ("ato santo"), não é a primeira vez que os chans são associados com massacres e terrorismo. Em 2000, um jovem japonês de 17 anos publicou no 2channel (chan japonês) que estava prestes a sequestrar um ônibus, o que aconteceu uma hora depois, quando esfaqueou um passageiro até a morte (incidente em Neomugicha) [71]. Em 2008, o 2channel também foi utilizado para anunciar o massacre de Akihabara no Japão [72], onde um jovem japonês de 25 anos atropelou 5 pessoas com um caminhão e depois esfaqueou pelo menos outras 12 pessoas com uma adaga. Em 2015, foi verificado que os participantes do 4chan incentivaram o autor do tiroteio no Umpqua Community College [73]. Em 2019, o 8chan teve que migrar para a Rede Tor (dark web), porque foi verificado que o site estava relacionado aos massacres em Christchurch, Chabad of Poway e El Paso [74] que ocorreram no mesmo ano.

3 DO MAINSTREAM AO ALT-TECH: (DE)PLATAFORMIZAÇÃO E PLATAFORMAS DIGITAIS

A campanha "Stop Hate For Profit" pressionou as plataformas digitais a tomar medidas mais efetivas diante do problema da circulação de informações prejudiciais, pois além de pessoas e organizações civis, ela obteve o apoio de empresas (Adidas, BestBuy, Ford), que ameaçaram retirar seu dinheiro das plataformas de publicidade programática (Facebook Ads, Google Ads) (VILLAGRA; MONFORT; MÉNDEZ-SUÁREZ, 2021). Essa estratégia de "ataque ao lucro" também foi utilizada pelos ativistas da Sleeping Giants Brasil, que conseguiram desmonetizar o Jornal da Cidade Online, site noticioso antiético que ficou conhecido por publicar desinformação em larga escala. Os mesmos ativistas também conseguiram suspender a conta de Olavo de Carvalho (o "guru" do bolsonarismo) da plataforma de pagamentos PayPal, falecido astrólogo e autoproclamado filósofo que ficou conhecido por divulgar mentiras e teorias da conspiração (GARCIA, 2021).

Diante dessas demandas e após sofrerem forte pressão pública, as plataformas digitais de fato melhoraram suas políticas de combate às informações prejudiciais (SILVA; BOTELHO-FRANCISCO; DE OLIVEIRA; PONTES, 2019), mas, ainda assim, estão pautadas por lógicas e estratégias de negócio que incentivam a circulação desses conteúdos. Os algoritmos opacos das plataformas digitais privilegiam alguns sentidos em detrimento de outros, fazendo com que determinadas interações tenham mais visibilidade para algumas pessoas. Os chamados "filtros bolha" são as consequências dos sistemas de recomendação dessas plataformas (PARISER, 2011) e podem acentuar ainda mais o problema da circulação de informações prejudiciais (BRYANT, 2020). De acordo com Van Dijck, Poell e De Waal (2018), os "filtros bolha" estão na dimensão dos algoritmos de seleção das plataformas digitais, os quais, embora possuam relevância pública, permanecem estrategicamente com seus códigos-fontes fechados (GILLESPIE, 2018).

As plataformas digitais se colocam em uma posição de neutralidade, e esperam que as pessoas simplesmente "aceitem" e "confiem" em suas lógicas para mediar diversos aspectos do cotidiano, que vão desde negócios até a vida privada. Com essa percepção, e também sob a prerrogativa de defesa da "privacidade" dos usuários, as APIs [75] e os termos de uso das plataformas digitais estão cada vez mais restritivos em liberar o acesso sistemático aos seus fluxos de dados (D'ANDRÉA, 2020), tornando pesquisas científicas que dependem dessas informações cada vez mais impraticáveis. Ironicamente, em contrapartida, essas mesmas plataformas tornam seus algoritmos cada vez mais potentes em extrair padrões e recorrências das interações dos usuários.

Conforme Mattelart e Vitalis (2014) argumentam, esse cibercontrole é invisível e intangível, pois funciona sem o conhecimento das pessoas, que esquecem da presença constante das práticas de vigilância. Os autores destacam acerca do caráter de predição dos algoritmos de vigilância, que são capazes de antecipar o comportamento desviante dos usuários. Esses algoritmos estão baseados em poderosos modelos estatísticos, que podem mapear perfis e detectar automaticamente a presença de usuários potencialmente indesejados. Para além do aspecto da vigilância, esses algoritmos podem se tornam verdadeiras máquinas de preconceitos devido às generalizações que realizam (GILLESPIE, 2018).

Por outro lado, os algoritmos e demais instrumentos de moderação podem ajudar a combater os maus usos das plataformas digitais, onde atores maliciosos se beneficiam da visibilidade desses espaços para fazer circular desinformações e discursos de ódio (RECUERO et al, 2021). Quando esses atores maliciosos são identificados, as plataformas digitais podem responder com a suspensão da conta, que pode ser temporária ou definitiva. Esse fenômeno é conhecido como deplataformização, que se refere aos acontecimentos e consequências em torno da suspensão permanente das contas de entidades ou figuras públicas em plataformas digitais (ROGERS, 2020; JHAVER et al, 2021).

Mas, mesmo essas punições, que à primeira vista parecem ser positivas, devem ser utilizadas com cautela, pois, quando o perfil de uma figura pública é permanentemente suspenso ("deplataformizado"), essa ação pode desencadear uma série de efeitos adversos (INNES; INNES, 2021), que começam com a reação negativa dos seguidores, e terminam com a possibilidade da conta suspensa mover suas atividades para as plataformas alternativas, que geralmente são coniventes com as informações prejudiciais (LABARBERA, 2020; KEULENAAR; BURTON, 2021). Assim, plataformas alternativas (alt-tech), são plataformas digitais com regras mais flexíveis e que funcionam como alternativas a plataformas convencionais, pois possuem estrutura técnica, modelo de negócio e regras que viabilizam a publicação de informações prejudiciais (geralmente) sem qualquer consequência (LABARBERA, 2020; KEULENAAR; BURTON, 2021).

Deste ponto, destaca-se a questão da "controvérsia" que D'Andréa (2020) sugere ser de extrema importância para estudar as plataformas digitais, pois não basta entender o que reverbera nesses espaços (os sentidos), mais do que isso, o pesquisador precisa também observar como as materialidades (nesse caso, os algoritmos e vieses das empresas) produzem impacto na construção dos sentidos. As materialidades da comunicação "são todos os fenômenos e condições que contribuem para a produção de sentido, sem serem, eles mesmos, sentido" (GUMBRECHT, 2010, p. 28). Bollmer (2019) entende que as materialidades digitais são ofuscadas pelas interfaces gráficas, pois elas geralmente utilizam metáforas abstratas para representar processos que na verdade são muito complexos. Para enviar um e-mail, por exemplo, uma série de eventos é desencadeada, os quais passam por cabos de internet, dispositivos de rede e centros de dados. Bollmer (2019) também entende que as materialidades não são apenas aquilo que é fisicamente tangível, de forma que processos, relações, cognição e linguagens também sejam parte desse conjunto. Pensar as materialidades digitais é justamente considerar essas diversas questões que passam despercebidas por um observador desatento; é entender que as plataformas digitais, enquanto objetos de estudo, se desdobram em fenômenos que vão para além da dimensão dos sentidos.

A partir disso, o objetivo dessa seção é contextualizar as plataformas digitais, ressaltando o aspecto da plataformização e do ecossistema de plataformas convencionais. Por seguinte, objetiva-se também abordar o fenômeno da deplataformização e das plataformas alternativas, bem como sua relação com o problema da circulação de informações prejudiciais na internet. Por fim, realiza-se também uma aproximação as lógicas do Telegram, que é a plataforma alternativa a ser investigada neste estudo.

3.1 PLATAFORMAS E PLATAFORMIZAÇÃO

3.1.1 Plataformas digitais

De acordo com Poell, Nieborg e Van Dijck (2020, p. 3), plataformas digitais são "infraestruturas digitais (re)programáveis que facilitam e moldam interações personalizadas entre usuários finais e complementadores, organizadas por meio de coleta sistemática, processamento algorítmico, monetização e circulação de dados". Plataformas de serviços como AirBNB, iFood e Uber, que são sistemas codificados para resolver problemas específicos, foram os responsáveis por popularizar as plataformas digitais (VAN DIJCK; POELL; DE WAAL, 2018). Essas empresas utilizam modelos de negócio que se configuram como "mercados bilaterais", sendo intermediárias de serviços que provisionam somente a parte logística e tecnológica da operação (RUNGSRISAWAT; SAENGPAYAP, 2019).

Essas plataformas digitais que possuem características de mercados bilaterais são conhecidas como plataformas setoriais, pois atuam em um nicho específico (VAN DIJCK; POELL; DE WAAL, 2018), como mobilidade urbana, serviços de entrega, alugueis e hospedagens. Essas plataformas funcionam como "conectores" que intermedeiam a ação dos complementadores, que são os atores do sistema; as "pontas" que são conectadas através da plataforma (VAN DIJCK; POELL; DE WAAL, 2018). Para a Uber, são os motoristas e passageiros; para o AirBNB, são os anfitriões e os hóspedes.

Para além desse modelo de negócio, existem as plataformas infraestruturais, que são os "blocos de montar" utilizados para provisionar recursos para as plataformas setoriais (VAN DIJCK; POELL; DE WAAL, 2018; PLANTIN; PUNATHAMBEKAR, 2019). A presença dessas infraestruturas nem sempre fica evidente para o usuário final, mas estão presentes na tecnologia de mapas da Uber (Google Maps), na infraestrutura de nuvem utilizada pela Netflix (Amazon AWS) e, também, nas fotos das acomodações publicadas pela AirBNB (Amazon S3). Da mesma forma, a disponibilidade dos aplicativos dessas empresas também depende das infraestruturas da Google Play e da App Store (MAGAUDDA, 2022). Outros exemplos de plataformas infraestruturais são os navegadores de internet (Google Chrome, Mozilla Firefox, Apple Safari), sistemas operacionais (Android, iOS, macOS, Windows), motores de busca (Google, Bing) e plataformas de redes sociais (Facebook, Instagram, TikTok). Com isso, as plataformas dependem de diversas infraestruturas para garantir o seu funcionamento (BLANKE; PYBUS, 2020), de forma que esse emaranhamento entre sistemas é conhecido como "ecossistema de plataformas digitais" (VAN DIJCK; POELL; DE WAAL, 2018).

As fronteiras entre plataformas "setoriais" e "infraestruturais" nem sempre são evidentes, de modo que algumas plataformas podem pertencer a ambas as categorias. Um exemplo disso é o Google Maps, que é uma infraestrutura de mapas para vários aplicativos de mobilidade urbana, mas é também, por si só, um aplicativo de GPS disponibilizado para o usuário final (plataforma setorial). Esse emaranhamento e interligação entre diversos sistemas que cumprem funções específicas é conhecido como um ecossistema de plataformas digitais (VAN DIJCK; POELL; DE WAAL, 2018).

Embora esse nome possa sugerir que esse ecossistema seja algo descentralizado, ressalta-se que as empresas que governam a maior parte das plataformas infraestruturais são alguma das Big Five, as cinco grandes empresas de tecnologia que dominam a maior parte desses sistemas de informação (BLANKE; PYBUS, 2020). O arranjo das Big Five é composto por Alphabet (Google), Meta (Facebook), Apple, Amazon e Microsoft. Essas são as maiores empresas de tecnologia do mundo, todas localizadas no território dos Estados Unidos. Apple, Alphabet, Meta e Microsoft estão sediadas no Vale do Silício, Califórnia; Amazon está sediada em Seattle, Washington.

3.1.2 Plataformização

Em perspectiva da seção anterior, Plantin e Punathambekar (2019) lembram que essas empresas começaram como plataformas setoriais focadas em áreas específicas, mas com o tempo, passaram a atuar em diversos setores, de forma que se tornaram infraestruturas essenciais para mediar até mesmo questões políticas e sociais contemporâneas. Ainda segundo os autores, essas empresas realizam investimentos substanciais em recursos físicos de infraestrutura, de forma que demonstram interesse em expandir seus mercados provisionando recursos de rede e acesso à internet para regiões pobres de países emergentes. Essas empresas também foram responsáveis por diversas melhorias nas tecnologias de telecomunicação em escala mundial, inclusive implementando cabos submarinos que interligam continentes (WINSECK, 2017; PLANTIN; PUNATHAMBEKAR, 2019).

Embora pareça, à primeira vista, que essas ações sejam uma contribuição genuína para o bem comum, que inclusive já beneficiaram alguns países pobres (ABECASSIS et al, 2020), o objetivo primário desses investimentos é criar recursos suficientemente poderosos e capazes de suprir suas próprias demandas computacionais. Da mesma forma, os investimentos que buscam ampliar o acesso à internet também servem para expandir o mercado e alcance dos seus serviços.

Assim, fica evidente que os fenômenos de plataforma são muito mais do que uma questão tecnológica, pois afetam as sociedades, a economia e os governos, de modo que não há como ignorar sua relevância pública. Nesse sentido, um dos principais fenômenos associados às plataformas digitais é o processo de plataformização, que é definido como

a penetração de infraestruturas, processos econômicos e estruturas governamentais das plataformas digitais em diferentes setores econômicos e esferas da vida. Ela também envolve a reorganização de práticas e imaginários culturais em torno dessas plataformas (POELL; NIEBORG; VAN DIJCK, 2020, p. 5)

Quanto aos impactos desse processo, destacam-se as questões de governança das plataformas digitais (quais tipos de conteúdos são permitidos de serem publicados), dos indecifráveis termos de contrato que as protegem, da sua atuação em áreas cinzas da lei (cuja regulamentação é recente) e, também, dos algoritmos enviesados que privilegiam os interesses dessas companhias (PARISER, 2011; GILLESPIE, 2018).

Desta forma, os autores Giddens e Fiker (1991) entendem que, na modernidade, as relações de confiança entre grupos com interesses mútuos foi substituída pela prestação de serviços das empresas. Assim, as relações de troca de recursos e mantimentos que caracterizavam as comunidades pré-modernas foram substituídas por relações com empresas que suprem diversas necessidades humanas, como transporte, alimentação e moradia. Giddens e Fiker (1991) entendem que essas empresas são sistemas abstratos e sistemas peritos, pois as pessoas não sabem como seus serviços funcionam (são "abstratos"), apenas "confiam" na perícia desses sistemas para mediar diversos aspectos de suas vidas, tal como ocorre com os algoritmos das plataformas digitais.

Por fim, Van Dijck, Poell e De Waal (2018) entendem que esses problemas e desafios que emergem junto à "sociedade da plataforma" devem ser tratados com o protagonismo das empresas que governam essas infraestruturas, mas isso deve ocorrer junto a presença ativa dos governos e das organizações civis. Os autores também discutem acerca do valor público que essas plataformas possuem a obrigação de devolver para as sociedades, pois suas grandes margens de lucro precisam ser contrabalanceadas com responsabilidade e serviços que são benéficos para as pessoas (SCHOLZ, 2017).

3.2 PLATAFORMAS ALTERNATIVAS E DEPLATAFORMIZAÇÃO

3.2.1 Plataformas alternativas

Em janeiro de 2021, no auge dos debates sobre o Ataque ao Capitólio, Donald Trump se tornou a primeira figura pública estadunidense a ser permanentemente suspensa do Twitter (FORSBERG, 2021). Antes disso, Trump já tivera diversos tweets removidos pela plataforma, pois consistiam em discursos de ódio e informações equivocadas. Essa suspensão de fato diminuiu o alcance das suas publicações, mas não foi capaz de eliminá-las completamente, pois além dos apoiadores que protestaram contra o ocorrido, o ex-presidente dos Estados Unidos moveu suas atividades para o microblogue Gab, onde já possui mais de dois milhões de seguidores (ALI et al, 2021).

Figura 8 – Perfil de Donald Trump na plataforma Gab

Fonte: https://gab.com/realdonaldtrump

Tal como o Gab, esses serviços que defendem a "liberdade de expressão" são conhecidos como plataformas alternativas (alt-tech platforms), que são plataformas digitais com regras mais flexíveis e que funcionam como alternativas as plataformas convencionais, pois possuem estrutura técnica, modelo de negócio e regras que viabilizam a publicação de informações prejudiciais (geralmente) sem qualquer consequência (LABARBERA, 2020; KEULENAAR; BURTON, 2021). Ainda que essas plataformas sejam coniventes com esses conteúdos, destaca-se que permanecem inseridas em um ecossistema de plataformas, de modo que podem ser suspensas pelos serviços de hospedagem. Por exemplo, em janeiro de 2021, após o ataque ao Capitólio dos Estados Unidos, a Amazon Web Services (AWS) suspendeu a hospedagem para o microblogue Parler (alternativa ao Twitter) [76], alegando que a plataforma não havia tomado medidas adequadas para moderar o conteúdo violento e extremista (G1, 2021). O mesmo ocorreu com o microblogue Gab (alternativa ao Twitter), cuja infraestrutura foi removida por parte do próprio serviço de hospedagem (GoDaddy) [77], devido à presença de conteúdo extremista e discurso de ódio que violavam os termos de serviço.

Quando uma conta é suspensa de uma plataforma convencional (Instagram, Facebook, TikTok, Twitter, YouTube) e move suas atividades para as plataformas alternativas, há uma perda considerável de visibilidade e da base de seguidores (FORSBERG, 2021). Um exemplo disso é Alex Jones (InfoWars), que, após ter sido banido de várias plataformas, teve o tráfego de seu site reduzido pela metade (RAUCHFLEISCH; KAISER, 2021). No Brasil, ressalta-se o caso de Allan dos Santos (Terça Livre), que, em virtude do Inquérito das Fake News, teve suas contas suspensas do Instagram, Twitter e YouTube, mas migrou para as plataformas alternativas CloutHub (alternativa ao YouTube), Gettr (alternativa ao Twitter), Locals (monetização de conteúdo em vídeo) e Telegram (alternativa ao WhatsApp) (VELHO; MONTARDO, 2022). Outro caso brasileiro é o de Monark (Flow Podcast), que, após defender a criação de um partido nazista no Brasil, também foi suspenso do Instagram, Spotify, Twitter e YouTube, mas migrou para o Locals, Rumble (alternativa ao YouTube) e Telegram (VELHO; MONTARDO; HENN, 2024).

Mas, em contrapartida, nas plataformas alternativas, essas novas contas geralmente conseguem continuar com suas atividades sem receber qualquer punição, e, também, podem se sentir legitimadas a publicar conteúdos ainda mais negativos (ROGERS, 2020). Embora as plataformas alternativas entendam que seus serviços estejam contribuindo para o bem comum, destaca-se que plataformas como BitChute (alternativa ao YouTube), Gab (alternativa ao Twitter) e Telegram (alternativa ao WhatsApp) são conhecidas como núcleos da extrema direita (FRY, 2020; LABARBERA, 2020). Ressalta-se também que essas plataformas podem estar baseadas em tecnologias que visam coibir a censura. Por exemplo, o BitChute utiliza um sistema descentralizado para hospedar os seus vídeos (LABARBERA, 2020); já o Telegram possui recursos avançados de anonimato e chats privados com criptografia de ponta-a-ponta (ROGERS, 2020).

3.2.2 Deplataformização

Conforme a seção anterior, quando a conta de uma figura pública como Donald Trump é suspensa das plataformas digitais, esse acontecimento impulsiona diversas repercussões, que vão desde as notícias sobre o assunto, até as reações dos seus apoiadores. Esse fenômeno é conhecido como deplataformização (deplatforming), que se refere aos acontecimentos e consequências em torno da suspensão permanente das contas de entidades ou figuras públicas em plataformas digitais (ROGERS, 2020; JHAVER et al, 2021).

Os estudos sobre deplataformização investigam a efetividade e os impactos dessa suspensão definitiva (ROGERS, 2020; INNES; INNES, 2021; JHAVER et al, 2021), e geralmente abordam as relações entre "informações prejudiciais", "extrema direita", e "plataformas alternativas". Isso acontece porque é recorrente que perfis de extrema direita sejam suspensos justamente por criar e compartilhar informações prejudiciais, de modo que acabam por mover suas atividades para as plataformas alternativas, que já são coniventes com os núcleos de ódio e viabilizam a circulação desses conteúdos negativos, daí a relação entre esses três temas.

Os estudos sobre deplataformização demonstram que essa estratégia é sim capaz de reduzir a circulação de informações prejudiciais, mas não é capaz de erradicá-las, e, também, possui diversos efeitos colaterais. A suspensão permanente dos atores maliciosos pode reduzir a circulação desses conteúdos nas redes sociais mais conectadas a essas contas (ALI et al, 2021), mas não é capaz de eliminar completamente as interações negativas que já existiam em torno delas. A suspensão permanente também pode fazer com que esses atores maliciosos movam suas atividades para plataformas alternativas, e quando isso acontece, essas novas contas podem se tornar ainda mais violentas (ROGERS, 2020; ALI et al, 2021). Além disso, Santos Jr. (2021) destaca iniciativas de desobediência à remoção de contas por meio da criação de novos perfis nas plataformas convencionais, o que foi observado entre bolsonaristas no Brasil. Em analogia as ideias de Skinner (1976) acerca do condicionamento operante, esses atores maliciosos evitam a punição e encontram novas estratégias para continuar com suas atividades, de forma que as plataformas alternativas sejam a solução que viabiliza essas ações (LABARBERA, 2020), entretanto, sob a penalidade de perder a visibilidade e o alcance das plataformas convencionais (FORSBERG, 2021).

A deplataformização também pode ocasionar a proliferação de minion accounts ("contas de lacaios"), que consistem em contas de apoiadores que podem gerar diversas interações negativas em defesa dos perfis suspensos (INNES; INNES, 2021). Essas contas de apoiadores podem inclusive substituir os atores maliciosos após sua suspensão, pois embora não possuam grande visibilidade, podem ser capazes de compensar pela quantidade e pela frequência das interações. Assim, outra consequência é que os apoiadores podem interpretar a deplataformização como uma espécie de "censura" (KEULENAAR; BURTON; KISJES, 2021), fazendo com que as contas de lacaios se tornem ainda mais ativas em protestar contra o ocorrido.

É muito difícil combater essa repercussão negativa, pois esses apoiadores assumem uma identidade que está pautada pelo combate às "injustiças sociais" (INNES; INNES, 2021), de forma que a deplataformização é encarada como uma confirmação das suas crenças. Esses apoiadores não acreditam nas justificativas oficiais para essas punições, mas entendem que as plataformas estão aplicando "censura" para coibir a circulação das "verdades" que as empresas e governos não querem que as pessoas saibam. Esses apoiadores podem inclusive utilizar mensagens codificadas para difundir informações prejudiciais, as quais possuem o objetivo de enganar os algoritmos de moderação das plataformas convencionais (INNES; INNES, 2021). Outra estratégia de compensação é utilizar a visibilidade das plataformas convencionais para fazer circular links para as plataformas alternativas, de modo que essa prática pode inclusive popularizar esses serviços (INNES; INNES, 2021).

Desta forma, fica evidente que a deplataformização pode dificultar o trabalho de detectar e impedir os fluxos de informações prejudiciais (LABARBERA, 2020; FORSBERG, 2021). Todavia, os autores Ali et al (2021) entendem que a deplataformização pode sim ser uma estratégia viável para combater esse problema, mas deve ser planejada tendo em vista todos esses possíveis efeitos colaterais. Tal planejamento pode inclusive contemplar um trabalho de cooperação entre as plataformas convencionais e as plataformas alternativas. No entanto, estabelecer essa cooperação pode ser um desafio, pois as plataformas alternativas estão pautadas por ideologias que relativizam a "liberdade de expressão", as quais podem, inclusive, defender que as informações prejudiciais são, na verdade, uma legítima manifestação do pensamento livre.

Por fim, embora as plataformas alternativas sejam efetivamente capazes de criar esses espaços de liberdade, os quais inclusive já foram ferramentas essenciais para jornalistas e ativistas que enfrentaram a censura [78], é importante que haja comprometimento em coibir os usos negativos desses sistemas. Desta forma, a subseção seguinte realiza uma aproximação ao Telegram, a plataforma alternativa que está sendo utilizada pela extrema direita brasileira para difundir informações prejudiciais.

3.3 ENTENDENDO O TELEGRAM: UMA PLATAFORMA EM DEFESA DA "LIBERDADE DE EXPRESSÃO"

O Telegram é um mensageiro instantâneo similar ao WhatsApp que foi lançado em 2013 pelos irmãos programadores russos Nikolai e Pavel Durov, os mesmos fundadores do site de redes sociais VK, que foi lançado em 2006 (ROGERS, 2020). O aplicativo é gratuito e pode ser instalado em smartphones, computadores e navegadores de internet, desde que os usuários confirmem um número de telefone. A plataforma possui três recursos principais: o mensageiro instantâneo, que permite a troca de mensagens entre os usuários (um-para-um); os grupos, que podem ser públicos ou privados, e que permitem até 200 mil participantes; e os canais, que também podem ser públicos ou privados, mas podem ter inscrições ilimitadas, sob a restrição de que somente o dono do canal é que pode enviar mensagens (mas os inscritos podem comentar).

Figura 9 – Exemplo de grupo e de canal do Telegram

Fonte: Elaborada pela autora.

Desde sua origem, o Telegram se apresentou como um sistema focado na privacidade e na segurança dos usuários (ROGERS, 2020), sendo um dos primeiros mensageiros instantâneos a provisionar o recurso de criptografia de ponta-a-ponta, que hoje está disponível por padrão na maior parte desses aplicativos. Mensageiros instantâneos proprietários como Facebook Messenger e WhatsApp possuem termos de uso bastante rigorosos [79], conforme aplicam banimentos em usuários que utilizam versões modificadas ou não-oficiais dos seus aplicativos. Assim, esses aplicativos alternativos podem ser facilmente detectados pela empresa quando possuem assinaturas de código inválidas ou fluxos não-convencionais de chamada as APIs. Ao contrário desses concorrentes, o Telegram possui aplicativos oficiais com licença de código-aberto, os quais podem ser modificados ou republicados por qualquer pessoa, mas com algumas poucas restrições [80]. O Telegram também se destaca dos seus concorrentes por possuir APIs abertas e extensamente documentadas [81], de forma que desenvolvedores podem criar aplicativos modificados que acessam a API pelas suas próprias lógicas. Essas práticas também são fomentadas pela empresa através do fornecimento de kits de desenvolvimento de software (SDK) e pela divulgação de ferramentas de terceiros que facilitam a produção de aplicativos baseados nas APIs do Telegram [82]. A documentação da plataforma também explica que existe uma API para a criação de robôs (Bot API) e outra para o desenvolvimento de aplicativos customizados (Telegram API).

De forma contraditória, ainda que o aplicativo do Telegram seja de código-aberto, todos os algoritmos, infraestruturas e lógicas do sistema que operam do lado do servidor permanecem sob sigilo. Pavel Durov, um dos fundadores do app, justifica que não faz diferença para a privacidade e segurança dos usuários revelar os detalhes do sistema, porque é impossível verificar se o código publicado seria o mesmo dos servidores da plataforma [83]. Ainda assim, o fundador do aplicativo disse que a empresa estava planejando liberar esse código-fonte, mas isso não aconteceu porque, segundo ele (sem evidências), um suposto "regime autoritário" estava tentando obter acesso ao código do servidor [84], com o objetivo de criar uma plataforma "clone" do Telegram, que seria modificada para censura e vigilância. Durov afirma que esse suposto "governo ditatorial" estaria também planejando derrubar todas as outras mídias sociais do país em questão, pois assim não existiriam outras alternativas de mensageiros instantâneos para a população.

No entanto, é difícil acreditar que o governo de um país não teria recursos para criar uma plataforma equivalente ao Telegram, de forma que faz mais sentido assumir que o código dos servidores permanece fechado por uma questão estratégica da empresa, que deseja manter seus segredos de negócio. Além disso, a plataforma poderia criar concorrentes para si mesma, bem como abdicaria do controle sob os fluxos de dados dos usuários que migrariam para essas novas opções. Embora o código dos servidores seja proprietário, as APIs do Telegram estão minunciosamente documentadas para os desenvolvedores. Essas escolhas não são arbitrárias, pois fomentar esse tipo de transparência é benéfico para os objetivos da empresa, que deseja ser percebida como uma defensora da "liberdade de expressão", algo que fica bastante evidente nas falas dos fundadores [85] e nos enunciados do site oficial da plataforma [86].

As APIs do Telegram permitem todo tipo de interação com a plataforma, que vão desde enviar mensagens automáticas para seus contatos, até entrar em dezenas de grupos e canais simultaneamente. Os kits de desenvolvimento de software liberados pela empresa também permitem a criação de robôs (bots) com uma curva de aprendizado ligeiramente baixa, mesmo para desenvolvedores iniciantes. Essas ferramentas podem ser facilmente utilizadas para automatizar interações com o aplicativo ou ampliar a experiência de conversação em grupos e canais da plataforma (com respostas automáticas, mensagens programadas, etc.).

Assim, desenvolvedores podem criar seus próprios aplicativos clientes do Telegram e mesmo monetizá-los em lojas como App Store e Google Play, desde que estejam de acordo com os Termos de Serviço [87], Política de Privacidade [88] e Diretrizes de Segurança da plataforma [89]. Além dessas regras, é necessário obter uma chave de identificação para acessar a API, que consiste em um procedimento bastante convencional utilizado para autorizar e autenticar as requisições aos servidores da plataforma. Uma das vantagens dessa abordagem é que a plataforma pode realizar o controle de carga e dos recursos que estão sendo solicitados para cada um dos usuários. Em comparação com as APIs de outras plataformas (Facebook, Instagram e Twitter, por exemplo), o processo de liberação dessa chave é extremamente simples: basta acessar um link e requisitar a chave, que é gerada imediatamente sob a restrição de apenas uma chave para cada conta de usuário. A documentação também informa que os usuários que requisitam uma chave ficam automaticamente "sob observação" para evitar abusos da plataforma, mas as implicações disso não foram esclarecidas pela empresa.

As regras para a criação de aplicativos reforçam a percepção de que a empresa toma decisões não-arbitrárias que privilegiam o controle sob os fluxos de dados dos seus usuários. Dentre outras determinações, as regras proíbem quaisquer lógicas que permitam a publicação de conteúdos que só poderiam ser visualizados em um aplicativo específico (utilizando textos cifrados, por exemplo), de modo a impedir que os usuários do aplicativo oficial não conseguissem acessá-los. As regras informam que os desenvolvedores são encorajados a adicionar novos recursos aos seus aplicativos, desde que todas as funcionalidades básicas do Telegram sejam devidamente implementadas. Com isso, é vetado que confirmações de leitura não sejam enviadas ou que mensagens autodestrutivas sejam impedidas de serem deletadas. Também é importante destacar que os desenvolvedores precisam informar para os seus usuários que se trata de um aplicativo que utiliza a API do Telegram, e também que faz parte do ecossistema da plataforma, aferindo que não podem publicá-lo com o nome de "Telegram" (a não ser que a marca seja precedida pela palavra "não-oficial").

Nesse sentido, embora as regras para os aplicativos sejam bastante generosas, as interações com a API precisam ser equivalentes ao que já está implementado nos aplicativos oficiais, de forma que tais restrições impedem que os usuários e desenvolvedores façam seus próprios usos da plataforma. Operacionalmente, esses aplicativos não podem ser tão diferentes das versões oficiais, o que é benéfico aos objetivos do Telegram, pois ao fomentar o software livre, existem versões do aplicativo para todo tipo de navegador de internet e sistema operacional (inclusive uma versão para a linha de comando). Assim, essas escolhas possuem o duplo-benefício de manter o controle sob os fluxos de dados, enquanto servem como justificativas para desviar a empresa de qualquer acusação acerca de sua legitimidade, tal como as plataformas convencionais já estão acostumadas a sofrer.

O Telegram ganhou adesão mundial por ser uma plataforma "generosa", pois por muito tempo ostentou funcionalidades únicas, tráfego de dados com limites inalcançáveis e também esteve presente em navegadores de internet e sistemas operacionais que até hoje não são suportados pela maior parte dos mensageiros instantâneos concorrentes. Destaca-se também que mensageiros instantâneos como o WhatsApp possuem uma política de tolerância zero quanto ao uso de robôs e aplicativos não-oficiais, mas isso não impediu que desenvolvedores tentassem (com sucesso) implementar soluções viáveis em código-aberto [90]. Assim, o Telegram se beneficia dessas escolhas, pois compreende que faz mais sentido regular os usos das APIs do que o software que está sendo executado nos dispositivos dos seus usuários.

No Brasil, o Supremo Tribunal Federal pressionou o Telegram a tomar medidas mais efetivas diante do problema da circulação de informações prejudiciais na plataforma, que estava sendo utilizada pela extrema direita para circular desinformações e teorias da conspiração [91]. O objetivo dessas ações era evitar que o Telegram fosse utilizado para o disparo de informações prejudiciais e propaganda política, tal como ocorreu com o WhatsApp durante as eleições presidenciais de 2018 (MELLO, 2020).

Em 2019, Google, Facebook, Twitter e WhatsApp aderiram ao Programa de Enfrentamento à Desinformação do TSE [92], uma coalizão entre entidades públicas e privadas que buscava combater a desinformação, e que desde 2021, passou a ser uma portaria permanente do Tribunal Superior Eleitoral [93]. Já em 2022, o poder judiciário brasileiro celebrou um acordo de combate à desinformação junto ao WhatsApp [94], que possui como principal objetivo compartilhar recursos e atuar de forma conjunta no monitoramento da plataforma. Ao final de 2021, o TSE convidou o Telegram a participar dessa coalizão através de um ofício que foi enviado ao endereço da empresa nos Emirados Árabes [95]. No entanto, após quatro tentativas, a carta não foi recebida e retornou ao remetente. Destaca-se que o Telegram possui representação oficial no Brasil desde 2015, através de um escritório de advocacia sediado no Rio de Janeiro, que inclusive passou meses ignorando as notificações enviadas pelo judiciário acerca das eleições presidenciais de 2022 [96]. Ainda em 2022, o Supremo ameaçou bloquear a plataforma em todo o país, pois a empresa estava ignorando os pedidos da Justiça para suspender grupos e canais do Telegram que estavam difundindo informações prejudiciais [97]. Após justificar (de forma pouco plausível) que essa resistência era, na verdade, um problema no recebimento dos e-mails do TSE, a empresa finalmente assinou [98] a adesão ao Programa de Enfrentamento à Desinformação.

Desta forma, embora o Telegram possua uma base de usuários consideravelmente menor do que o WhatsApp [99] (99% dos smartphones brasileiros), ainda assim representa uma quantidade significativa de pessoas que possuem o aplicativo (53% dos smartphones brasileiros), de modo que esses números já foram suficientes para chamar a atenção do judiciário brasileiro. Ao comparar as lógicas de ambos os aplicativos, ficam evidentes as potencialidades do Telegram para a circulação de informações prejudiciais, pois a plataforma permite acesso programático à API, livre criação de robôs, encaminhamento ilimitado de mensagens, grupos de até 200 mil participantes e canais [100] com inscrições ilimitadas. A Tabela 1 ilustra um comparativo entre Telegram [101] e WhatsApp [102].

Tabela 1 – Comparativo entre Telegram e WhatsApp

Fonte: Velho (2022).

Por fim, ressalta-se que o Telegram é um recurso poderoso e que não deve ser subestimado, pois com as ações da extrema direita brasileira, aliada à resistência da plataforma em seguir pedidos judiciais [103], pode criar um cenário bastante favorável para a circulação de informações prejudiciais. Nesse sentido, a próxima seção desde estudo descreve o método que será utilizado para investigar as relações entre machosfera e extrema direita nas redes brasileiras da plataforma.

4 DELINEAMENTO METODOLÓGICO: RELAÇÕES ENTRE MACHOSFERA E EXTREMA DIREITA NAS REDES BRASILEIRAS DO TELEGRAM

Conforme foi desenvolvido nos capítulos anteriores, essa pesquisa está baseada nas relações entre machosfera, extrema direita, informações prejudiciais e plataformas alternativas. Essa construção teórica defende que o problema das informações prejudiciais está relacionado à ascensão da extrema direita, que ficou conhecida por utilizar desinformações e discursos de ódio para obter vantagem política ilegítima. O cenário para essas práticas foram as plataformas digitais, que potencializaram a circulação desses conteúdos através dos algoritmos de recomendação, em um momento onde as pessoas já começavam a se informar através das notícias que apareciam nos seus feeds sociais (AMARAL; SANTOS, 2019).

Quando as empresas, governos e organizações civis finalmente começaram a pressionar as plataformas para resolver esse problema, as contas de apoiadores e de figuras públicas que difundiam esses conteúdos começaram a ser suspensas, e logo se percebeu que a deplataformização tinha potencial, mas que também não deveria ser utilizada sem planejamento, pois poderia causar efeitos colaterais imprevisíveis (INNES; INNES, 2021). Dentre esses reveses, estava a possibilidade de as contas suspensas moverem suas atividades para as plataformas alternativas, que há tempos já eram coniventes com os núcleos de ódio, e também possuíam lógicas que dificultavam o controle das informações prejudiciais (ROGERS, 2020). Dentre esses núcleos de ódio, estavam as comunidades anônimas e a machosfera, que sempre apoiaram as pautas da extrema direita, inclusive criando e compartilhando conteúdos negativos que favoreciam essas ideias (NAGLE, 2017, ZUCKERBERG, 2018).

O problema é que esses núcleos de ódio já demonstraram serem capazes de influenciar a opinião pública, sendo fonte de desinformações e teorias da conspiração que poderiam chegar até os feeds das plataformas convencionais (BODNER; WELCH; BRODIE, 2020). Assim, entende-se que a deplataformização pode popularizar as plataformas alternativas, pois quando as contas suspensas movem sua operação para esses sistemas, podem levar parte dos seus seguidores junto com eles. Como consequência, assumindo lógicas de assortatividade, existe a possibilidade de que os núcleos de ódio, já antigos nas plataformas alternativas, conectem-se com essas novas redes de usuários, de modo que o contato dessas pessoas com esses conteúdos extremos poderia aumentar a adesão a essas ideias. Corroborando com esse cenário, ressalta-se a ascensão do Telegram no Brasil, cujo aplicativo vem sendo utilizado pela extrema direita para difundir desinformações e discursos de ódio (NASCIMENTO et al, 2022). Essa plataforma alternativa ficou conhecida por ser um espaço seguro para essas comunidades extremas, e que por pouco não foi bloqueada no país, pois, em 2022, ignorou os pedidos judiciais do TSE para a suspensão de grupos e canais que criavam e compartilhavam informações prejudiciais, até que finalmente cedeu e evitou a ação da justiça.

Assim, o tema desta pesquisa são as relações entre machosfera, extrema direita e informações prejudiciais nas redes brasileiras do Telegram. A tese deste trabalho é de que a machosfera brasileira opera sob uma lógica de assortatividade, de modo que se configura como uma rede de informações prejudiciais que potencializam as pautas da extrema direita. A questão de pesquisa é a seguinte: quais os impactos da machosfera no problema da circulação de informações prejudiciais no Telegram? O objetivo deste estudo é investigar as relações entre machosfera e extrema direita nas redes brasileiras do Telegram. Os objetivos específicos são (a) construir uma rede de grupos e canais brasileiros do Telegram que representam uma amostra da machosfera e suas comunidades relacionadas, (b) detectar os focos de informações prejudiciais nessa estrutura, (c) encontrar os grupos e canais de extrema direita que fazem parte desse conjunto e (d) analisar as conexões da rede e o teor dos conteúdos compartilhados pelos participantes entre as comunidades.

Esta é uma pesquisa quali-quantitativa e de natureza básica, pois "objetiva gerar conhecimentos novos úteis para o avanço da ciência sem aplicação prática prevista" (PRODANOV; FREITAS, 2013, p. 56). Quanto ao objetivo do estudo, evidencia-se como descritivo e indutivo, pois além de evidenciar as características de um dado fenômeno utilizando técnicas padronizadas de coleta de dados, este estudo também busca analisar uma amostra da realidade e inferir generalizações acerca deste fenômeno (PRODANOV; FREITAS, 2013). Quanto ao procedimento técnico, caracteriza-se como bibliográfico e documental (PRODANOV; FREITAS, 2013), seguindo a abordagem quali-quantitativa dos métodos digitais de Omena (2019).

Os métodos digitais (digital methods), que se caracterizam como um termo guarda-chuva utilizado para se referir ao uso de tecnologias digitais em razão de gerar, coletar e analisar dados qualitativos e quantitativos (ROGERS, 2013), balizaram esta tese. Estudos que seguem os métodos digitais possuem uma abordagem muito similar ao trabalho estatístico nas etapas de coleta e visualização dos dados, mas voltam-se para uma análise qualitativa na hora de interpretar os seus resultados. Em conformidade com esse recorte, optou-se pela abordagem "quali-quantitativa" de Omena (2019), que propõe uma análise de dados alinhada aos métodos digitais, a qual interpreta os resultados da pesquisa (geralmente apresentados através de gráficos e redes semânticas) como um "mapa" do fenômeno que está representado na amostra.

Para facilitar a leitura deste trabalho, a palavra "comunidades" será utilizada para se referir aos "grupos" e "canais" do Telegram. Da mesma forma, para evitar a repetição, a expressão "relações entre comunidades" (e seus derivados) será utilizada para se referir ao compartilhamento de links e encaminhamento de mensagens que evidenciam a conexão entre comunidades.

Assim, as "relações" que esse trabalho busca investigar são as redes de grupos e canais do Telegram, que podem ser mapeadas quando os participantes compartilham links ou encaminham mensagens de outras comunidades da plataforma. Essas relações são tomadas em vista do fenômeno da assortatividade em redes sociais, que se refere às preferências de alguns nós em se conectar com outros que são similares de alguma forma (KOLACZYK; CSÁRDI, 2014). Em redes sociais, a assortatividade pode ocorrer entre pessoas que possuem interesses em comum ou que estão geograficamente próximas. O grau de assortatividade indica a força dessa relação, sendo importante para investigar preferências recorrentes nessas redes (ZINOVIEV, 2018). No caso do Telegram, essas lógicas de assortatividade podem ser identificadas quando os participantes decidem compartilhar links ou encaminhar mensagens de outras comunidades, assumindo que a frequência entre essas conexões seja indicativa da força entre essas conexões.

Essas lógicas de assortatividade já foram identificadas em núcleos de ódio, conforme Gerstenfeld, Grant e Chiang (2003) observaram nas relações entre sites neonazistas, de negação do holocausto, de skinheads, etc. Dentre outras constatações, os autores demonstraram que 80.3% dos grupos analisados continham links para outros sites extremistas, evidenciando o caráter colaborativo da extrema direita, onde grupos com ideais concordantes se organizam de modo a criar uma rede. Burris, Smith e Strahm (2012) também investigaram as redes de ódio dos grupos de supremacia branca na internet, e observaram que existem grupos com ideias "menos extremistas", cujo propósito é persuadir as pessoas de forma a "convertê-las", criando assim grupos intermediários que podem ter maior adesão de novos participantes.

Esse trabalho defende que existem "relações" entre machosfera e extrema direita, as quais poderiam ser encontradas nas conexões entre comunidades brasileiras do Telegram. Assim, surge o maior desafio metodológico desta pesquisa, que é obter uma amostra dessas conexões, as quais, caso fossem encontradas, seriam as evidências e objeto de estudo desta análise. Para tanto, inicia-se pelo caráter "em rede" da machosfera*,* que pode ser abordado através da teoria dos grafos, área do conhecimento que investiga as relações entre objetos abstratos (RAJ; MOHAN; SRINIVASA, 2018). No centro desses estudos está o grafo, uma estrutura de dados representada por vértices (os objetos) e arestas (as relações entre estes objetos). Dentre os vários fenômenos cujos grafos são capazes de representar, estão as redes sociais que estruturam as relações entre pessoas (RAJ; MOHAN; SRINIVASA, 2018).

Em vista dessa estrutura de dados, a próxima subseção do estudo descreve o percurso metodológico para coletar uma amostra de 3.157 comunidades do Telegram, a qual foi possibilitada por um programa de coleta de dados que foi desenvolvido para este propósito.

4.1 COLETA DE DADOS: ENCONTRANDO A MACHOSFERA BRASILEIRA DO TELEGRAM

O objetivo desta etapa do estudo é construir uma rede de grupos e canais brasileiros do Telegram que representam uma amostra da machosfera e suas comunidades relacionadas. Para tanto, foi necessário obter uma amostra de comunidades que poderiam manifestar o fenômeno das relações entre machosfera e extrema direita. Assim, o primeiro problema a ser enfrentado foi o seguinte: por onde começar?

É difícil definir, objetivamente, um "ponto de partida" para a coleta de dados, pois "rede de grupos e canais brasileiros do Telegram" não começa e nem termina em lugar algum, afinal, são apenas conexões, e sequer existem fronteiras entre "machosfera" e "extrema direita", a não ser que se determine critérios para estabelecê-las. Desta forma, optou-se por uma abordagem mais simples para iniciar esse processo, que consistiu em encontrar a comunidade do Telegram, que, pelos critérios da pesquisadora, fosse a que melhor representasse o fenômeno da machosfera. Para tanto, a "busca global" do Telegram foi utilizada, a qual consiste em um campo de buscas para pesquisar por usuários, grupos e canais da plataforma. Essa ferramenta cumpre sua função, mas possui diversas limitações, pois apresenta somente dez resultados por vez, e também só funciona quando o texto digitado corresponde exatamente com alguma palavra do nome de uma comunidade.

Utilizando essa ferramenta, e tomando como inspiração o método "search as research" de Rogers (2019), que defende operacionalizar os motores de busca das plataformas em benefício investigativo, a pesquisadora buscou por diversas palavras-chave relacionadas ao vocabulário da machosfera (ver glossário), como alpha, beta, bluepill, chad, incel, mgtow, redpill, dentre outras (NAGLE, 2017; ZUCKERBERG, 2018; VILAÇA, D'ANDRÉA, 2021). Ao pesquisar por essas palavras-chave, surgiram diversas comunidades da machosfera, as quais foram adentradas e exploradas, de modo que novas comunidades foram encontradas nas mensagens dos participantes. Esse tipo de procedimento é definido por Fragoso (2015) como "buscas em cascata", quando o pesquisador segue as "pistas" deixadas pelos conteúdos para expandir seu campo de pesquisa. Após passar um tempo explorando esse material, a comunidade escolhida foi aquela que ponderou os seguintes requisitos: (a) comunidade brasileira com textos em português; (b) mensagens recentes e participantes ativos; (c) mensagens com vocabulário e ideias da machosfera; (d) mensagens com links e encaminhamentos de outras comunidades da machosfera. Partindo desses critérios, a comunidade escolhida foi o grupo "MGTOW Club" (pouco mais de 500 participantes), cujos conteúdos estavam focados na "filosofia redpill" [104] e no ativismo MGTOW [105], conforme estava esclarecido em sua descrição:

Foque em VOCÊ em primeiro lugar! Clube de Homens Seguindo seu Próprio Caminho @mgtowclub. O maior do Brasil! Formando GUERREIROS em meio ao caos. Sua dose diária de redpill e masculinidade. Grupo seleto destinados somente aos verdadeiros homens.

Quando a "comunidade inicial" foi escolhida, o próximo passo foi determinar quais dados das comunidades seriam coletados. No entanto, como neste tipo de pesquisa é difícil saber o que realmente é importante até entrar em contato com os dados, a abordagem escolhida foi coletar a maior quantidade de informações possíveis. A Tabela 2 e a Tabela 3 apresentam as estruturas de dados para cada uma das comunidades e mensagens enviadas.

Tabela 2 – Estrutura de dados das comunidades

Fonte: Elaborada pela autora.

Tabela 3 – Estrutura de dados das mensagens

Fonte: Elaborada pela autora.

Com as estruturas de dados definidas, o passo seguinte foi elaborar o método de coleta de dados, que foi inspirado pelo estudo de Mathew et al. (2019) acerca das redes de ódio da plataforma Gab. Nessa pesquisa, os autores coletaram as mensagens do usuário mais popular da plataforma, e depois fizeram o mesmo com todos os seus seguidores, e assim recursivamente com os seguidores dos seguidores até chegar à um critério de exaustão. Essa técnica de amostragem é conhecida como método "bola de neve", onde os elementos da amostra são encontrados de forma exploratória e encadeada (ETIKAN; ALKASSIM; ABUBAKAR, 2016). Nas Ciências Sociais, esse método começa com os pesquisadores determinando um "sujeito inicial" que faz parte da população que se deseja investigar. Após, os pesquisadores solicitam que esse sujeito indique outras pessoas que também fazem parte dessa mesma população, de modo que esse procedimento ocorre recursivamente para cada novo sujeito até que a amostra alcance as condições de finalização do processo (ETIKAN; ALKASSIM; ABUBAKAR, 2016).

Essa técnica foi então adaptada aos objetivos deste estudo, de modo que a "comunidade inicial" foi o grupo MGTOW Club, e as relações entre comunidades se traduziram nos links e encaminhamentos encontrados nas mensagens. A Figura 10 ilustra essas relações.

Figura 10 – Relações entre as estruturas de dados

Fonte: Elaborada pela autora.

No entanto, logo ficou evidente que seria impossível realizar esse procedimento de forma manual, de modo que um programa de coleta de dados foi desenvolvido para este propósito. Deste ponto, a flexibilidade da API do Telegram fez toda a diferença para a pesquisa, pois as limitações de acesso aos conteúdos foram quase inexistentes, diferente do que ocorre ao coletar dados de outras plataformas. A única limitação encontrada foi a carga de acesso à API, que, esporadicamente, bloqueava o programa por algumas horas informando que os "limites diários" haviam sido atingidos (esses limites não estão esclarecidos na documentação da plataforma).

Desta forma, esse programa implementou o método "bola de neve" exponencial discriminativo, que, em analogia as Ciências Sociais, ocorre quando os "sujeitos" podem realizar múltiplas indicações ("exponencial"), e também quando essas indicações precisam ser aprovadas pela curadoria do pesquisador ("discriminativo") (ETIKAN; ALKASSIM; ABUBAKAR, 2016). Desta forma, no contexto do estudo, os "sujeitos" foram as comunidades, e as "indicações" foram as relações entre essas comunidades. Assim, a amostragem foi "exponencial" porque poderiam existir diversas relações entre comunidades; e também foi "discriminativa" porque foram estabelecidos critérios de seleção para determinar quais comunidades poderiam fazer parte da amostra. Quanto a esses critérios, foi estabelecido que somente comunidades com conteúdo em português seriam selecionadas para a amostra (o programa realizou essa verificação automaticamente). Além disso, as relações entre comunidades só foram contabilizadas quando dois ou mais participantes compartilharam links ou encaminharam mensagens originárias delas.

Com isso, as informações das comunidades, bem como todas as suas mensagens, foram coletadas e armazenadas conforme as estruturas da Tabela 2 e da Tabela 3, e relacionadas conforme a Figura 10. Por fim, a Figura 11 ilustra o processo de coleta de dados que foi realizado pelo programa.

Figura 11 – Amostragem "bola de neve" exponencial discriminativa

Fonte: Elaborada pela autora.

Depois de remover o conteúdo das comunidades anônimas, que foram removidas da amostra por questões éticas após seguir seus links, esse trabalho resultou em uma amostra de 3.157 comunidades, com as mensagens mais antigas sendo de 2015 e as mais recentes de 2022, totalizando 16GB de conteúdo.

A amostragem ocorreu entre janeiro e março de 2022, de modo que o programa foi executado consistentemente durante esse período através de um computador dedicado [106]. A pesquisadora desenvolveu o programa e provisionou uma infraestrutura tolerante a falhas, de modo que o sistema poderia se recuperar em casos de oscilação de energia ou falhas lógicas (como as limitações de acesso à API do Telegram). A amostra de comunidades está disponível para download na plataforma Zenodo [107]; e o programa está disponível para download na plataforma GitHub [108]. Destaca-se também que essa coleta de dados ocorreu de forma ética, de modo que os Termos de Uso [109] e documentação da API do Telegram [110] foram levados em conta nesta construção metodológica. Além disso, os identificadores dos participantes foram anonimizados e os anexos das mensagens (áudios, documentos, imagens, vídeos) não foram coletados para evitar armazenamento de conteúdo ilegal.

Na subseção subsequente, as estratégias de análise de dados serão apresentadas, as quais foram desenvolvidas em perspectiva dos métodos digitais "quali-quantitativos" de Omena (2019). Essa abordagem realiza uma coalisão entre análise qualitativa e instrumentos de coleta e visualização de dados, de modo que essas estruturas sejam analisadas não pelo seu potencial estatístico, mas sim pela sua capacidade de ser um "mapa" da amostra.

4.2 OPERACIONALIZANDO OS MÉTODOS DIGITAIS PARA ANALISAR AS REDES DE COMUNIDADES DO TELEGRAM

Essa análise está baseada nos "métodos digitais" (digital methods), que são um termo guarda-chuva utilizado para se referir ao uso de tecnologias digitais em razão de gerar, coletar e analisar dados qualitativos e quantitativos (ROGERS, 2013). Por definição, esse método não está limitado ao estudo das próprias tecnologias digitais, conforme pode ser utilizado para investigar quaisquer fenômenos que possam ser representados através de dados. No entanto, geralmente ficam restritos a este contexto, pois as ferramentas de análise, convencionalmente, estão operacionalizadas para investigar esses objetivos de estudo. Os trabalhos que seguem os métodos digitais estão situados em algum ponto entre "pesquisa quantitativa" e "pesquisa qualitativa". Esses estudos possuem uma abordagem muito similar ao trabalho estatístico nas etapas de coleta e visualização dos dados, mas voltam-se para uma análise qualitativa na hora de interpretar os seus resultados. A abordagem "quali-quantitativa" de Omena (2019) sugere que a análise dos dados deve assumir contornos qualitativos, pois interpreta que os artefatos de pesquisa (geralmente gráficos e redes semânticas) são como um "mapa" do fenômeno que está representado na amostra.

Os métodos digitais estão operacionalizados por ferramentas amigáveis que abstraem a maior parte do processo de coleta e visualização dos dados. Ainda que estejam ofuscados, esses processos e algoritmos na verdade são muito complexos, mas conhecer seus detalhes de funcionamento traz pouca ou nenhuma vantagem para essas pesquisas, que estão mais interessadas em instrumentalizar esses recursos e estabelecer seus próprios usos (OMENA, 2019). Assumindo essa abordagem, equipes de pesquisa que não possuem expertise em computação ou estatística, podem estudar fenômenos complexos das tecnologias digitais (como a difusão de conteúdos em plataformas digitais) e focar na etapa investigativa do processo, que, no final do dia, é o objetivo final desses estudos (OMENA, 2019). Essa aproximação aumenta a independência das equipes de humanidades digitais, pois reduz consideravelmente seus custos operacionais, que normalmente necessitaria de pessoal qualificado para articular os recursos técnicos necessários.

Os métodos digitais também se destacam como excelentes ferramentas para a investigação dos fenômenos de plataforma, que se desdobram em grandes quantidades de dados, os quais se qualificam como textos (mensagens, publicações), mídias (áudio, imagens, vídeos), redes sociais (comunidades, usuários) e métricas quantitativas (visualizações, curtidas, avaliações) (VAN DIJCK; POELL; DE WAAL, 2018). Assim, através dos métodos digitais, recortes desses dados podem ser "facilmente" coletados e exportados para planilhas e outras estruturas de dados. Exemplos dessas ferramentas são o CrowdTangle (Instagram e Facebook) e o 4CAT (Telegram e Reddit), que abstraem todo o processo de programação e acesso às APIs dessas plataformas (ROGERS, 2019). Além dessas, existem ferramentas para coletar todos os tweets que possuem uma determinada hashtag (Twitter); e, também, para obter todos os comentários e métricas de um vídeo do YouTube [111].

Para além da coleta de dados, os métodos digitais também instrumentalizam o desenvolvimento de visualizações computacionais capazes de representar uma "visão geral" da amostra. Esse processo geralmente se traduz na criação de redes semânticas, redes sociais, histogramas e demais tipos de gráficos. No entanto, os métodos digitais estão interessados na visão panorâmica provisionada por essas visualizações, ao invés do seu potencial estatístico, pois assume que esses artefatos são como um "mapa" do fenômeno a ser investigado (OMENA, 2019). Essa abordagem possui a vantagem de ser uma análise mais intuitiva e acessível, pois os resultados já ficam "evidentes" nos gráficos e na arguição do trabalho, de modo que as pessoas não precisam de conhecimento estatístico para compreendê-los. Ignorar a análise quantitativa pode parecer um desperdício dos dados coletados, mas destaca-se que os trabalhos estatísticos dependem de uma amostra capaz de superar uma série de requisitos e testes para que os resultados sejam representativos. Essas circunstâncias são bastante improváveis no campo dos Estudos de Plataforma, que manipula fragmentos de interações e dados de baixíssima qualidade, conforme as plataformas digitais restringem o acesso as APIs e quase não liberam informações acerca dos seus fluxos de dados (D'ANDRÉA, 2020).

Frente a isso, entende-se que os métodos digitais quali-quantitativos não são o "melhor de dois mundos", mas são uma solução eloquente que tenta ponderar as melhores escolhas investigativas frente ao desafio que é estudar as plataformas digitais. Diversos estudos se alinham com algumas partes dessa abordagem, ainda que não assumam esses delineamentos, de forma que se destacam os trabalhos de Lerner (2019), Mathew et al (2019) e Soares, Viegas e Recuero (2021). Essas pesquisas podem ser relacionadas aos métodos digitais, pois são trabalhos que realizam um aprofundamento técnico das etapas de coleta e análise dos dados, mas também conduzem a análise qualitativa dos artefatos. Assim, frente à construção metodológica desses estudos, e em perspectiva dos métodos quali-quantitativos de Omena (2019), objetiva-se procurar evidências das relações entre machosfera e extrema direita na amostra de comunidades que foi coletada.

Tal como os estudos citados anteriormente, essa investigação está alinhada aos preceitos dos métodos digitais, mas optou por viabilizar seus próprios instrumentos de coleta, análise e visualização dos dados. Essa escolha foi tomada em vista das restrições que acompanham a facilidade de uso dos instrumentos de métodos digitais, que ficam limitados àquilo que foi planejado pelos seus desenvolvedores, de modo que as categorias de análise das pesquisas acabam sendo aquilo que a tecnologia permite investigar. Desta forma, entende-se que desenvolver instrumentos baseados em tecnologias digitais que exigem conhecimento técnico em programação, ainda que seja custoso, pode expandir as possibilidades de análise e beneficiar os resultados do trabalho.

Assumindo essas escolhas metodológicas, as próximas subseções descrevem os instrumentos que foram utilizados para realizar a análise da amostra.

4.2.1 Grafo direcionado e detecção de redes

A primeira etapa da investigação consistiu em definir uma estratégia para encontrar as comunidades da machosfera e da extrema direita dentre a amostra de 3.157 grupos e canais do Telegram. Para essa análise, é essencial identificar não apenas as comunidades, mas também os agrupamentos e conexões que evidenciam características de rede. Destaca-se que transformar a amostra de comunidades em uma estrutura de rede não é um trabalho tão custoso, pois a técnica de coleta de dados que foi utilizada (snowball exponencial discriminativa) já se caracteriza pela construção de um grafo. Assim, o desafio é tornar evidente essas relações, de modo a sintetizá-las em gráficos capazes de demonstrar as relações entre machosfera e extrema direita.

Para tanto, a primeira etapa do processo consistiu em transformar a amostra em uma estrutura de grafo, de modo que as comunidades foram os nós e os links e encaminhamentos que apontam para outras comunidades foram as arestas (conexões, relações) (KOLACZYK; CSÁRDI, 2014). Para representar graficamente essas relações entre comunidades, optou-se por estruturar um grafo direcionado por força, que consiste em uma estrutura de grafo onde as relações entre os nós possuem uma direção, e a "força" dessas relações é representada visualmente através do afastamento e aproximação dos nós (BUDKA et al, 2013). Esse grafo foi construído utilizando a biblioteca D3.js [112], que operacionaliza o algoritmo verlet velocity (BUDKA et al, 2013). Assim, esse algoritmo tornou evidente as relações entre comunidades, de forma a aproximar as mais conectadas e afastar aquelas sem relação, o que está representado na Figura 12 (primeira imagem).

Figura 12 – Grafo direcionado e detecção de redes

Fonte: Elaborada pela autora.

Após a estruturação da rede de comunidades, certas relações já ficaram evidentes, principalmente em pontos onde algumas comunidades demonstraram estar fortemente conectadas entre si. No entanto, isolar essas comunidades do restante da rede, ou mesmo identificar agrupamentos que não ficaram evidentes, se revelou um processo muito complexo e propenso a falhas, de modo que foi inviável realizá-lo de forma manual. Assim, a próxima etapa do processo consistiu em aplicar um algoritmo de detecção de redes (community detection), que serve para identificar agrupamentos de nós em um grafo (FORTUNATO, 2010). Efetivamente, essa é a etapa do processo em que as relações entre a machosfera e a extrema direita deveriam ficar evidentes, e destacados em cores que ajudariam na separação visual da rede.

Deste modo, para encontrar as redes da machosfera e da extrema direita, o algoritmo Louvain foi utilizado, o qual foi operacionalizado através de uma biblioteca chamada jLouvain [113]. Após a aplicação do algoritmo, diversos agrupamentos foram detectados, mas nenhuma "machosfera" ou "extrema direita" foi identificada, pois o programa encontrou muita sujeira (agrupamentos inúteis), conforme está destacado na Figura 12 (segunda imagem). Esses agrupamentos, de fato, se originaram através das conexões entre comunidades, mas eram relações com um número muito pequeno de nós, que não demonstraram organização em torno de um eixo temático (música, jogos, teorias da conspiração, militâncias, etc).

Para resolver esse problema, as comunidades detectadas pelo algoritmo foram manualmente analisadas em busca de agrupamentos que fizessem sentido, de modo a descartar a sujeira que foi identificada pelo programa. Além disso, houve intervenção manual para unir agrupamentos que se localizaram no mesmo ponto da rede e que também possuíam o mesmo eixo temático. Após esse processo de curadoria, os agrupamentos foram rotulados e coloridos para facilitar o contraste. Assim, conforme a Figura 12 (terceira imagem), 12 redes de comunidades foram encontradas, as quais, em razão do seu eixo temático, foram rotuladas como Ancap/Bitcoin, Anticiência, Anti-NOM, Anti-PC, BBB, Celebridades/TV, Coaching, Novas Direitas, Cracking/SPAM, Futebol, Neonazismo e Redpill/NOFAP/MGTOW.

Por fim, o resultado final demonstrou que de fato existem redes de comunidades na amostra coletada, as quais são capazes de representar os fenômenos da machosfera e da extrema direita. No entanto, a materialidade identificada é muito mais complexa do que esse binarismo, pois não é simples definir que algumas das redes de comunidades pertencem à "machosfera" e outras pertencem à "extrema direita". Assim, optou-se por manter essa organização e discutir as implicações dessa materialidade nos resultados do estudo.

4.2.2 Visualização das conexões e participantes entre redes

Após o desenvolvimento do grafo direcionado por força e a detecção de redes, o estudo passou a ser capaz de representar as relações de assortatividade entre os eixos temáticos identificados. No entanto, o grafo que foi estruturado, possui apenas uma expressão qualitativa dessas conexões, mas possui a contrapartida de não quantificá-las. Além disso, essa estrutura também não deixa evidente a direção das conexões, o que é relevante para identificar o fenômeno da assortatividade.

Assim, para demonstrar quantitativamente essas conexões, optou-se por representá-las através de um mapa de calor, que está representado na Figura 18 (seção 5.1) e foi desenvolvido utilizando a biblioteca Plotly [114]. Esse gráfico é uma tabela que utiliza cores para ressaltar a força das relações entre as redes de comunidades. Assim, cada linha da tabela indica uma rede e a quantidade de conexões com outras redes, cuja força das relações está destacada nas colunas. Os números dessa tabela representam a quantidade de conexões com outras redes, de modo que cada conexão é uma mensagem com link ou encaminhamento de outra comunidade.

Por seguinte, o mesmo método foi utilizado para ilustrar o compartilhamento de participantes entre redes, cuja informação está representada na Figura 19 (seção 5.1). Esse gráfico foi possibilitado através da coleta dos identificadores únicos dos usuários (IDs), que foram anonimizados sem nenhuma informação adicional. Assim, partindo desses dados, foi possível comparar os IDs dos usuários das redes e procurar por participantes em comum. No entanto, em função das limitações da API do Telegram, somente as informações de participantes dos grupos foram obtidas, o que é um problema, visto que a maior parte da amostra são canais, conforme será demonstrado na seção dos resultados. Ainda assim, essa visualização pode ser considerada como um complemento a Figura 18, mas deve ser analisada tendo em vista essas limitações.

4.2.3 Nuvens de palavras para os links e relevância das redes

Além do grafo direcionado por força e dos mapas de calor, visualizações de nuvens de palavras também foram desenvolvidas neste estudo. Esse tipo de gráfico é geralmente utilizado para destacar as palavras mais frequentes em um texto, as quais são ilustradas de modo que, quanto maior o tamanho da fonte, mais frequente a palavra é (HEIMERL et al, 2014). Assim, esse gráfico foi reapropriado para destacar as comunidades mais relevantes e os links mais compartilhados nas redes.

Deste modo, as nuvens de palavras foram utilizadas para representar a ocorrência de links para sites da web, os quais estão presentes nas mensagens da amostra. Esses links são indicativos de conexões com outras plataformas, fóruns, blogs, sites noticiosos e demais páginas da internet. Assim, para identificar aqueles que são mais importantes, foi realizado o somatório das frequências de cada um dos links publicados nas redes de comunidades, e essa estrutura de dados foi passada para a biblioteca node-wordcloud [115], que foi responsável por "plotar" as nuvens de links.

Por seguinte, a estrutura de nuvem de palavras também foi utilizada para destacar as comunidades mais relevantes de cada rede. Essa visualização é importante, pois, ainda que o grafo desenvolvido anteriormente demonstre as relações entre as comunidades, ele não identifica quais são as comunidades mais importantes de cada rede. Assim, para tornar essa informação evidente, os títulos e o critério de relevância de cada uma das comunidades, em cada uma das redes, foram destacados através de nuvens de palavras. Essa "relevância" foi obtida utilizando uma versão modificada do algoritmo TF-IDF (CAMPESATO, 2021), que obtém essa métrica através da quantidade de conexões entre comunidades. Na prática, a relevância indica as comunidades que possuem mais conexões com mais comunidades (se possuir muitas conexões, mas apenas com uma comunidade, não é tão relevante).

Por fim, essas visualizações podem ser encontradas na seção 5.1 dos resultados, e se fazem presentes nas análises individuais das redes de comunidades.

4.2.4 Redes semânticas dos encaminhamentos

Uma das complexidades deste trabalho é a escala da amostra, que contempla mais de 54,9 milhões de mensagens distribuídas entre 3.157 comunidades. Por mais que um conjunto de dados nessa escala seja bastante representativo, destaca-se que analisá-lo de forma manual é absolutamente custoso. Ainda assim, para os objetivos deste estudo, é importante tornar evidente o tipo de conteúdo que circula em cada uma das redes de comunidades, de modo a destacar as diferenças e semelhanças entre esses eixos temáticos.

Para resolver esse problema, as mensagens mais encaminhadas de cada uma das redes de comunidades foram sintetizadas através de redes semânticas, as quais são capazes de representar relações textuais em conjuntos de textos (CHRISTENSEN; KENETT, 2021). Para tanto, a ferramenta redepalavras [116], que foi desenvolvida pela pesquisadora em trabalho anterior, foi utilizada com o objetivo de apresentar um panorama dos conteúdos mais importantes das redes de comunidades. Deste modo, assim como os demais gráficos, essas redes semânticas podem ser encontradas na seção 5.1 dos resultados.

5 RESULTADOS: RELAÇÕES ENTRE MACHOSFERA E EXTREMA DIREITA NAS REDES BRASILEIRAS DO TELEGRAM

Esta seção apresenta os resultados da análise que foi delineada no capítulo metodológico da pesquisa. Em conformidade com a proposta dos métodos digitais quali-quantitativos (OMENA, 2019), a demonstração dos resultados está centralizada na descrição dos gráficos que foram gerados após aplicação dos instrumentos metodológicos, de modo que esses artefatos são as evidências para os padrões e recorrências que foram identificados na amostra. Vale destacar que este não é um trabalho estatístico, pois ainda que alguns processos metodológicos sejam similares, as condições da amostra e procedimentos de análise não se alinham com o que é esperado em pesquisas de relevância estatística.

Ainda assim, análises descritivas simples estão presentes neste estudo, as quais apresentam somatórios, distribuições e médias. Esses valores devem ser entendidos de um ponto de vista qualitativo, pois permitem que comparações entre estratos da amostra sejam realizadas. No entanto, ainda que não exista relevância estatística nesses resultados, destaca-se que os procedimentos metodológicos possuem precedentes e já foram operacionalizados em estudos similares (LERNER, 2019; MATHEW et al, 2019; SOARES, VIEGAS e RECUERO, 2021), de modo que esses achados foram obtidos com o rigor científico das humanidades digitais.

Neste sentido, essa análise investiga a tese de que a machosfera brasileira opera sob uma lógica de assortatividade, de modo que se configura como uma rede de informações prejudiciais que potencializam as pautas da extrema direita. Assim, pergunta-se: quais os impactos da machosfera no problema da circulação de informações prejudiciais no Telegram? O objetivo geral é investigar as relações entre machosfera e extrema direita nas redes brasileiras do Telegram. Em vista desses delineamentos, esta seção de resultados corresponde aos objetivos específicos de "detectar os focos de informações prejudiciais nessa estrutura" (redes brasileiras do Telegram) e "analisar as conexões da rede e o teor dos conteúdos compartilhados pelos participantes entre as comunidades", conforme os outros objetivos específicos já foram alcançados em razão da coleta de dados e construção metodológica do trabalho.

Assim, esta seção está dividida em três partes, as quais, respectivamente, analisam a amostra em perspectiva geral, depois específica, sendo finalizada pela discussão dos resultados. A primeira subseção corresponde à análise das métricas gerais, que está focada em descrever a amostra de forma mais ampla, trazendo um panorama das relações que foram identificadas entre as redes. Por seguinte, análises individuais foram conduzidas, as quais apresentam resultados específicos para cada uma das redes identificadas na amostra. Ao final, esses resultados são discutidos e relacionados ao referencial teórico do estudo.

Por fim, recomenda-se o uso do recurso de zoom para que seja possível visualizar os detalhes específicos de alguns gráficos, principalmente as redes semânticas.

5.1 ANÁLISE DAS MÉTRICAS GERAIS

Para iniciar a análise, as principais métricas do estudo foram organizadas na Tabela 4, que apresenta a divisão da amostra em grupos e canais. Observa-se que a maior parte das comunidades consistem em canais, ou seja, estão em um formato de feed onde uma única conta envia conteúdo para os seus seguidores, que só podem responder as mensagens publicadas. No entanto, conforme está esclarecido no capítulo metodológico, os comentários dos canais não foram coletados em vista das limitações técnicas da API do Telegram. Pela mesma razão, também não foi possível coletar a quantidade de seguidores dos canais, de modo que tanto os comentários quanto as informações sobre os usuários só estão disponíveis para as comunidades que são grupos.

Tabela 4 – Métricas gerais da amostra

Fonte: Elaborada pela autora.

Por seguinte, destaca-se que a quantidade de mensagens coletadas está na casa dos milhões, sendo 21 milhões de mensagens para os canais, e 33,9 milhões para os grupos, totalizando 54,9 milhões. Conforme já foi mencionado, existem mais canais (2818) do que grupos (339) na amostra, mas a quantidade de mensagens dos grupos é consideravelmente maior, o que faz sentido, pois são vários usuários interagindo nestes espaços. No mais, a amostra possui 45 mil mensagens que contém texto, 10,2 milhões de mensagens com fotos e 8,2 milhões que anexam documentos. No entanto, as imagens, vídeos e documentos não foram coletados para este estudo, pois exigiriam uma quantidade absurda de armazenamento e poderiam se caracterizar como conteúdo ilegal. Além disso, existem 11,3 milhões de mensagens com links e 5,4 milhões de mensagens encaminhadas.

Figura 13 – Distribuição das mensagens entre grupos e canais

Fonte: Elaborada pela autora.

Quanto à distribuição das mensagens (Figura 13), destaca-se que quase metade dos canais possuem entre 100 e 5 mil mensagens publicadas (28,1% entre 100 e mil; 21,9% entre mil e 5 mil). Por outro lado, a maior parte dos grupos possuem entre 5 mil e 50 mil mensagens. Observa-se também que essa amostra possui uma pequena quantidade de grupos e canais que são desproporcionalmente maiores do que os demais, os quais possuem uma quantidade exorbitante de mensagens publicadas. Na prática, ocorre que as comunidades menores acabam por "orbitar" esses grandes espaços de interação.

Figura 14 – Mensagens por dia, mês e ano

Fonte: Elaborada pela autora.

Em outra perspectiva, a Figura 14 apresenta a distribuição de mensagens por dia, mês e ano, ilustrando a atividade dessas redes entre 2015 e 2022, que foi o período de publicação das mensagens que compõem a amostra. O primeiro detalhe que fica evidente, é que grande parte da amostra (44,1%) possui conteúdos enviados em 2021, o que vai de encontro ao crescimento do Telegram no Brasil [117]. Questiona-se também o quanto as atividades das novas direitas impactaram no crescimento da plataforma, pois, conforme será abordado adiante, esse crescimento coincide com a entrada dessas redes na plataforma. Além disso, de acordo com as notícias citadas no referencial teórico, o Telegram foi utilizado como ferramenta de comunicação durante o Governo Bolsonaro (NASCIMENTO et al, 2022), de modo que, após sua derrota nas eleições presidenciais de 2022, a plataforma inclusive apresentou queda na atividade dos usuários, após vários anos de crescimento.

Por seguinte, ao observar o calendário de mensagens por dia, fica evidente que os meses de janeiro e fevereiro de 2022 registraram os maiores picos de atividade na plataforma. Não há como saber se isso ocorreu em função da tendência de crescimento da plataforma no Brasil, mas foi observado que os usuários do Telegram reagiram de forma extremamente negativa quando o STF ameaçou suspender suas atividades no Brasil, o que culminou em diversos tutoriais "anti-censura" sendo encaminhados pelas comunidades. Assim, conforme o referencial teórico (INNES; INNES, 2021; KEULENAAR; BURTON; KISJES, 2021), essas pessoas entendem as suspensões como se fossem "censura", pois interpretam-nas como se fossem uma confirmação das suas crenças e percepção de combate as "injustiças sociais", tornando-as ainda mais ativas nas plataformas digitais.

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Figura 15 – Primeira e última mensagem das comunidades

Fonte: Elaborada pela autora.

Também foi verificado se comunidades mais antigas mantiveram sua atividade na plataforma através dos anos, ou se acabaram sendo abandonadas e suspensas com o tempo. Conforme está evidente no diagrama de Sankey da Figura 15, a maior parte das comunidades continuaram ativas na plataforma, inclusive aquelas cuja primeira mensagem foi enviada em 2015 (43) e 2016 (208). Esse detalhe surpreende, pois existem diversas comunidades que há anos publicam conteúdos negativos e não recebem nenhum tipo de punição. Há inclusive, a comunidade "Randão", que é chan-like e diz estar presente na plataforma há 11 anos, inclusive publicando mensagens misóginas ("Só é estupro se for feio. Se for bonito é atitude."). Todavia, esses detalhes estão de acordo com o referencial teórico acerca das plataformas alternativas, que entendem esse tipo de conteúdo como "liberdade de expressão" (LABARBERA, 2020; KEULENAAR; BURTON, 2021). Além disso, comunidades chan-like em plataformas digitais não são uma novidade, e já foram investigadas em pesquisas anteriores (VELHO, 2018).

Figura 16 – Comunidades mais relevantes da amostra

Fonte: Elaborada pela autora.

Por seguinte, a Figura 16 ilustra as comunidades mais relevantes da amostra, e destaca a centralidade do apoio às novas direitas, dos conteúdos antivacina e das redes politicamente incorretas. Assim, a comunidade mais relevante da amostra é o canal oficial de Jair Bolsonaro no Telegram – ressaltando que "ser relevante" significa possuir mais conexões com mais comunidades. Deste modo, visto que as conexões surgem a partir do encaminhamento de mensagens, destaca-se que as comunidades "Jair Bolsonaro" [118], "Médicos pela Vida" [119] e "Randão 11 Anos" [120] são as mais relevantes da rede.

Por fim, ressalta-se que essas comunidades foram encontradas a partir do encaminhamento de mensagens de uma única rede do Telegram sobre MGTOW e Redpill. Esse é um indicativo importante em vista do fenômeno de assortatividade que esse estudo se propõe a estudar. No entanto, também é possível que essa rede tenha surgido simplesmente porque as novas direitas possuem uma forte presença no Telegram (NASCIMENTO et al, 2022), aspecto que será explorado em seção adiante.

5.2 INVESTIGAÇÃO INDIVIDUAL DAS REDES DE COMUNIDADES

Esta subseção realiza a análise individual das redes de comunidades que foram identificadas na pesquisa. Conforme mencionado na seção metodológica, após aplicação do processo de detecção de redes, 12 agrupamentos (redes) de comunidades foram identificados, os quais, em função dos temas abordados, foram rotulados como Ancap/Bitcoin, Anticiência, Anti-NOM, Anti-PC, BBB, Celebridades/TV, Coaching, Novas Direitas, Cracking/SPAM, Futebol, Neonazismo e Redpill/NOFAP/MGTOW. Cada uma dessas redes está centralizada em um eixo temático, e também apresenta delineamentos específicos quanto ao seu relacionamento com outras redes.

Neste sentido, a Tabela 5 apresenta as métricas gerais de cada uma das comunidades, as quais serão posteriormente analisadas de forma individual. Observado a tabela, fica evidente que as maiores redes são Anti-PC (231 comunidades), Novas Direitas (536 comunidades) e Cracking/SPAM (334 comunidades). Já as menores comunidades são Anticiência (21 comunidades), BBB (20 comunidades) e Redpill/NOFAP/MGTOW (30 comunidades). De modo geral, observa-se que agrupamentos com mais comunidades, também possuem mais mensagens, textos, documentos, fotos e links. Assim, é importante ter em vista que redes maiores abrem mais possibilidade de conexões, de modo que, dependendo da quantidade de comunidades e mensagens de uma rede, um certo número de conexões pode ser considerado como uma relação forte ou fraca.

Tabela 5 – Métricas gerais das comunidades

Fonte: Elaborada pela autora.

Ainda quanto a Tabela 5, surpreende que a rede Redpill/NOFAP/MGTOW tenha poucas comunidades, visto que o grupo inicial do processo de amostragem se encaixa nesse eixo temático. No entanto, também existem diversas comunidades sobre o assunto na rede Anti-PC, assim como muitas comunidades sobre anticiência e teorias da conspiração estão presentes na rede Novas Direitas. Isso ocorre porque a pesquisadora optou por não extrair essas comunidades que foram agrupadas pelo algoritmo, de modo que não foram reorganizadas nas redes mais específicas. Assim, entende-se que esse emaranhamento temático é indicativo dos fenômenos que se apresentam nas redes, pois não há como separar o fenômeno das novas direitas do aspecto antivacina, por exemplo.

Deste modo, a rede Novas Direitas possui mais comunidades antivacina do que a própria rede Anticiência, pois se trata de um assunto que está bastante ligado às novas direitas. Assim, entende-se que a rede Redpill/NOFAP/MGTOW seja um núcleo temático mais específico da rede Anti-PC, que está voltado para as "técnicas de sedução" e "mudanças de comportamento", conforme referencial teórico (KENDALL, 2011; ALMOG, KAPLAN, 2017). De forma similar, a rede Anticiência também pode ser percebida como uma "especialização" da rede Novas Direitas, conforme é possível observar na Figura 17.

Figura 17 – Rede de comunidades do Telegram

Fonte: Elaborada pela autora.

A Figura 17 é uma das mais importantes do estudo, pois ilustra de forma abrangente as relações entre as redes. Assim, redes que estão mais próximas no grafo indicam relações mais fortes (assortatividade), já as redes que estão mais afastas possuem poucas ou nenhuma conexão entre si. Assim, observa-se que há sobreposição das redes Novas Direitas, Anticiência e Anti-NOM, conforme foi citado anteriormente. Já a rede Neonazismo, está localizada entre as redes Novas Direitas e Anti-PC, pois apresenta um número similar de conexões com essas duas redes (2,2 mil e 2,6 mil conexões, respectivamente). Também é possível observar vínculos entre as redes Redpill/NOFAP/MGTOW, Neonazismo e Anti-NOM, cujas razões se tornam evidentes ao analisar os conteúdos publicados nesses espaços (teorias da conspiração). Por outro lado, a rede Cracking/SPAM está afastada das demais comunidades do grafo, pois pouco se relaciona com o restante do conjunto.

No entanto, ainda que a Figura 17 seja representativa das relações entre as redes, trata-se de uma visualização qualitativa (mas suficiente) deste fenômeno. Assim, a contrapartida quantitativa encontra-se na Figura 18, que ilustra um mapa de calor das conexões entre as redes. Cada linha indica uma rede, e a quantidade de conexões com outras redes estão situadas nas colunas. Destaca-se que essas relações não são simétricas, pois, por exemplo, a rede Neonazismo possui 1,2 mil conexões com a rede Anti-NOM, que devolve somente 69 conexões. Deste modo, observando que essas redes possuem uma quantidade similar de comunidades, é possível chegar a conclusão de que os núcleos de neonazismo podem estar pautados em teorias conspiratórias, mas os núcleos de teorias conspiratórias não necessariamente estão pautados pelo neonazismo.

Figura 18 – Distribuição das conexões entre redes

Fonte: Elaborada pela autora.

Figura 19 – Distribuição dos participantes entre redes

Fonte: Elaborada pela autora.

Neste sentido, destaca-se também a Figura 19, que é um mapa de calor da distribuição de participantes entre as redes. Essa visualização ficou comprometida pelo fato de que não foi possível obter as informações dos seguidores dos canais, mas, ainda assim, pode auxiliar no entendimento das relações entre as redes. Do mesmo modo que a Figura 18, cada linha representa uma rede, e as colunas indicam a quantidade de participantes em comum. Fica evidente que, diferente do mapa de conexões da Figura 18, tratam-se de relações simétricas, pois representam a sobreposição de participantes entre redes. Assim, observa-se que, por exemplo, na linha da rede Anticiência, registram-se 25 participantes em comum com a rede Anti-PC, cujo o mesmo número pode ser encontrado na linha respectiva a essa rede.

Por fim, as próximas subseções realizam análises específicas das relações entre cada uma das redes. É importante destacar que todas as métricas citadas nas subseções podem ser visualizadas na Tabela 5, Figura 18 e Figura 19, que apresentam os principais aspectos das redes e suas conexões. O foco dessas análises individuais é descrever as métricas e relacioná-las ao aspecto qualitativo dos conteúdos que circulararam em cada uma das redes.

5.2.1 Ancap/Bitcoin: Anarcocapitalismo e criptomoedas

Anarcocapitalismo é uma ideologia política que defende a ausência de estado, pois entende que as liberdades individuais e das empresas privadas estão acima de qualquer outra questão (JENSEN, 2022). Pessoas que se identificam com essa ideologia podem ser chamadas de ancaps, as quais situam-se em um ponto extremo das ideias libertárias (JENSEN, 2022). Ao analisar as conservas dos participantes [121], foi verificado que o investimento em bitcoin e outras criptomoedas são defendidas por serem moedas descentralizadas cujas transações são difíceis de rastrear, de modo a impedir a fiscalização do estado. Outra ideologia que defendem é o "agorismo", que também se caracteriza por ser uma ideia antiestatista em defesa do livre mercado (GEHL; DENARDIS; ZIMMER, 2018). Ressalta-se que essa é uma manifestação das direitas que surgiram nas comunidades anônimas, tal como a direita alternativa (alt-rights) e os neorreacionários (NRx) (WENDLING, 2018).

Essas pessoas entendem que estão em uma "luta" contra as supostas práticas de "controle" do estado [122], o que pode ser observado nas mensagens mais compartilhadas desta rede. Observando a Figura 22, verifica-se que as palavras "liberdade" e "controle" estão entre as mais frequentes, justamente porque foram muito utilizadas nas mensagens dos participantes.

Figura 20 – Comunidades e links da rede Ancap/Bitcoin

Fonte: Elaborada pela autora.

Quanto ao compartilhamento de links (Figura 21), foi verificado que em sua maioria apontam para sites sobre investimento em bitcoins, ideologias libertárias e notícias dos veículos tradicionais de mídia, de modo que, esse último, é bastante contraditório em vista das crenças dessas pessoas [123]. Além disso, links para as plataformas alternativas Odysee (1,6 mil) e BitChute (322) também apresentaram alta frequência.

Figura 21 – Atividade da rede Ancap/Bitcoin

Fonte: Elaborada pela autora

Sobre a atividade da rede (Figura 21), destaca-se que essas comunidades marcam presença no Telegram desde o final de 2016, mas os picos de atividade ocorreram nos últimos meses de 2020 e primeiros meses de 2021, o que é esperado em vista do crescimento do Telegram no Brasil.

Por seguinte, quanto as mensagens mais encaminhadas, destacam-se os tutoriais sobre como contornar um possível bloqueio do Telegram no Brasil, e também opiniões contrárias à obrigatoriedade do passaporte da vacina contra Covid [124], muitas vezes questionando a eficácia das vacinas e relacionando-as a práticas de controle. Para além do cenário de pandemia, esses tutoriais "anti-censura" do Telegram ocorreram no momento em que o STF ameaçou bloquear a plataforma no Brasil, pois a empresa estava resistindo as decisões judiciais que a obrigavam a suspender contas que propagavam informações prejudiciais. Um dos canais que foram suspensos pelo STF, foi o de Allan dos Santos, que inclusive faz parte da rede Novas Direitas deste estudo.

O antagonismo à esquerda política também esteve presente entre as mensagens mais encaminhadas, as quais acusavam esse espectro político de praticar censuras [125] que supostamente ameaçariam as liberdades individuais defendidas pelos ancaps. Assim, o apoio a Jair Bolsonaro também ficou evidente (mas longe de ser algo hegemônico entre os participantes), principalmente a favor da ampliação do porte de armas [126]. No entanto, muitas mensagens de um grupo ateísta estiveram entre as mais encaminhadas nessa rede, aspecto que difere essas pessoas das novas direitas, cujos apoiadores são majoritariamente evangélicos. Ainda assim, possuem em comum o fato de acreditarem que há um plano de controle sendo executado [127], e de que os veículos tradicionais de mídia fazem parte dessa articulação [128].

Figura 22 – Conteúdo das mensagens encaminhadas na rede Ancap/Bitcoin

Fonte: Elaborada pela autora

Por seguinte, outro aspecto importante são as relações com as redes Anti-PC (531 conexões, 219 participantes em comum), Novas Direitas (1,4 mil conexões, 1 mil participantes em comum) e Redpill/NOFAP/MGTOW (71 conexões, 130 participantes em comum). Quanto ao teor dessas relações, foi verificado que diversas mensagens da comunidade "Politicamente Incorreto" (rede Anti-PC) estiveram entre as mais encaminhadas, as quais difundem teorias da conspiração. Já a concordância com a rede Novas Direitas parece estar relacionada ao antagonismo à esquerda política [129] e as ideias antifeministas [130] que ambos possuem em comum (NAGLE, 2017).

Por fim, há uma relação fraca com a rede Redpill/NOFAP/MGTOW, que parece estar relacionada à filosofia blackpill, cuja qual defende que homens devem focar suas energias no seu próprio desenvolvimento econômico e pessoal ao invés de buscar relacionamentos com mulheres (WENDLING, 2018). De acordo com o referencial teórico, os blackpills são diferentes dos incels, pois já desistiram e ficaram deprimidos porque assumem que não poderiam ser alfas, enquanto os incels se sentem irritados e culpam a sociedade, as mulheres e os alfas pelos seus fracassos (GING, 2019).

Figura 23 – Distribuição das conexões e participantes da rede Ancap/Bitcoin

Fonte: Elaborada pela autora.

5.2.2 Anticiência: terraplanismo e antivacina

A rede anticiência se caracteriza pelas comunidades terraplanistas e de antivacina, cujos participantes acreditam que existe um plano para esconder a "verdade". Essas pessoas acreditam que os veículos tradicionais de mídia estão alinhados com um governo secreto de poder global ("mídia globalista") [131], de modo que as vacinas são entendidas como "genocídio", conforme essas pessoas entendem que a pandemia foi planejada e está relacionada ao controle populacional [132].

Figura 24 – Comunidades e links da rede Anticiência

Fonte: Elaborada pela autora.

Diferente de outras redes, essa iniciou no final de 2019, mas o auge de sua atividade foi nos últimos meses de 2020 e início de 2021, período em que pandemia ainda estava bastante forte. Quanto aos links compartilhados, destaca-se que a maioria é respectiva a vídeos e lives do YouTube, cujo conteúdo não foi possível visualizar, pois a maior parte dos vídeos já havia sido excluído pela plataforma. No entanto, pelo conteúdo textual, ficam evidentes que eram vídeos de canais anticiência, cujos quais questionavam a efetividade das vacinas, estando em conformidade com o que foi documentado no referencial teórico (ALBUQUERQUE; QUINAN, 2019).

Figura 25 – Atividade da rede Anticiência

Fonte: Elaborada pela autora

Essas comunidades divulgam "tratamentos alternativos" para a Covid [133], incentivando o uso de medicamentos que não possuem eficácia comprovada para combater o vírus, como o Ivermectina, o qual inclusive foi divulgado por Jair Bolsonaro neste período. A parte mais trágica dessas mensagens é que essas pessoas realmente pensam que estão salvando vidas divulgado esse tipo de tratamento, conforme é possível observar na Figura 26.

Figura 26 – Conteúdo das mensagens encaminhadas na rede Anticiência

Fonte: Elaborada pela autora

Por fim, essas comunidades estão fortemente relacionadas às redes Novas Direitas (8 mil conexões, 774 participantes em comum) e Anti-NOM (262 conexões, 246 participantes em comum), de modo que poucos participantes frequentam ou encaminham publicações de outras redes. Assim, entende-se que a concordância com as novas direitas esteja relacionada justamente ao aspecto anticiência, aos ataques aos veículos tradicionais de mídia e ao apoio irrestrito à Jair Bolsonaro [134]. Já as relações com a rede Anti-NOM ocorrem pela concordância com as teorias conspiratórias sobre o globalismo e a Nova Ordem Mundial [135].

Figura 27 – Distribuição das conexões e participantes da rede Anticiência

Fonte: Elaborada pela autora.

5.2.3 Anti-NOM: Contra a nova ordem mundial, globalismo e fim dos tempos

A rede Anti-NOM é um núcleo de teorias da conspiração [136], cujos participantes defendem que planos para estabelecer uma "Nova Ordem Mundial" estão em andamento, de modo que acusam os veículos tradicionais de mídia de serem articuladores desse processo. Essa rede também é antivacina, assim como as redes Novas Direitas e Anticiência, mas são ainda mais extremas quanto aos seus supostos efeitos colaterais [137].

Figura 28 – Comunidades e links da rede Anti-NOM

Fonte: Elaborada pela autora.

Um detalhe que surpreende, é o fato de que a comunidade Dogolachan (relacionada ao Massacre de Suzano) se encontra nesta rede, mas como uma das menos relevantes (Figura 28). A princípio, essa relação parece não fazer sentido, mas ao analisar os dados mais atentamente, observa-se que a rede Anti-NOM difunde ideais antissemitas, que relacionam o globalismo e a Nova Ordem Mundial ao povo judeu [138]. Deste modo, faz sentido que o Dogolachan, que é conhecido por ser extremo mesmo na esfera channer, esteja relacionado às teorias da conspiração, discursos de ódio e antisemitismo [139].

Por seguinte (Figura 28), destaca-se que links para outras plataformas alternativas, como BitChute (1 mil), Rumble (574), Gettr (374) e Odysee (263), estiveram entre os mais frequentes, ressaltando que essas plataformas são conhecidas pela sua conivência com as informações prejudiciais (FRY, 2020; LABARBERA, 2020). Além disso, diversos links para sites noticiosos desinformativos também estiveram entre os mais compartilhados, como Jornal da Cidade Online (165) e Brasil 247 (26). Quanto aos períodos de atividade dessa rede (Figura 29), as primeiras comunidades começaram na segunda metade de 2020, registrando picos no número de mensagens ao final de 2021 e início de 2022.

Figura 29 – Atividade da rede Anti-NOM

Fonte: Elaborada pela autora.

Em relação ao conteúdo das mensagens mais encaminhadas (Figura 30), em sua maioria são textos antissemitas que relacionam o judaísmo ao ocultismo. Assim, a expressão "mídia sionista" também se faz presente nessas comunidades, a qual relaciona os veículos tradicionais de mídia aos supostos interesses nefastos dos judeus, que são entendidos como pessoas poderosas que estão por trás de bancos, governos e grandes empresas, "controlando" o mundo em virtude dos seus próprios interesses.

Outro aspecto relevante é a reapropriação da expressão "gado", que geralmente é utilizada para deslegitimar apoiadores de Jair Bolsonaro. Nessa rede, os próprios participantes podem se identificar como "gado", de modo que inclusive há uma comunidade intitulada "Gado Rebelde". Assim, o apoio ao Governo Bolsonaro se fez presente, mas também foi observado mensagens que relacionavam-no ao globalismo [140], de modo que essa rede também se apresenta como um campo de disputas políticas.

Figura 30 – Conteúdo das mensagens encaminhadas na rede Anti-NOM

Fonte: Elaborada pela autora.

Por fim (Figura 31), ressalta-se que a rede Anti-NOM está fortemente relacionada a rede Novas Direitas (27,5 mil conexões, 5,6 mil participantes em comum), enquanto se relacionou mais fracamente com a rede Neonazismo (69 conexões, 15 participantes em comum). Além disso, também apresentou um número pouco maior de conexões com as redes Anti-PC (244 conexões, 105 participantes em comum) e Anticiência (122 conexões, 246 participantes em comum).

Figura 31 – Distribuição das conexões e participantes da rede Anti-NOM

Fonte: Elaborada pela autora.

5.2.4 Anti-PC: Politicamente incorreto

A rede Anti-PC é a manifestação da esfera brasileira de chans no Telegram (Figura 32), que está centralizada nas comunidades "Randão 11 anos" [141] (corruptela de random), Juventude Revoltada [142] e BRCHANNEL [143] (BRchan, reencarnação de um tradicional chan brasileiro no Telegram). Foi uma surpresa para a pesquisadora observar uma presença tão marcante de chans brasileiros nesta plataforma, visto que esses espaços geralmente estão restritos ao IRC, dark web e plataformas ou hospedagens obscuras. No entanto, existem poucos chans brasileiros ativos nos últimos anos, de modo que parecem ter migrado para esses espaços das plataformas alternativas.

Ainda que haja essa centralidade dos chans, destaca-se que essa rede possui comunidades multitemáticas, que variam entre pornografia, memes (memes políticos, principalmente), shitpost, cultura nerd, cracking, pirataria, revisionismo histórico, teorias da conspiração, masculinismo, misoginia, antifeminismo, etc. Por outro lado, essa pluralidade de comunidades parece simular justamente o aspecto das boards temáticas dos chans, só que de forma mais caótica e descentralizada. Assim, confirmam-se os pressupostos apresentados no referencial teórico acerca das comunidades anônimas, as quais demonstraram operar de forma descentralizada e colaborativa, destacando-se pelo uso de memes, da cultura DIY e do conteúdo gerado pelos usuários (UGC) (NAGLE, 2017).

Por seguinte, outra surpresa (inicial) foi a presença dos canais "General Mourão Oficial" e "Deputado Cabo Daciolo", os quais são apenas uma trollagem e não representam o pensamento dessas figuras públicas. Em função das práticas lulz, nada é o que parece nessas comunidades (COLEMAN, 2014), de modo que para entender suas lógicas seriam necessários estudos específicos e mais aprofundados no aspecto qualitativo. Ainda assim, entende-se que essa rede é o núcleo da machosfera no Telegram, pois apresenta todos os elementos que caracterizam esses grupos, estando em conformidade com o referencial teórico da pesquisa (NAGLE, 2017; WENDLING, 2018; GING, 2019).

Figura 32 – Comunidades e links da rede Anti-PC

Fonte: Elaborada pela autora.

Por seguinte, entre os links mais compartilhados (Figura 32), estiveram os sites de pornografia, memes, tecnologia, cultura nerd, sites noticiosos (inclusive desinformativos), dentre outros. Também foram encontrados links para chans, como 4chan (35), 1500chan (1) e VHSchan (10); e plataformas alternativas, como BitChute (168), VK (54), Odysee (48) e Gab (36).

Figura 33 – Atividade da rede Anti-PC

Fonte: Elaborada pela autora.

Quanto à atividade dessa rede, as primeiras mensagens começaram a ocorrer em 2016, mas foi apenas no final de 2017 que essas métricas começaram a apresentar crescimento. A comunidade "Randão" afirma existir há 11 anos (em 2022), mas mensagens anteriores a 2017 não foram encontradas. Aqui, questiona-se se essas mensagens foram apagadas, se houve migração de uma comunidade para outra, ou mesmo se ocorreu uma mudança de plataforma. De todo modo, surpreende o fato de que uma rede de comunidades tão tóxicas estiveram presentes na plataforma durante todos esses anos, aspecto que torna evidente a conivência do Telegram com esse tipo de conteúdo, estando em consonância com o que já se sabe sobre as plataformas alternativas (LABARBERA, 2020; KEULENAAR; BURTON, 2021).

Figura 34 – Mensagens encaminhadas na rede Anti-PC

Fonte: Elaborada pela autora.

Quanto as mensagens mais encaminhadas (Figura 34), há uma variedade de assuntos, os quais compreendem tutoriais sobre como escapar da censura do Telegram, frases homofóbicas e misóginas [144], teorias da conspiração [145], discursos de ódio, ataques ao jornalismo [146], conteúdo revisionista [147], dentre outros. Além disso, foi identificado apoio as novas direitas, mas também oposição considerável, conforme a rede Anti-PC está sobreposta ao anarcocapitalismo e as ideologias da "terceira posição", que antagonizam tanto com o "capitalismo" quanto com o "comunismo", mas que podem ser interpretadas como manifestações fascistas (MALENDOWICZ, 2023). No entanto, mensagens de apoio a Jair Bolsonaro também foram identificadas, assim como críticas que ironizavam o ex-presidente do país. Mensagens antivacina também foram encaminhadas nessas comunidades [148], assunto que foi divulgado em massa na rede Novas Direitas.

Quanto às conexões com outras redes (Figura 35), destacam-se as relações com Ancap/Bitcoin (352 conexões, 219 participantes em comum), Novas Direitas (990 conexões, 453 participantes em comum), Anti-NOM (286 conexões, 105 participantes em comum) e Neonazismo (368 conexões, 58 participantes em comum). Observa-se que as redes Anti-PC e Novas Direitas se relacionam de forma muito similar com a rede Neonazismo, de modo que pode ser entendida como um elo em comum. No entanto, uma diferença notável é que a rede Novas Direitas possui uma conexão muito mais forte com a rede Anti-NOM (15,5 mil conexões, 5,6 mil participantes em comum). Além disso, a rede Anti-PC não está associada à rede Anticiência, mas, em contrapartida, a rede Novas Direitas possui fortes conexões (638 conexões, 774 participantes em comum).

Deste modo, ainda que as redes Anti-PC e Novas Direitas tenham em comum as teorias da conspiração, os ataques ao jornalismo, oposição à esquerda política e aversão aos feminismos, há uma diferença notável na intensidade desses pensamentos. Assim, destaca-se o paralelo de Nagle (2017) acerca das diferenças entre "direita alternativa" (alt-right) e "direita alternativa leve" (alt-light), pois, ainda que essas redes possuam características em comum, diferenciam-se pela intensidade com que expressam as suas ideologias. No entanto, em conformidade com o referencial teórico, ambos os grupos se orientam por ideias conservadoras, reacionárias e preconceituosas, que estão apoiadas em pseudociência, teorias da conspiração e negação da realidade (WENDLING, 2018; BODNER; WELCH; BRODIE, 2020).

Por fim, outro detalhe relevante é que a rede Anti-PC possui poucas conexões que apontam para a rede Redpill/NOFAP/MGTOW (19), mas o contrário não é verdade, visto que existem 313 conexões que apontam para a Anti-PC, o que é um número considerável visto que se trata de uma rede muito menor. Esse foi um achado inesperado para a pesquisadora, o qual revela que a machosfera também é um território de disputas.

Figura 35 – Distribuição das conexões e participantes da rede Anti-PC

Fonte: Elaborada pela autora.

5.2.5 Big Brother Brasil

As redes BBB, Celebridades/TV e Futebol serviram como uma espécie de "controle" para este estudo, pois envolvem temáticas que, à priori, não possuem contexto político ou ideológico. No entanto, é importante destacar que o conceito de machosfera é mais amplo do que o de redes misóginas, pois também compreende espaços temáticos sobre interesses masculinos (GING, 2019), o que poderia incluir futebol, automobilismo, jogos, pornografia, entre outros. Assim, essas redes foram analisadas buscando entender se apresentam neutralidade política e ideológica (na medida do possível), ou se essas comunidades poderiam ser entendidas como parte da machosfera.

Figura 36 – Comunidades e links da rede BBB

Fonte: Elaborada pela autora.

Neste sentido, a rede BBB possui diversas comunidades que buscam cobrir os acontecimentos do Big Brother Brasil 2022, de modo a manter o público informado sobre os participantes e eventos desse reality ("espiadinhas"). Assim (Figura 37), a atividade dessa rede ficou restrita ao período de exibição do programa, que foi ao ar nos primeiros meses de 2022. Essa rede se destaca pela grande quantidade de propaganda e spam, que se manifestaram através de diversos links para marketplaces (Figura 36).

Figura 37 – Atividade da rede BBB

Fonte: Elaborada pela autora.

Quanto ao conteúdo das mensagens mais encaminhadas (Figura 38), em sua maioria eram de fato informações sobre acontecimentos do BBB. Ainda que o nome de Jair Bolsonaro tenha aparecido nos encaminhamentos, eram apenas notícias sobre acontecimentos contemporâneos.

Figura 38 – Conteúdo das mensagens encaminhadas na rede BBB

Fonte: Elaborada pela autora.

Por fim, quanto às relações da rede BBB (Figura 39), foi verificado que de fato não apresentam conexões com as redes de extrema direita, ainda que tenham alguns participantes em comum. A rede BBB se relaciona com as redes Celebridades/TV (23 conexões, nenhum membro em comum) e Futebol (24 conexões, 10 participantes em comum), mas também com outras comunidades que não estavam em nenhuma das redes temáticas identificadas neste estudo (canais informativos dos veículos tradicionais de mídia). Assim, verifica-se que o Telegram possui redes de comunidades que não estão relacionadas às informações prejudiciais, como geralmente se pressupõe quanto aos usos das plataformas alternativas. As subseções 5.2.6 e 5.2.10 também dialogam com essa questão em vista das redes Celebridades/TV e Futebol, respectivamente.

Figura 39 – Distribuição das conexões e participantes da rede BBB

Fonte: Elaborada pela autora.

5.2.6 Celebridades e TV

A rede Celebridades/TV conta com diversas comunidades que acompanham o trabalho de artistas e divulgam informações sobre séries de TV (Figura 40). Naturalmente, como o assunto "música" é relevante nessas comunidades, links para o Spotify (7,1 mil), Apple Music (4,8 mil) e YouTube (24,8 mil) estiveram entre os mais compartilhados (Figura 40).

Figura 40 – Comunidades e links da rede Celebridades/TV

Fonte: Elaborada pela autora.

No entanto, diferente da rede BBB, cuja atividade compreendeu o curto período de exibição do reality, a rede Celebridades/TV é uma das mais antigas, que registra atividade no Telegram desde o final de 2016 (Figura 41), e inclusive apresenta crescimento consistente desde o final de 2017. Deste modo, esse achado contribui para a ideia de que o Telegram possui redes que não estão contaminadas com conteúdos negativos, inclusive, desde antes desse tipo de conteúdo ser popularizado no Brasil.

Figura 41 – Atividade da rede Celebridades/TV

Fonte: Elaborada pela autora.

Por seguinte, quanto ao conteúdo das mensagens mais encaminhadas (Figura 42), em sua maioria foram notícias sobre novos trabalhos de artistas. Lateralmente, ressaltam-se também mensagens encaminhadas de um grupo de apoio a Jair Bolsonaro ("Jair Bolsonaro Presidente"), as quais noticiavam sobre as eleições presidenciais dos Estados Unidos em 2020, e não apresentavam qualquer conteúdo desinformativo ou de apoio político.

Figura 42 – Conteúdo das mensagens encaminhadas na rede Celebridades/TV

Fonte: Elaborada pela autora.

Por fim (Figura 43), a rede Celebridades/TV apresentou relações com a rede BBB (38 conexões, nenhum membro em comum) e Novas Direitas (67 conexões, um membro em comum).

Figura 43 – Distribuição das conexões e participantes da rede Celebridades/TV

Fonte: Elaborada pela autora.

5.2.7 Coaching para homens

A rede Coaching pode ser entendida como uma versão "leve" dos espaços de aperfeiçoamento pessoal que foram evidenciados na machosfera. Aqui, o foco está no compartilhamento de livros piratas e conteúdos que ensinam os homens a aumentar o seu "valor pessoal" e aprender a "ser homem" [149], seja através da educação financeira ou guias de comportamento [150] (Figura 44).

Figura 44 – Comunidades e links da rede Coaching

Fonte: Elaborada pela autora.

Essas comunidades estão presentes no Telegram desde o final de 2016 (Figura 45), mas foi apenas em 2019 que começaram a apresentar mais atividade. No entanto, não há como saber se esse aumento está relacionado ao crescimento do Telegram ou às buscas por conteúdos desse tipo.

Figura 45 – Atividade da rede Coaching

Fonte: Elaborada pela autora.

Por seguinte, o conteúdo das mensagens mais encaminhadas tornam evidente os temas centrais dessas comunidades (Figura 46), que são o compartilhamento de conteúdos sobre educação financeira e guias de conduta masculina [151]. Assim como fazem os grupos masculinistas (ALMOG, KAPLAN, 2017), essas comunidades reforçam estereótipos de gênero [152] utilizando justificas biológicas para ressaltar as diferenças entre homens e mulheres. No entanto, ainda que esses estereótipos sejam machistas, destaca-se que esses conteúdos não assumem os contornos misóginos e antifeministas típicos das comunidades masculinistas. Além disso, expressões frequentes no vocabulário da machosfera (alfas, betas, hipergamia, redpill, etc.) também não foram identificadas.

Figura 46 – Conteúdo das mensagens encaminhadas na rede Coaching

Fonte: Elaborada pela autora.

Assim, a rede Coaching apresentou relações com as redes Anti-PC (129 conexões, 58 participantes em comum), Cracking/SPAM (zero conexões, 125 participantes em comum) e Novas Direitas (13 conexões, 237 participantes em comum). A rede Anti-PC, conforme foi abordado anteriormente, é um núcleo de misoginia nas redes brasileiras do Telegram, da qual a rede Coaching encaminha materiais sobre aperfeiçoamento pessoal. Já sua relação com a rede Cracking/SPAM, está associada ao aspecto da pirataria que ambos possuem em comum. Quanto as conexões com a rede Novas Direitas, as razões não ficaram evidentes, mas imagina-se que seja em função dos estereótipos de gênero reforçados pelas novas direitas.

Por fim, verifica-se que a rede Coaching não é um núcleo de misoginia (todavia, é machista!), mas os guias para as "mudanças de comportamento" (KENDALL, 2011) e as "técnicas de sedução" defendidas pelos participantes (ALMOG, KAPLAN, 2017) vão ao encontro do que está documentado no referencial teórico acerca da machosfera. Assim, em analogia aos conceitos de alt-right e alt-light (NAGLE, 2017), e tendo em vista suas relações com a rede Anti-PC, entende-se que a rede Coaching se caracteriza como uma machosfera "leve", pois ainda que percepções machistas sejam reforçadas, não é nada comparado às ideias distorcidas que são defendidas pelos adeptos da filosofia redpill. Deste modo, em vista dessas conexões controversas com as redes masculinistas, a rede Coaching está longe de ser inofensiva, porque pode ser uma porta de entrada para comunidades mais extremas.

Figura 47 – Distribuição das conexões e participantes da rede Coaching

Fonte: Elaborada pela autora.

5.2.8 Novas Direitas

A rede Novas Direitas é o núcleo de militância das novas direitas do Brasil, centralizada no canal oficial de Jair Bolsonaro, que é o mais relevante da rede. Surpreende a quantidade de canais oficiais de políticos, entidades e figuras públicas que marcam presença nessa rede, tais como, por ordem de relevância (Figura 48), Jair Bolsonaro, Olavo de Carvalho, Allan dos Santos (influenciador foragido da Justiça, suspenso do Telegram), Bernardo Küster (influenciador recomendado por Bolsonaro), Leandro Ruschel (empresário), Jornal da Cidade Online (veículo desinformativo), Bia Kicis (deputada), Carlos Bolsonaro (vereador), Carla Zambelli (deputada), Eduardo Bolsonaro (deputado), Brasil Paralelo (plataforma de streaming de produções audiovisuais desinformativas), Padre Paulo Ricardo, Nikolas Ferreira (deputado), Aliança pelo Brasil (veículo desinformativo), Gabriel Monteiro (ex-MBL, ex-vereador, preso por estupro [153]) e Abraham Weintraub (ex-ministro).

Esses achados confirmam o que está relatado no referencial teórico (NASCIMENTO, 2022), que, durante o Governo Bolsonaro, as novas direitas utilizaram o Telegram de modo sistemático para estabelecer conexão com o seu eleitorado. O mais preocupante é que essa rede está entrelaçada às comunidades de antivacinas [154], de veículos desinformativos e de teorias da conspiração [155]. Esse fenômeno ocorreu porque o algoritmo de detecção de redes entendeu que grande parte dessas comunidades se relacionava mais com a rede Novas Direitas do que as outras redes temáticas, como Anti-NOM, Anticiência, Neonazismo e Redpill/NOFAP/MGTOW.

Figura 48 – Comunidades e links da rede Novas Direitas

Fonte: Elaborada pela autora.

Outro aspecto relevante são os períodos de atividade desta rede (Figura 49), que começou no final de 2018 e cresceu consideravelmente em 2021, quando essas comunidades começaram a publicar em massa conteúdos antivacina. Porém, o que chama mais a atenção é o fato de que a rede Anti-PC, que é aquela que apresenta mais conexões com a rede Novas Direitas, está há, pelo menos, dois anos a mais no Telegram, de modo que quando as novas direitas adentraram a plataforma, passaram a se conectar com redes que eram ainda mais extremas. Esse fenômeno é ressaltado como um efeito colateral da deplataformização (BODNER; WELCH; BRODIE, 2020), pois quando contas são suspensas das plataformas convencionais e adentram as plataformas alternativas, podem levar seus seguidores a conhecer ideias ainda mais perigosas.

Figura 49 – Atividade da rede Novas Direitas

Fonte: Elaborada pela autora.

Quanto às mensagens mais encaminhadas (Figura 50), ressaltam-se os tutoriais "anti-censura", conteúdos antivacina, apoio a Jair Bolsonaro, teorias da conspiração, ataques a Alexandre de Moraes [156], antifeminismos e insultos à esquerda política [157]. Nessas mensagens há ocorrência de expressões como "sair da Matrix", que também foram identificadas em outras redes e fazem parte do vocabulário da machosfera (WENDLING, 2018).

Figura 50 – Conteúdo das mensagens encaminhadas na rede Novas Direitas

Fonte: Elaborada pela autora.

Quanto às conexões com outras redes, destacam-se as relações com Ancap/Bitcoin (377 conexões, mil participantes em comum), Anti-PC (mil conexões, 453 participantes em comum), Anticiência (638 conexões, 774 participantes em comum), Anti-NOM (27,5 mil conexões, 5,6 mil participantes em comum) e Neonazismo (401 conexões, 72 participantes em comum). É importante ressaltar que essas comunidades se conectam de volta com a rede Novas Direitas, com ainda mais força, conforme é possível observar na coluna "Novas Direitas" da Figura 18.

Entende-se que essas relações não são arbitrárias e indicam assortatividade, conforme o número de conexões com as redes Futebol, Coaching, BBB e Celebridades/TV são próximas de zero. Assim, sugere-se que essas conexões são, na verdade, escolhas, que ocorreram em função de alinhamentos ideológicos [158]. No entanto, ainda que existam mensagens misóginas, racistas e antissemitas nessa rede, esses conteúdos não são hegemônicos, e não parecem representar o pensamento das novas direitas. Assim, entende-se que as relações com as redes Anti-PC e Neonazismo estejam pautadas nas teorias da conspiração acerca de governos de poder global (globalismo, NOM), aversão à esquerda política e ataques aos veículos tradicionais de mídia.

Figura 51 – Distribuição das conexões e participantes da rede Novas Direitas

Fonte: Elaborada pela autora.

5.2.9 Cracking e SPAM

A rede Cracking/SPAM está repleta de comunidades sobre pirataria, dark web, anonimato e cracking (Figura 52). Algumas comunidades inclusive ensinam como clonar cartões de crédito (prática conhecida como carding). Internet e telefonia gratuita são outro assunto relevante nesses espaços, mas parecem ser apenas tentativas de vender produtos falsos (spam).

Figura 52 – Comunidades e links da rede Cracking/SPAM

Fonte: Elaborada pela autora.

Figura 53 – Atividade da rede Cracking/SPAM

Fonte: Elaborada pela autora.

Essa rede está presente no Telegram desde o final de 2016 (Figura 53), mas começou a apresentar crescimento em sua atividade no ano de 2019, assim como outras redes. Assim, entende-se que esse crescimento seja em razão da ampliação do uso da plataforma no Brasil. Aqui, não há como ignorar o fato de que essas redes divulgam práticas criminosas e conteúdo ilegal, mas, mesmo assim, estiveram em pleno crescimento nos últimos anos, demonstrando que, para além das informações prejudiciais, o Telegram também é conivente com esse tipo de crime.

Figura 54 – Conteúdo das mensagens encaminhadas na rede Cracking/SPAM

Fonte: Elaborada pela autora.

Por fim, o conteúdo das mensagens mais compartilhadas (Figura 54) revela que a principal característica da rede é a pirataria e formas ilegais de telefonia e acesso à internet ("acesso grátis"). Por fim, destaca-se que nenhuma outra rede apresentou conexões com a rede Cracking/SPAM, de modo que esse conteúdo spam parece não ser difundido no Telegram através do uso de bots. Essa rede também apresentou poucas conexões, mas possui participantes em comum com as redes Ancap (161), Anti-PC (133), Coaching (125), Novas Direitas (393), dentre outras. A razão para essas relações não ficou clara, mas é possível que alguns usuários encontrem essas comunidades ao utilizar o recurso de busca do Telegram para procurar conteúdo ilegal, mas não há como saber.

Figura 55 – Distribuição das conexões e participantes da rede Cracking/SPAM

Fonte: Elaborada pela autora.

5.2.10 Futebol

As comunidades da rede Futebol se caracterizam pela publicação de notícias e memes acerca do esporte (Figura 56). Trata-se de uma rede extremamente focada no assunto, de modo que todas as comunidades abordam esse tema de forma central. Nesse sentido, os links compartilhados nessa comunidade também vão de encontro a essa característica (Figura 56).

Figura 56 – Comunidades e links da rede Futebol

Fonte: Elaborada pela autora.

A rede Futebol está entre as mais antigas do Telegram, cujas primeiras comunidades existem desde o final de 2015 (Figura 57). Diferente de outras redes, essa não apresentou crescimento considerável nos últimos anos, de modo que, desde 2018, sua atividade ocorre de forma consistente, tendo altas e baixas em alguns períodos.

Figura 57 – Atividade da rede Futebol

Fonte: Elaborada pela autora.

As mensagens mais encaminhadas nessa rede reforçam que o foco das comunidades é o futebol (Figura 58), pois assuntos políticos ou ideológicos sequer foram citados.

Figura 58 – Conteúdo das mensagens encaminhadas na rede Futebol

Fonte: Elaborada pela autora.

Ainda assim (Figura 59), existem conexões com a rede Anti-PC (43 conexões, 29 participantes em comum), e alguns poucos participantes compartilhados com as redes Coaching (78), Cracking/SPAM (87) e Novas Direitas (128). As relações com a rede Anti-PC ocorrem porque essas comunidades também publicam mensagens sobre futebol, de modo que eventualmente podem ser encaminhadas para a rede Futebol. No entanto, poucos participantes da rede Futebol estão na rede Anti-PC.

Por fim, questiona-se quanto à possibilidade de entender a rede Futebol como parte da machosfera, visto que se trata de um esporte com apelo nacional, e a ausência de relações com outras comunidades sugere que ela apareceu na amostra por ser sobre um assunto muito importante no Brasil.

Figura 59 – Distribuição das conexões e participantes da rede Futebol

Fonte: Elaborada pela autora.

5.2.11 Neonazismo e negação do holocausto

A rede Neonazismo é um núcleo de teorias da conspiração e discursos de ódio, que consistentemente ataca judeus, negros, mulheres e pessoas LGBTQIA+. Essas pessoas acreditam que o "homem branco" passou a ser marginalizado pelas sociedades, pois supostamente é retratado por todos como uma espécie de "vilão" histórico. Essas comunidades estão centralizadas no canal e grupo "Politicamente Incorreto" (Figura 60), que em sua descrição se define como "[de] terceira posição, antijudaísmo, nazismo, fascismo e nacionalismo".

As relações com a rede Anti-PC são bastante evidentes nessas comunidades, pois além das conexões que evidenciam esse aspecto, há presença de vocabulário chanspeak, através das expressões /pol/, based e redpill (ver glossário). Além disso, possuem características em comum com a rede Anti-NOM, conforme ambas as redes estão pautadas em teorias da conspiração e publicam links para plataformas alternativas, como BitChute (130), VK (107), Odysee (60), Rumble (12) e Gettr (5), por exemplo (Figura 60).

Figura 60 – Comunidades e links da rede Neonazismo

Fonte: Elaborada pela autora.

Essa rede está no Telegram desde o final de 2018 (Figura 61), mas apresentou crescimento em sua atividade a partir do início de 2020, o que é bastante preocupante em vista do tipo de conteúdo que é publicado nessas comunidades. Aqui, destacam-se as notícias que evidenciam o fortalecimento dos grupos neonazistas no Brasil, as quais foram citadas no referencial teórico deste estudo.

Figura 61 – Atividade na rede Neonazismo

Fonte: Elaborada pela autora.

Quanto ao teor das mensagens mais encaminhadas (Figura 62), ficam evidentes os discursos de ódio, que se manifestam através do racismo, antissemitismo e homofobia [159]; mas também das teorias da conspiração [160], que buscam minimizar ou negar o holocausto [161] e justificar as ações da Alemanha Nazista [162]. Essas pessoas se identificam como "nacional-socialistas" ou de "terceira posição", que consiste em amplo espectro político de ideias fascistas que são contrárias tanto ao "capitalismo" quanto ao "comunismo" (MALENDOWICZ, 2023).

Deste modo, os participantes não demonstraram apoio hegemônico às novas direitas do Brasil, conforme essas pessoas entendem que Jair Bolsonaro não foi suficientemente de "extrema direita" durante o seu governo [163]. Ainda assim, ataques à esquerda política e ao "comunismo" se fizeram presentes nessas redes, geralmente associando esse espectro político ao globalismo e à NOM. Em consonância com as lógicas da machosfera (GING, 2019), as mulheres (principalmente feministas) e pessoas LGBTQIA+ também são entendidas como grupos que supostamente recebem "tratamento especial" das sociedades. Essas pessoas entendem que esses grupos são protegidos por leis e programas sociais, enquanto o "homem branco" é cada vez mais associado a ideias negativas [164].

Figura 62 – Conteúdo das mensagens encaminhadas na rede Neonazismo

Fonte: Elaborada pela autora.

Assim (Figura 63), observaram-se relações com as redes Anti-PC (2,2 mil conexões, 58 participantes em comum), Novas Direitas (2,6 mil conexões, 72 participantes em comum) e Anti-NOM (1,2 mil conexões, 15 participantes em comum). Quanto a rede Anti-PC, fica evidente que a concordância está na percepção de declínio do homem branco que ambos possuem em comum, além do antissemitismo, racismo e homofobia. Além disso, na rede Neonazismo, verificaram-se mensagens que reforçam a ideia de que o homem deve recuperar a masculinidade que uma vez seus ancestrais tiveram, algo que é frequente em comunidades masculinistas (NAGLE, 2017; WENDLING, 2018).

Por fim, as relações com as redes Novas Direitas e Anti-NOM parecem se originar das teorias conspiratórias que se fazem presentes no espectro político da extrema direita. A crença de que judeus e/ou comunistas protagonizam a ascensão de um governo de poder global se faz presente nessas três redes, de modo que o revisionismo histórico da rede Neonazismo acaba por se pautar em teorias conspiratórias desse tipo, daí sua forte relação com a rede Anti-NOM.

Figura 63 – Distribuição das conexões e participantes da rede Neonazismo

Fonte: Elaborada pela autora.

5.2.12 Redpill, NOFAP e MGTOW

A rede Redpill/NOFAP/MGTOW é um núcleo masculinista de misoginia, pautado pela filosofia redpill e MGTOW. Seus participantes compartilham métodos pseudocientíficos que prometem desenvolver ou prevalecer suas características masculinas, de modo que o nofap (prática de não se masturbar) ou noporn (prática de não assistir pornografia) sejam a sua principal estratégia, algo que já vem desde os fóruns chans mais antigos (VELHO, 2018). Em conformidade com o referencial teórico, os participantes da rede Redpill/NOFAP/MGTOW podem ser entendidos como PUAs (pickup artists, "artistas da pegação") (ALMOG, KAPLAN, 2017). Esses homens entendem que as mulheres não são confiáveis, e as generalizam em função dos seus supostos impulsos biológicos, de modo que também são associadas à irracionalidade. Assim, destaca-se que essas ideias estão em conformidade com o que fora elaborado na literatura sobre a machosfera (WENDLING, 2018).

Figura 64 – Comunidades e links da rede Redpill/NOFAP/MGTOW

Fonte: Elaborada pela autora.

A maior parte dos links compartilhados nessa rede (Figura 64) são vídeos do YouTube sobre o desenvolvimento da masculinidade, mas também estão presentes livros piratas que abordam o assunto. Para além do YouTube, também foram encontrados links para as plataformas alternativas Anchor (12), BitChute (5) e Odysse (4), ainda que em números muito inferiores as redes Anti-NOM e Neonazismo. Além disso, estiveram presentes links para blogs e sites masculinistas, o que surpreende em vista da decadência dos blogs que ocorre desde a última década.

Figura 65 – Atividade da rede Redpill/NOFAP/MGTOW

Fonte: Elaborada pela autora.

Uma diferença dessa rede é a forma como sua atividade se manifestou (Figura 65), conforme a maior parte das mensagens ocorreram entre 2019 e 2020, mas voltou a subir no final de 2021. Não foram encontrados justificativas para essa ocorrência, pois nenhuma suspensão de comunidades foi identificada neste período.

Figura 66 – Conteúdo das mensagens encaminhadas na rede Redpill/NOFAP/MGTOW

Fonte: Elaborada pela autora.

Quanto ao conteúdo das mensagens mais encaminhadas (Figura 66), verifica-se a prevalência pela prática de nofap e o combate ao consumo de pornografia (noporn), conforme esses homens entendem que esses comportamentos impactam na sua masculinidade [165]. A misoginia fica evidente em falas sexistas que afirmam que as mulheres são hipergâmicas [166], e que na juventude buscam relações sexuais com "cafajestes" (alfas), e depois que isso não é mais possível, tentam encontrar um "beta" ("miqueinha") para sustentá-las [167]. Esses homens ironizam as parceiras dos outros participantes, chamando-as de "honradinhas" [168], pois querem convencer seus pares de que nenhuma mulher é digna de confiança, e de que devem focar no desenvolvimento pessoal até se tornar um "alfa". Assim, fica evidente a consonância com o referencial teórico deste estudo (NAGLE, 2017; GING, 2019). No entanto, pelo fato de se tratar de redes brasileiras, esses homens podem utilizar expressões diferentes para se referir às mesmas ideias. Assim, vale ressaltar que uma análise qualitativa mais aprofundada poderia revelar contornos específicos do Brasil, tal como fizeram Vilaça e D'Andréa (2021) acerca da machosfera brasileira do Reddit.

Por fim, essa rede evidenciou relações com as redes Ancap (45 conexões, 130 participantes em comum), Anti-PC (313 conexões, 82 participantes em comum), Novas Direitas (670 conexões, 204 participantes em comum) e Anti-NOM (175 conexões, 51 participantes em comum). Quanto a rede Ancap, fica evidente que a relação é a questão do desenvolvimento pessoal do homem, o que inclui o aspecto financeiro (WENDLING, 2018). Já quanto à rede Anti-PC, entende-se que na verdade a rede Redpill/NOFAP/MGTOW seja apenas um núcleo temático desta rede, focado no desenvolvimento pessoal dos homens, mas, talvez esse afastamento também seja fruto de disputas. De todo modo, essas relações ficam evidentes inclusive no vocabulário que possuem em comum, pois, de forma muito imatura, referem-se às mulheres como "muié" ou "cuié".

Figura 67 – Distribuição das conexões e participantes da rede Redpill/NOFAP/MGTOW

Fonte: Elaborada pela autora.

5.3 ANÁLISE DOS RESULTADOS

Partindo dos resultados deste estudo, questiona-se: onde estão a machosfera e a extrema direita na rede de comunidades da amostra? Essa é uma pergunta difícil de responder, justamente em função da sobreposição de crenças que esses eixos ideológicos possuem em comum. Pois, em razão das pautas que a machosfera apoia, bem como suas relações com ideologias extremas, não seria incorreto afirmar que seus participantes se encontram no espectro da extrema direita, conforme ressalta o referencial teórico do estudo (NAGLE, 2017; WENDLING, 2018). Por outro lado, é possível observar que a extrema direita também possui algumas características em comum com a machosfera, principalmente com relação aos ataques ao jornalismo, aversão à esquerda política e percepção de "declínio" do homem branco.

No entanto, para esta pesquisa, conforme está situado no referencial teórico, entende-se que a extrema direita se materializa no Brasil através dos núcleos de militância das "novas direitas" (KELLER; KELLER, 2019), e, também, das células neonazistas que estiveram em crescimento nos últimos anos (DIAS, 2007). Já a machosfera, materializa-se através das redes masculinistas de misoginia, antifeminismos e politicamente incorreto, as quais se manifestam em comunidades anônimas, blogs, perfis de plataformas digitais, dentre outros (NAGLE, 2017; GING, 2019). Assim, quanto à materialidade identificada neste estudo, entende-se que as redes Ancap/Bitcoin, Anti-PC e Redpill/NOFAP/MTGOW sejam representativas da machosfera, enquanto que as redes Novas Direitas, Neonazismo, Anti-NOM e Anticiência podem ser relacionadas à extrema direita. É evidente que a rede Anticiência está relacionada à rede Novas Direitas, e pode ser entendida como um núcleo de discussão específico desta rede, até porque não há como estudar o fenômeno antivacina sem relacioná-lo às novas direitas do Brasil. Além disso, a rede Anti-NOM também está diretamente conectada com a rede Neonazismo, justamente em função das teorias da conspiração.

Partindo dessas prerrogativas, entende-se que a assortatividade entre machosfera e extrema direita se fazem presentes neste estudo, mas também existem divergências consideráveis entre essas esferas ideológicas. Nesse sentido, um ponto importante é que as comunidades da rede Anti-PC, por mais que compartilhassem conteúdos da rede Novas Direitas, evidentemente não eram um núcleo de apoio às novas direitas, pois, ainda que esse aspecto tenha sido evidenciado, as críticas também estiveram presentes nesses espaços. Em outro sentido, a rede Novas Direitas também compartilhou mensagens das redes Anti-PC, Redpill/NOFAP/MGTOW e Neonazismo, mas esses conteúdos não estavam carregados do racismo, misoginia e antissemitismo típico desses espaços.

No entanto, um aspecto que ambas as redes demonstraram ter em comum, é a percepção negativa acerca da esquerda política, que é associada à corrupção e à deturpação dos bons costumes. Assim, feministas e pessoas LGBTQIA+ também são consistentemente atacadas e associadas ao "comunismo". Também foi observado que ambas as redes reforçam estereótipos de gênero, ainda que a machosfera se diferencia por defender essas ideias de forma extremamente violenta. Outro aspecto em comum é o reforço aos papéis tradicionais de gênero, os quais foram evidenciados através de falas que defendiam a retomada de uma masculinidade ancestral, aspecto da machosfera que já foi evidenciado no referencial teórico deste estudo (ZUCKERBERG, 2018; GING, 2019). Essas relações com a machosfera ficaram evidentes em algumas mensagens da rede Neonazistas, que associaram homens a "guerreiros" e "cavaleiros", tal como fazem as comunidades masculinistas.

No entanto, um ponto de discordância é a questão religiosa, pois, na rede Anti-PC, foram encaminhadas diversas mensagens de uma comunidade ateísta, e, diferente da rede Novas Direitas, não foi observado prevalência à fé cristã. Na rede Neonazismo, também foram verificadas entre as mensagens mais compartilhadas conteúdos que sugeriam aderência ao cristianismo, inclusive afirmando que Adolf Hitler era cristão. Assim, entende-se que uma diferença da machosfera é o fato de que seus participantes possuem uma identidade que está pautada em ser disruptiva (seriam niilistas?), conforme o aspecto do lulz e da trollagem são centrais nesses espaços (COLEMAN, 2014). Assim, o respeito ao sagrado é algo que pode ser facilmente subvertido na machosfera.

O paralelo entre "alt-right" (direita alternativa) e "alt-light" (direita alternativa leve) também faz todo sentido nas relações entre as redes (NAGLE, 2017), conforme ideias racistas, misóginas e antissemitas não se apresentaram como hegemônicas na rede Novas Direitas, mas a percepção negativa quanto à esquerda política e os veículos tradicionais de mídia, foram aspectos compartilhados entre todas as redes. Deste modo, destaca-se que a rede Anti-NOM é bastante perigosa, pois diversas teorias da conspiração estão relacionadas ao revisionismo histórico, os quais facilmente levam para ideias antissemitas de negação do holocausto e justificativas para as ações da Alemanha Nazista. Assim, é possível que essas comunidades possam servir como uma "passagem", capazes de guiar os participantes da rede Novas Direitas até a rede Neonazismo.

Também se observa que existe uma variedade muito maior de posicionamentos políticos na machosfera (ancaps, terceira posição), o que inclusive está situado no referencial teórico do estudo (WENDLING, 2018). Nessas comunidades, "terceira posição" parece ser uma expressão utilizada para situar uma descrença tanto com a esquerda política, quanto com as novas direitas. O aspecto da terceira posição também ficou evidente na rede Neonazismo, já na rede Novas Direitas, o apoio a Jair Bolsonaro foi hegemônico. Assim, entende-se que a rede Anti-PC aproxima-se da rede Neonazismo em vista de se identificarem como de terceira posição, e ambos diferenciam-se da rede Novas Direitas neste ponto, pois trata-se de um núcleo de apoio a Jair Bolsonaro.

Outro aspecto a ser destacado, é a deslegitimação aos veículos tradicionais de mídia, que tanto a machosfera quanto a extrema direita possuem em comum. Essa percepção está pautada na ideia de que esses veículos são ferramentas de controle, que estão supostamente vinculadas aos comunistas e/ou aos judeus. Aqui surgem as teorias da conspiração acerca dos "planos de controle" que supostamente estão sendo articulados por um "governo de poder global" (DEMURU, 2021). No entanto, as comunidades das novas direitas situam que o globalismo é praticado pelos "comunistas", já as comunidades neonazistas, relacionam-no aos judeus (que, por vezes, também são associados ao "comunismo"). No entanto, ficou evidente que tanto a machosfera quanto a extrema direita entenderam que a ameaça de bloqueio do Telegram no Brasil tratava-se de "censura" praticada pelo STF. Aqui, ressalta-se que essas pessoas possuem uma identidade que está pautada em uma suposta "luta" pela "liberdade de expressão" (INNES; INNES, 2021). Deste modo, links para outras plataformas alternativas estiveram presentes tanto na machosfera quanto na extrema direita, de modo que essas redes também podem estar presentes em outras plataformas alternativas.

Por fim, entende-se que, por mais que existam similaridades e diferenças entre machosfera e extrema direita, entende-se que essas redes estão próximas o suficiente para que isso se configure como um problema. Existe muita margem para que os apoiadores das novas direitas, que se encontram na rede Novas Direitas, entrem em contato com as informações prejudiciais que estão em Neonazismo e Anti-PC, justamente em função do intercâmbio de conteúdos que existe entre essas redes. Assim, ressalta-se a preocupação de que apoiadores das novas direitas tornem-se ainda mais extremos em razão desse contato com conteúdos tóxicos, o que pode potencializar o problema da ascensão extrema direita, que está ocorrendo desde a última década, até porque as comunidades masculinistas e neonazistas já estavam presentes no Telegram antes da chegada das novas direitas na plataforma.

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Essa foi uma pesquisa acerca da temática relações entre machosfera, extrema direita e informações prejudiciais nas redes brasileiras do Telegram. A tese deste trabalho foi a de que a machosfera brasileira opera sob uma lógica de assortatividade, de modo que se configura como uma rede de informações prejudiciais que potencializam as pautas da extrema direita. A questão de pesquisa foi a seguinte: quais os impactos da machosfera no problema da circulação de informações prejudiciais no Telegram? O objetivo deste estudo foi investigar as relações entre machosfera e extrema direita nas redes brasileiras do Telegram. Os objetivos específicos foram (a) construir uma rede de grupos e canais brasileiros do Telegram que representam uma amostra da machosfera e suas comunidades relacionadas, (b) detectar os focos de informações prejudiciais nessa estrutura, (c) encontrar os grupos e canais de extrema direita que fazem parte desse conjunto e (d) analisar as conexões da rede e o teor dos conteúdos compartilhados pelos participantes entre as comunidades.

Quanto aos procedimentos metodológicos, optou-se por operacionalizar os métodos digitais (digital methods), especificamente, a abordagem "quali-quantitativa" de Omena (2019), que propõe uma análise de dados na qual interpreta-se os resultados da pesquisa (geralmente apresentados através de gráficos e redes semânticas) como um "mapa" do fenômeno que está representado na amostra. Assim, seguindo essa abordagem, foi possível coletar, analisar e visualizar uma rede de 3.157 comunidades do Telegram. Essa amostra foi obtida através de um programa de coleta de dados, que implementou o método de amostragem "bola de neve" (snowball) exponencial discriminativo, o qual seguiu os links e encaminhamentos de mensagens dos participantes de uma única comunidade da machosfera (MGTOW Club), de modo que foi capaz de encontrar as conexões com os grupos e canais mais próximos dessa comunidade.

Por seguinte, houve a estruturação da rede de comunidades, que consistiu na aplicação do algoritmo verlet-velocity, que foi responsável por organizar graficamente as relações entre os grupos e canais da amostra. Após essa etapa, ocorreu o processo de detecção das (sub)redes de comunidades, onde buscou-se efetivamente encontrar a "machosfera" e a "extrema direita" no grafo desenvolvido anteriormente. Para tanto, o algoritmo Louvain foi operacionalizado, seguido de uma etapa manual de curadoria, efetuada pela pesquisadora. Assim, 12 redes de comunidades foram encontradas, as quais foram rotuladas como Ancap/Bitcoin, Anticiência, Anti-NOM, Anti-PC, BBB, Celebridades/TV, Coaching, Novas Direitas, Cracking/SPAM, Futebol, Neonazismo e Redpill/NOFAP/MGTOW. Ainda, antes da análise dos resultados, obteve-se, dentre outras métricas, as relações de assortatividade entre essas redes de comunidades, que foi materializada nas conexões entre elas.

Quanto aos resultados, foi verificado que as redes de extrema direita divergem entre as novas direitas e os grupos neonazistas, que possuem em comum a aversão à esquerda política e o ataque aos veículos tradicionais de mídia, mas destoam por causa do racismo e do antissemitismo dos neonazistas. Já a machosfera, desdobra-se em redes anarcocapitalistas, politicamente incorretas e masculinistas, que se relacionam com as redes neonazistas por conta do racismo, antissemitismo e por não apoiarem as novas direitas. Também foi percebido que, tanto a machosfera quanto os neonazistas, ainda que possam ser entendidos no espectro da extrema direita, por vezes demonstraram oposição a Jair Bolsonaro, justamente por que não o consideram suficientemente "extremo", pois muitas vezes cedeu à opinião pública. Outro resultado importante é que as redes de teorias da conspiração estão muito conectadas com as redes neonazistas, justamente porque são aquilo que sustentam o seu revisionismo histórico. De modo preocupante, as novas direitas também se relacionam com essas redes, fazendo com que as teorias da conspiração sejam um "elo" que as conectam com os neonazistas.

Por seguinte, respondendo à questão de pesquisa ("quais os impactos da machosfera no problema da circulação de informações prejudiciais no Telegram?"), entende-se que o "masculinismo" é apenas uma faceta da machosfera, que se caracteriza, principalmente, como uma rede politicamente incorreta (anti-pc) e de propagação do discurso de ódio. Nessas comunidades, existe um tipo de solidariedade distorcida, onde todos aqueles que desejam o lulz são bem-vindos para fazê-lo, independente dos impactos que suas ações possam gerar.

Com isso, a machosfera possui o papel de naturalizar as informações prejudiciais entre os seus participantes, principalmente os discursos de ódio, pois esses conteúdos negativos estão diluídos entre outros que são aparentemente "inofensivos". Assim, é possível que as pessoas cheguem até a machosfera por causa dos memes e do shitpost, os quais, pelos olhos menos atentos, podem ser interpretados como brincadeiras subversivas, que "apenas" desafiam o politicamente correto ("tinha que ser preto", "as mulheres são loucas mesmo", "não dá pra confiar nessa #GloboLixo", "nordestino não sabe votar", "judeus são traiçoeiros"), mas que, na verdade são extremamente problemáticas. Deste modo, entende-se que a machosfera seja uma coalizão de ideias da extrema direita, que podem levar seus participantes ao encontro de diversos tipos de conteúdos negativos, incluindo, mas não se limitando, ao antissemitismo, homofobia, misoginia, nazismo, racismo e pedofilia. Nesse sentido, destaca-se que é muito preocupante que as redes dos apoiadores das novas direitas, que compreendem uma parte legítima e não-negligenciável da força de voto do Brasil, estejam tão próximas desses conteúdos negativos, pois é possível que esse contato possa tornar essas pessoas adeptas a esses extremismos.

Entende-se que a principal contribuição deste trabalho são as evidências empíricas acerca dos fenômenos da machosfera e da extrema direita, que já foram documentados em trabalhos anteriores, mas poucas vezes através de estudos aplicados, principalmente quando se trata do cenário brasileiro. Outra contribuição é o desenvolvimento metodológico da tese, que operacionalizou seus próprios algoritmos para investigar um fenômeno político e comunicacional. Através dessa pesquisa, foi implementada uma ferramenta de coleta de dados no Telegram, e uma ferramenta para a construção de redes semânticas, que inclusive está disponível de forma online e com interface amigável para que pessoas sem conhecimento técnico possam utilizá-la.

Por fim, em contrapartida, entende-se que uma das limitações do estudo foi a ausência de análises qualitativas mais aprofundadas, pois os textos das mensagens não foram devidamente explorados. Essa fraqueza do estudo ocorreu em vista das escolhas metodológicas do trabalho, que buscou analisar outras métricas, de modo que os resultados qualitativos sejam bastante superficiais. Assim, para próximas pesquisas, sugere-se realizar análises qualitativas mais específicas das comunidades, pois ainda há muito o que explorar na amostra que foi coletada.

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APÊNDICES

APÊNDICE I – GLOSSÁRIO

6666

A machosfera utiliza a expressão "6666" para resumir os requisitos que toda mulher supostamente espera de um homem: "6 foot tall, 6 figure income, 6 inch peen, 6 pack abs" (ou seja, alguém alto, rico, com pênis grande e abdômen definido).

BLUE PILL

Blue pill (ou bluepill) é um homem que não "despertou" para as "injustiças sociais" defendidas pelos redpill. São os homens que ainda não tomaram a "pílula vermelha".

CHAD

Chad é um arquétipo de macho alfa que geralmente é representado através de memes (algumas vezes em tom jocoso, "debochando" dessas figuras).

ESCRAVO DE BUCETA

"Escravo de buceta", "escravoceta", "mangina", dentre outras, são expressões pejorativas utilizada por participantes da machosfera para se referir aos homens que são "submissos" as mulheres, pois são incapazes de coloca-las em uma posição de "submissão" (que inclui ser manipulativo e violento).

FEMINAZI

"Feminazi" ou "militonta" são expressões pejorativas utilizadas para deslegitimar as mulheres, o feminismo e o combate à desigualdade de gênero.

GLOBALISMO

Globalismo e Nova Ordem Mundial (NOM) são teorias da conspiração que defendem um plano secreto que iminentemente estabelecerá um governo de poder global. Os defensores dessas ideias geralmente estão alinhados ao revisionismo histórico, de modo que acreditam que os "comunistas" e os "judeus" são quem controlam esse governo secreto.

HIPERGAMIA

Os masculinistas dizem que as mulheres são "hipergâmicas", conforme acreditam que a escolha dos parceiros se dá pela condição social e financeira.

HOLOCONTO DE FADAS

"Holoconto de fadas", "Holoconto", "Holoca$h", "conspiração judia", dentre outras variações, são expressões pejorativas que debocham e negam o holocausto durante a Segunda Guerra Mundial. Essas expressões são utilizadas em comunidades sobre teorias da conspiração e revisionismo histórico.

INCEL

Incel (Involuntary celibacy ou "celibato involuntário") é uma expressão utilizada por homens que se autodenominam incapazes de estabelecer relações sexuais com mulheres. Esses homens costumam ser autodepreciativos, mas também culpam as mulheres e os alfas pela sua condição.

MACHO ALFA

O alfa (ou alpha) é um estereótipo da machosfera que descreve os homens que possuem as características que supostamente atraem as mulheres (aparência física, dinheiro, personalidade dominante, status social, virilidade, etc.), e por isso conseguem encontrar parceiras sexuais facilmente.

MACHO BETA

O macho beta é um estereótipo da machosfera que descreve os homens que não conseguem "pegar mulheres". As características dos betas incluem introversão, dificuldades com relações sociais, interesse pela cultura geek, "genética ruim", corpo "fora de forma", dentre outras.

MERDALHER

"Esgotalher", "merdalher", "putalher", "vadialher" e suas variações, são expressões misóginas utilizadas pelos participantes da machosfera para se referir pejorativamente as mulheres. Essas palavras são desrespeitosas e devem ser entendidas como constitutivas de discursos de ódio.

MGTOW

Sigla para "Men Going Their Own Way" ("homens seguindo seu próprio caminho"). Compreende o subconjunto dos masculinistas que defendem que os homens não deveriam se relacionar com as mulheres independentemente das circunstâncias. Esses masculinistas entendem que as mulheres são inferiores e perversas, de modo que acreditam que os homens deveriam se dedicar as suas próprias conquistas pessoais, ao invés de procurar por parceiras sexuais.

MÍDIA COMUNISTA

"Mídia comunista", "imprensa comunista", "mídia judaica", "mídia sionista", dentre outras, são expressões utilizadas por defensores de teorias da conspiração para dizer que os veículos tradicionais de mídia possuem alinhamentos ideológicos com "governos secretos". Essas pessoas acreditam que esses veículos realizam gatekeeping antiético para privilegiar os interesses dos "comunistas" e dos "judeus", que, supostamente, tentam controlar o mundo em segredo.

MORAL JUDAICO-CRISTÃ

Expressão popularizada por Olavo de Carvalho para se referir a um conjunto de pautas reacionárias que tentam se justificar como uma "moral cristã" embasada na bíblia. A palavra "judaico" é meramente uma distração, conforme Olavo e seus seguidores frequentemente atacavam os judeus em suas falas.

MRA

Sigla para "Men's Rights Activism" ("ativismo pelos direitos dos homens"). Movimento masculinista heterogêneo que acredita que os homens são discriminados pela sociedade.

NORMIE

Expressão pejorativa utilizada em comunidades de extrema direita para se referir as pessoas que possuem gostos pessoais e alinhamentos ideológicos considerados "convencionais".

PUA

"Pickup artists" (PUAs) ou "artistas da pegação" são masculinistas que acreditam na existência de "hacks biológicos" para seduzir e "pegar mulheres". Desta forma, esses homens estão orientados por pseudociência e "técnicas" desrespeitosas que não possuem evidência de eficácia.

RED PILL

Os homens "red pill" (redpill) ou "redpillados" são aqueles que "despertaram" para as supostas injustiças sociais que os cercam. Esses homens entendem que são superiores as mulheres, e podem defender o retorno aos papeis tradicionais de gênero. Também acreditam que as mulheres são levadas pelos seus instintos biológicos, pois, supostamente, sempre escolherão o "melhor macho" disponível (hipergamia). Assim, os redpills podem adotar uma pletora de estratégias para lidar com essas percepções, as quais subdividem as diversas facções da machosfera (incels, MTGOWs, PUAs, etc.).

[1]: No Brasil, mesmo com o precedente das eleições presidenciais estadunidenses de 2016, o primeiro acordo de cooperação entre o TSE e as plataformas digitais ocorreu em junho de 2018, as vésperas das eleições presidenciais. Disponível em: https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2018/Junho/tse-firma-novas-parcerias-com-entidades-e-empresas-para-combater-noticias-falsas. Acesso em: 12 mar. 2023.

[2]: Sobre a repercussão do Massacre de Suzano nos chans brasileiros. Disponível em: https://tecnologia.ig.com.br/2019-03-14/massacre-suzano-chans.html. Acesso em: 13 fev. 2022.

[3]: Influenciador digital de extrema direita, ex-bolsonarista. Conhecido pelas falas homofóbicas e preconceituosas.

[4]: Ex-ministro da Educação durante o Governo Bolsonaro. Conhecido por defender a teoria da conspiração do "globalismo". Disponível em: https://www.intercept.com.br/2019/04/14/mec-olavo-weintraub-educacao-comunismo/. Acesso em: 30 abr. 2024. Disponível em: https://canaltech.com.br/redes-sociais/youtube-desmonetiza-videos-de-nando-moura-por-violacao-das-regras-de-conduta-133507. Acesso em: 30 abr. 2024.

[5]: Secretário da Cultura durante o Governo Bolsonaro, que foi demitido por imitar fala de Joseph Goebbels (ministro da Propaganda de Hitler) em um discurso. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2020-01-17/secretario-da-cultura-de-bolsonaro-imita-discurso-de-nazista-goebbels-e-revolta-presidentes-da-camara-e-do-stf.html. Acesso em: 30 abr. 2024.

[6]: Publicações do 1500chan que evidenciam o posicionamento dos anônimos. Disponível em: https://drive.google.com/drive/folders/1uG9Lvs-zszlt6_QnPEwjSvp9mwyu8SK-?usp=share_link. Acesso em 14 mar. 2023.

[7]: Teoria da conspiração estadunidense e de extrema-direita que defende a existencia de uma cabala satânica de pedófilos que estariam por trás do alto escalão do governo. Os defensores da QAnon acreditam que Trump estaria lutando contra essa suposta sociedade secreta (BODNER; WELCH; BRODIE, 2020).

[8]: Disponível em: https://tecnologia.ig.com.br/2021-09-16/telegram-usuarios-brasileiros-plano-b.html. Acesso em: 15 mar. 2023.

[9]: Disponível em: https://t.me/jairbolsonarobrasil. Acesso em: 15 mar. 2023.

[10]: Conforme resultados de pesquisa da Volt Data Lab sobre os grupos e canais bolsonaristas no Telegram. Disponível em: https://voltdata.info/telegram_bolso. Acesso em: 15 mar. 2023.

[11]: Também conhecido como "Mamãe falei", teve seu mandato cassado em 2022 por causa de falas sexistas sobre ucranianas refugiadas da guerra contra a Rússia. Disponível em: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2022/05/17/alesp-aprova-cassacao-do-ex-deputado-arthur-do-val-que-perde-os-direitos-politicos-por-oito-anos.ghtml. Acesso em: 16 mar. 2023.

[12]: Em 2022, foi investigado por apologia ao nazismo após ter defendido que a alemanha "errou" em ter criminalizado a agremiação, mas depois se arrependeu e pediu desculpas. Disponível em: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2022/02/11/kim-kataguiri-pede-desculpas-apos-fala-sobre-nazismo-eu-errei.ghtml. Acesso em: 16 mar. 2023.

[13]: Foi preso em 2022 acusado de estuprar uma mulher, inclusive ameaçando-a com uma arma no rosto. Disponível em: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2022/11/07/justica-decreta-prisao-de-gabriel-monteiro.ghtml. Acesso em: 16 mar. 2023.

[14]: Dentre outros processos, foi condenado por calúnia por causa de comentários ofensivos acerca do Queermuseu. Também está foragido nos Estados Unidos desde 2021 por causa de um pedido de prisão preventiva no Inquérito das Fake News. Disponível em: https://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2022/07/28/blogueiro-bolsonarista-allan-dos-santos-e-condenado-por-calunia-pelo-tj-rs-apos-fala-sobre-queermuseu.ghtml. Acesso em: 16 mar. 2023.

[15]: Plataforma de streaming de produções audiovisuais desinformativas. Conhecida por publicar teorias da conspiração e "documentários" revisionistas sobre a história do Brasil.

[16]: É o processo de curadoria que decide quais conteúdos vão chegar ao público (AMARAL; SANTOS, 2019).

[17]: Manifestações golpistas de 2015 no Recife, onde coletivos de direita defenderam intervenção militar e o impeachment de Dilma Rouseff, justificando que eram medidas necessárias pois o Governo estava associado ao "comunismo". Disponível em: https://g1.globo.com/pernambuco/noticia/2015/03/manifestantes-no-recife-pedem-intervencao-militar-no-brasil.html. Acesso em 17 mar. 2023.

[18]: Discurso de Nando Moura em uma das manifestações de 2015, que foi publicado em seu canal do YouTube. Na ocasição, o influenciador defende o impeachment de Dilma Rouseff, chama a Presidenta de "marmota" (dentre outros insultos) e também defende, sem provas, que as eleições presidenciais de 2014 foram fraudadas em favor do PT. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=8wa421Gn8Ak. Acesso em: 17 mar. 2023.

[19]: Em 2016, 76% dos municípios brasileiros eram comandados pela direita, enquanto 19,7% eram comandados pela esquerda. Já em 2020, 81,9% eram comandados pela direita, enquanto 14,6% eram comandados pela esquerda. Disponível em: https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2020/eleicao-em-numeros/noticia/2020/12/01/partidos-de-direita-ampliam-numero-de-prefeituras-esquerda-perde-espaco.ghtml. Acesso em 7 fev. 2022.

[20]: De acordo com Vladimir Safatle (FFLCH-USP), as Jornadas de Junho foram o "11 de setembro da extrema-direita", que se beneficiou da sensação de medo e desordem causadas por essas manifestações. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2018/11/protestos-de-2013-foram-o-11-de-setembro-da-direita-brasileira.shtml. Acesso em 7 fev. 2022.

[21]: Conforme as ideias de Paulo Guedes, que vislumbra a privatização de diversas estatais. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2019/01/02/economia/1546449418_051111.html. Acesso em 7 dez. 2021.

[22]: No canal do MBL no YouTube, Kim Kataguiri argumenta a favor da privatização de estatais. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=7DrK88jnubA. Acesso em 7 fev. 2022.

[23]: Dentre as diversas matérias publicadas pelo The Intercept sobre o vazamento de mensagens da Lava Jato, destaca-se a fala de Sérgio Moro durante o julgamento de Lula no caso do Triplex do Guarujá, onde o juiz diz que "a defesa [de Lula] já fez o showzinho dela". Moro ainda completou fornecendo instruções sobre como a operação deveria se comportar publicamente para influenciar a narrativa da imprensa. Disponível em: https://theintercept.com/2019/06/14/sergio-moro-enquanto-julgava-lula-sugeriu-a-lava-jato-emitir-uma-nota-oficial-contra-a-defesa-eles-acataram-e-pautaram-a-imprensa. Acesso em 7 fev. 2022.

[24]: Sobre a pandemia de COVID-19, Bolsonaro diz que "brasileiro não pega nada, pula no esgoto e não fica doente". Disponível em: https://valor.globo.com/politica/noticia/2020/03/26/bolsonaro-brasileiro-nao-pega-nada-pula-no-esgoto-e-nao-fica-doente.ghtml. Acesso em 7 fev. 2022.

[25]: Segundo Simão Davi Silber (FEA-USP), quanto aos acordos econômicos entre Brasil e Estados Unidos, a relação entre Trump e Bolsonaro foi como "o pobre fazendo concessão para o rico". Disse também que "não chamaria isso de amizade e sim de subserviência". Disponível em: https://economia.uol.com.br/colunas/carla-araujo/2020/11/07/bolsonaro-trump-relacoes-comerciais-vantagem-eua-sob-brasil-mudancas.htm. Acesso em 7 fev. 2022.

[26]: Bolsonaro insulta os médicos cubanos ao dizer que o programa Mais Médicos tinha o propósito de "formar núcleos de guerrilha no Brasil". Disponível em: https://saude.estadao.com.br/noticias/geral,bolsonaro-diz-que-mais-medicos-tinha-objetivo-de-formar-nucleos-de-guerrilha,70002950683. Acesso em 7 fev. 2022.

[27]: Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2021/08/brasil-vive-escalada-de-grupos-neonazistas-e-aumento-de-inqueritos-de-apologia-do-nazismo-na-pf.shtml. Acesso em 12 fev. 2022.

[28]: Após visitar quilombo, Jair Bolsonaro diz em palestra que o "afrodescendente mais leve lá pesava 7 arrobas". Disponível em: https://veja.abril.com.br/brasil/bolsonaro-e-acusado-de-racismo-por-frase-em-palestra-na-hebraica. Acesso em 12 fev. 2022.

[29]: Roberto Alvim, ex-secretário da Cultura no governo de Jair Bolsonaro, foi afastado do cargo após realizar discurso que fazia referência a Joseph Goebbels, Ministro da Propaganda na Alemanhã Nazista. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-51149261. Acesso em: 17 mar. 2023.

[30]: Deputada Bia Kicis divulga vídeo falso relacionando Farc com Lula e apaga. Disponível em: https://www.poder360.com.br/governo/deputada-bia-kicis-divulga-video-falso-relacionando-farc-com-lula-e-apaga. Acesso em 10 jan. 2023.

[31]: Sistema informático anterior à internet que funcionava através da conexão de telefone.

[32]: Contos ou lendas urbanas que geralmente são compartilhadas em comunidades anônimas. Exemplos notáveis são as creppypastas "Penpal" e "Sonic.exe".

[33]: Em algum momento, o material foi removido do YouTube. Mas ainda é possível acessar os episódios através de um reupload na plataforma DailyMotion. Disponível em: https://www.dailymotion.com/playlist/x6xvzw. Acesso em: 17 mar. 2023.

[34]: Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2021-01-21/pesquisa-revela-que-bolsonaro-executou-uma-estrategia-institucional-de-propagacao-do-virus.html. Acesso em 28 jan. 2022.

[35]: Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=deRVsj4soUA&feature=emb_logo >. Acesso em 26 fev. 2022.

[36]: Matéria do G1 sobre as comunidades masculinistas. Disponível em: https://g1.globo.com/podcast/o-assunto/noticia/2023/03/03/redpill-incel-mgtow-entenda-o-que-acontece-em-grupos-masculinos-que-pregam-odio-as-mulheres.ghtml. Acesso em: 1 abr. 2023.

[37]: Livia La Gatto registra boletim de ocorrência contra Thiago Schutz. Disponível em: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2023/02/27/atriz-registra-boletim-de-ocorrencia-apos-receber-ameaca-de-morte-de-coach-e-influencer-thiago-schutz.ghtml. Acesso em: 1 abr. 2023.

[38]: Matéria da UOL sobre as relações entre grupos machistas e a extrema-direita. Disponível em: https://tab.uol.com.br/noticias/redacao/2021/11/23/redpillado-como-matrix-inspira-grupos-machistas-e-a-extrema-direita.htm. Acesso em: 1 abr. 2023.

[39]: Matéria da Revista Fórum sobre a expressão "redpill" e seu surgimento em grupos de extrema-direita. Disponível em: https://revistaforum.com.br/cultura/2023/3/1/significado-de-red-pill-em-evidncia-apos-caso-do-coach-da-campari-132131.html. Acesso em: 1 abr. 2023.

[40]: Fórum masculinista brasileiro cujos registros mais antigos são de 2011. Possui relação com o Movimento da Real e também defende teorias da conspiração de extrema direita com o "marxismo cultural". Disponível em: https://forum.bufalo.info. Acesso em: 17 abr. 2023.

[41]: Fórum masculinista brasileiro cujos primeiros registros são de 2015. Esse fórum não é tão antigo, mas o Movimento da Real (que dá nome ao fórum) surgiu no Orkut em 2005, sendo um movimento masculinista baseado nos livros de Nessahan Alita ("Como lidar com mulheres", "O profano feminino") (FERREIRA, 2021). Seus participantes se autodenominam "Realistas", e se alinham com várias pautas genéricas dos movimentos masculinistas ("técnicas de pegação", "retomar a virilidade perdida", "mulheres querem ser dominadas"). Disponível em: https://legadorealista.net/forum/. Acesso em: 17 abr. 2023.

[42]: A Suprema Ordem dos Homens de Bem (Homens de Bem ou somente HDB) foi uma comunidade extremista e misógina do Orkut cujos registro mais antigos são de 2008. Restou pouca informação sobre essa comunidade, mas Lola Aronovich (2022) conta que já era alvo de discurso de ódio nos tópicos da comunidade desde 2008.

[43]: Um chan brasileiro conhecido pelo conteúdo extremo e por incentivar seus participantes a realizar massacres. Foi fundado em 2013 por Marcelo Valle Silveira Mello, que foi preso em 2009 (racismo), 2012 (Operação Intolerância) e 2018 (Operação Bravata), de modo que sua última pena foi de 41 anos.

[44]: Um repositório digital que permite ver como os sites eram no passado. Disponível em: https://archive.org/web/. Acesso em: 18 abr. 2023.

[45]: Esses homens dizem que as mulheres são "hipergâmicas", conforme acreditam que a escolha dos parceiros se dá pela condição social e financeira (GING, 2019).

[46]: A machosfera utiliza a expressão "6666" para resumir os requisitos que toda mulher supostamente espera de um homem: "6 foot tall, 6 figure income, 6 inch peen, 6 pack abs" (ou seja, alguém alto, rico, com pênis grande e abdômen definido) (ZUCKERBERG, 2018).

[47]: Chad é um arquétipo da machosfera, que representa uma visão estereotipada do "macho alfa", geralmente através de memes e em tom jocoso (GING, 2019).

[48]: Expressão pejorativa que se refere as pessoas que possuem gostos pessoais e alinhamentos ideológicos considerados "convencionais" (NAGLE, 2017).

[49]: Lilly e Lanna Wacho. Disponível em: https://www.bbc.com/news/newsbeat-53692435. Acesso em: 18 abr. 2023.

[50]: Disponível em: https://twitter.com/jairbolsonaro/status/1154577548006891520. Acesso em: 1 abr. 2023.

[51]: Disponível em: https://revistaforum.com.br/cultura/2020/5/18/depois-de-lacrada-contra-weintraub-co-criadora-de-matrix-usa-mesma-resposta-contra-filha-de-donald-trump-75253.html. Acesso em: 1 abr. 2023.

[52]: Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=AARj-1MnZgk. Acesso em: 1 abr. 2023.

[53]: Disponível em: https://revistaforum.com.br/politica/governo-bolsonaro/2022/2/7/bolsonaro-passa-por-vexame-em-clube-de-tiro-ao-no-destravar-arma-para-atirar-veja-video-109758.html. Acesso em: 1 mai. 2024.

[54]: Disponível em: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2019/06/19/bolsonaro-e-doria-fazem-flexao-de-braco-em-pista-do-centro-paraolimpico-brasileiro.ghtml. Acesso em: 1 mai. 2024.

[55]: Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2019/06/19/politica/1560942643_668515.html. Acesso em: 1 mai. 2024.

[56]: Após publicar uma matéria citando o 55chan como o "lugar" onde surgiam os memes brasileiros na internet, o Estadão foi alvo de um ataque organizado pelos participantes desse chan. Esses anônimos se organizaram para realizar um ataque de negação de serviço distribuído (DDoS), que ocorre quando há tentativa de tornar um site indisponível sobrecarregando-o com muitos acessos concomitantes (no caso, os participantes enviaram muitos comentários para o site). Além disso, a jornalista responsável pela matéria foi alvo de doxing (expuseram seu endereço, telefone, fotos e outros dados pessoais no chan), trotes (enviaram pizzas para a casa dela) e ameças de morte. Disponível em: https://www.estadao.com.br/*link*/participantes-do-55chan-atacam-estadao/. Acesso em: 16 abr. 2023.

[57]: Após Mallone Morais (participante de chans e youtuber) ser preso por defender pedofilia e consumo de pornografia com menores, Felipe Neto gravou um vídeo onde expusera os chans brasileiros como núcleos de pedofilia, racismo, misoginia e demais discursos de ódio. No vídeo (marcado para maiores de idade), Felipe solicitou que seus seguidores acessassem os chans para perturbar as atividades dos seus participantes. Como resposta, os chans mais conhecidos foram temporariamente movidos para endereços alternativos ou protegidos com "máscara de ferro" (uma proteção temporária que coloca um "enigma" para acessar o site, o qual exige conhecimento da cultura dos chans para ser resolvido). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=6AtYJEwyXBQ. Acesso em: 16 abr. 2023.

[58]: A lei 13.642/18 atribui à Polícia Federal a investigação de crimes cibernéticos de misoginia. Disponível em: https://www.camara.leg.br/noticias/540214-desafio-e-tornar-lei-conhecida-diz-blogueira-que-inspirou-legislacao-sobre-misoginia-na-internet/. Acesso em: 18 abr. 2023.

[59]: Uma versão estática do blog (que não existe desde 2012) pode ser acessada através do serviço Internet Wayback Machine. Disponível em: https://web.archive.org/web/20111204214949/http://www.silviokoerich.org/. Acesso em: 16 abr. 2023.

[60]: O site já está offline há muito tempo, mas pode ser acessado através do serviço Internet Wayback Machine. Disponível em: https://web.archive.org/web/20110109175751/http://silviokoerich.blogspot.com/. Acesso em: 16 abr. 2023.

[61]: São publicações autorais de convidados. Ocorre quando o autor de um blog abre o espaço para publicar textos de outras autorias (com os devidos créditos).

[62]: Presos, autores de site racista e homofóbico planejavam massacre na UnB. Disponível em: https://exame.com/brasil/presos-autores-de-site-racista-e-homofobico-planejavam-massacre/. Acesso em: 18 abr. 2023.

[63]: Disponível em: https://blogay.blogfolha.uol.com.br/2012/03/22/policia-federal-prende-os-autores-de-site-que-incitava-crimes-de-odio-e-intolerancia/. Acesso em: 18 abr. 2023.

[64]: Aronovich (2022) atribui essa vitória ao Coletivo Anonymous (sem evidências). Ainda assim, o perfil Anonymous Brasil no Twitter comemorou a prisão dos criminosos responsáveis pelo blog Silvio Koerich. Disponível em: https://twitter.com/anonbrnews/status/182931278620921856. Acesso em: 18 abr. 2023.

[65]: Há uma expressão nos chans chamada "suicide by cop", que serve para se referir a essas situações.

[66]: Blogueira feminista Lola Aronovich é alvo de campanha de difamação na internet. Disponível em: https://operamundi.uol.com.br/samuel/42157/blogueira-feminista-lola-aronovich-e-alvo-de-campanha-de-difamacao-br-na-internet. Acesso em: 18 abr. 2023.

[67]: O site está offline, mas pode ser acessado através da Internet Wayback Machine. Disponível em: https://web.archive.org/web/20151101130515/https://www.doloresaronovich.com/. Acesso em: 18 abr. 2023.

[68]: PF prende uma pessoa em operação contra racismo, ameaça, incitação e terrorismo praticados na internet. Disponível em: https://g1.globo.com/pr/parana/noticia/pf-faz-operacao-contra-crimes-de-racismo-ameaca-e-incitacao-e-terrorismo-praticados-na-internet.ghtml. Acesso em: 18 abr. 2023.

[69]: Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-56657419. Acesso em: 18 abr. 2023.

[70]: Cronologia: massacre em Suzano. Disponível em: https://g1.globo.com/sp/mogi-das-cruzes-suzano/noticia/2019/03/13/cronologia-massacre-em-suzano.ghtml. Acesso em: 18 abr. 2023.

[71]: Sobre o incidente em Neomugicha. Disponível em: https://www.japantimes.co.jp/news/2000/05/07/national/police-search-the-home-of-boy-in-bus-hijacking/. Acesso em: 18 abr. 2023.

[72]: Sobre o massacre em Akihabara. Disponível em: https://www.bbc.com/news/world-asia-62301427. Acesso em: 18 abr. 2023.

[73]: Sobre o tiroteio na Umpqua Community College. Disponível em: https://www.latimes.com/nation/la-na-school-shootings-2017-story.html. Acesso em: 18 abr. 2023.

[74]: Sobre os massacres ligados ao 8chan. Disponível em: https://www.washingtonpost.com/technology/2019/08/04/three-mass-shootings-this-year-began-with-hateful-screed-chan-its-founder-calls-it-terrorist-refuge-plain-sight/. Acesso em: 18 abr. 2023.

[75]: APIs são um conjunto de rotinas, protocolos e ferramentas utilizados para construir aplicações de software. Disponível em: https://www.webopedia.com/definitions/api. Acesso em: 05 mai. 2022.

[76]: Disponível em: https://g1.globo.com/economia/tecnologia/noticia/2021/01/11/rede-social-parler-e-desativada-da-internet.ghtml. Acesso em: 1 mai. 2024.

[77]: Disponível em: https://www.tecmundo.com.br/seguranca/135671-gab-rede-social-extrema-direita-derrubada-da-internet.htm. Acesso em: 1 mai. 2024.

[78]: Disponível em: https://www.theguardian.com/media/2020/nov/07/nobody-can-block-it-how-telegram-app-fuels-global-protest. Acesso em: 9 mar. 2022.

[79]: Termos de uso do WhatsApp. Disponível em: https://www.whatsapp.com/legal/terms-of-service/?lang=pt_br#terms-of-service-acceptable-use-of-our-services. Acesso em: 25 abr. 2022.

[80]: Guia para o desenvolvimento de aplicativos clientes do Telegram. Disponível em: https://core.telegram.org/api/obtaining_api_id. Acesso em: 25 abr. 2022.

[81]: Descrição geral das APIs do Telegram. Disponível em: https://core.telegram.org/. Acesso em: 25 abr. 2022.

[82]: Aplicativos e SDKs do Telegram. Disponível em: https://telegram.org/apps. Acesso em: 25 abr. 2022.

[83]: FAQ do Telegram. Disponível em: https://telegram.org/faq#p-posso-ter-o-codigo-fonte-do-servidor-do-telegram; Acesso em: 25 abr. 2022.

[84]: Os fundadores do aplicativo se posicionam sobre o assunto no Durov's chat, um chat oficial do Telegram. Disponível em: https://t.me/durovschat/515221. Acesso em: 25 abr. 2022.

[85]: Tweet de Pavel Durov sobre a "liberdade de expressão" proporcionada pelo Telegram. Disponível em: https://twitter.com/durov/status/1199333186439794688. Acesso em: 25 abr. 2022.

[86]: Telegram afirma que possui a responsabilidade de defender a "liberdade de expressão" dos seus usuários. Disponível em: https://telegram.org/blog/admin-revolution. Acesso em: 25 abr. 2022.

[87]: Termos de Serviço do Telegram. Disponível em: https://telegram.org/tos. Acesso em: 25 abr. 2022.

[88]: Política de Privacidade do Telegram. Disponível em: https://telegram.org/privacy. Acesso em: 25 abr. 2022.

[89]: Diretrizes de Segurança para desenvolvedores de aplicativos clientes do Telegram. Disponível em: https://core.telegram.org/mtproto/security_guidelines. Acesso em: 25 abr. 2022.

[90]: YowSup é um cliente de WhatsApp com licença livre e de código-aberto. Disponível em: https://github.com/tgalal/yowsup. Acesso em: 10 ago. 2022.

[91]: Sobre o pedido de bloqueio aos perfis do Telegram de Allan dos Santos. Disponível em: https://g1.globo.com/politica/noticia/2022/02/26/apos-ordem-de-moraes-telegram-bloqueia-perfis-de-allan-dos-santos.ghtml. Acesso em: 25 abr. 2022.

[92]: Disponível em: https://www.tse.jus.br/imprensa/noticias-tse/2019/Outubro/google-facebook-twitter-e-whatsapp-aderem-ao-programa-de-enfrentamento-a-desinformacao-do-tse. Acesso em: 8 mar. 2022.

[93]: Disponível em: https://www.tse.jus.br/imprensa/noticias-tse/2021/Agosto/portaria-do-tse-torna-permanente-o-programa-de-enfrentamento-a-desinformacao. Acesso em: 8 mar. 2022.

[94]: Disponível em: https://www.tse.jus.br/imprensa/noticias-tse/2022/Fevereiro/tse-e-whatsapp-celebram-acordo-para-combate-a-desinformacao-nas-eleicoes-2022. Acesso em: 8 mar. 2022.

[95]: Disponível em: https://g1.globo.com/politica/noticia/2022/02/26/apos-ordem-de-moraes-telegram-bloqueia-perfis-de-allan-dos-santos.ghtml. Acesso em: 8 mar. 2022.

[96]: Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2022/02/telegram-mantem-representante-no-brasil-ha-7-anos-enquanto-ignora-stf-e-tse.shtml. Acesso em: 8 mar. 2022.

[97]: Disponível em: https://g1.globo.com/politica/noticia/2022/03/18/moraes-determina-bloqueio-do-aplicativo-de-mensagens-telegram-em-todo-o-brasil.ghtml. Acesso em: 10 ago. 2022.

[98]: Disponível em: https://www.tse.jus.br/imprensa/noticias-tse/2022/Marco/telegram-assina-adesao-ao-programa-de-enfrentamento-a-desinformacao-do-tse. Acesso em: 25 abr. 2022.

[99]: Segundo pesquisa da Infobit, o WhatsApp está instalado em 99% dos smartphones de brasileiros, enquanto o Telegram está presente em 53% desses dispositivos. Disponível em: https://tecnologia.ig.com.br/2021-09-16/telegram-usuarios-brasileiros-plano-b.html. Acesso em: 8 mar. 2022.

[100]: Os canais do Telegram não permitem que seus assinantes enviem mensagens, mas eles podem comentar nas publicações enviadas pelos adminstradores do canal.

[101]: Sobre os limites do Telegram. Disponível em: https://limits.tginfo.me. Acesso em: 8 mar. 2022.

[102]: FAQ do WhatsApp. Disponível em: https://faq.whatsapp.com/general/. Acesso em: 8 mar. 2022.

[103]: Telegram é multado em 1,2 milhão por não bloquear a conta do deputado Nikolas Ferreira, em determinação legal do STF. Disponível em: https://g1.globo.com/politica/noticia/2023/01/25/moraes-multa-telegram-por-nao-bloquear-conta-do-deputado-nikolas-ferreira.ghtml. Acesso em: 25 mar. 2023.

[104]: A "filosofia redpill" faz analogia ao filme The Matrix para se referir as "descobertas" dos homens acerca das supostas injustiças sociais que os cercam. Esses homens entendem que uma vez que eles são confrontados com essas "verdades", não há como voltar atrás (ZUCKERBERG, 2018).

[105]: MGTOW (Men's Going Their Own Way) é uma filosofia masculinista onde os homens condenam estabelecer relacionamentos amorosos com mulheres (ZUCKERBERG, 2018).

[106]: O programa foi desenvolvido com a linguagem de programação TypeScript, sob o framework Node.js. Também foi executado sob o gerenciador de processos PM2 em um computador com o sistema operacional GNU/Linux Debian Bullseye. As informações das comunidades e o conteúdo das mensagens foram armazenados em arquivos JSON e NDJSON.

[107]: Os dados são liberados para estudantes e grupos de pesquisa, de modo que é necessário solicitar o acesso através do link: https://zenodo.org/record/6395061.

[108]: O programa pode ser utilizado por estudantes e grupos de pesquisa, mas o acesso é restrito para evitar práticas criminosas e uso antiético. Solicitar acesso através do e-mail: email@eduardavelho.com.

[109]: Termos de Uso da API do Telegram. Disponível em: https://core.telegram.org/api/terms. Acesso em: 26 mar. 2023.

[110]: Documentação da API do Telegram. Disponível em: https://core.telegram.org/api. Acesso em: 26 mar. 2023.

[111]: Destaca-se a Digital Methods Initiative da Universidade de Amsterdam, que possui um acervo de ferramentas com acesso livre. Disponível em: https://wiki.digitalmethods.net/Dmi/ToolDatabase. Acesso em: 3 abr. 2023.

[112]: Disponível em: https://d3js.org/. Acesso em: 21 fev. 2024.

[113]: Disponível em: https://github.com/upphiminn/jLouvain. Acesso em: 21 fev. 2024.

[114]: Disponível em: https://plotly.com/javascript/. Acesso em: 21 fev. 2024.

[115]: Disponível em: https://github.com/daidr/node-wordcloud. Acesso em: 21 abr. 2024.

[116]: Disponível em: https://redepalavras.netlify.app. Acesso em: 21 abr. 2024.

[117]: Disponível em: https://oglobo.globo.com/blogs/sonar-a-escuta-das-redes/post/2023/02/apos-eleicoes-e-mudanca-de-governo-telegram-para-de-crescer-no-brasil-pela-primeira-vez-em-3-anos-mostra-pesquisa.ghtml. Acesso em: 21 fev. 2024.

[118]: "Com a constante censura das grandes redes e Big Techs, se torna cada vez mais fundamental estarmos em uma plataforma como Telegram [...]" (Jair Bolsonaro, 2021, 356 encaminhamentos).

[119]: "[lista de] MÉDICOS QUE EMITEM LAUDOS e declarações de isenção de vacinas mediante os exames comprobatórios de algumas doenças [...]" (Médicos pela vida, 2021, 5,5 mil encaminhamentos).

[120]: "A mina é tão gorda que tiveram que usar duas fotos pra ela caber." (Randão 11 anos, 2021, 35 encaminhamentos).

[121]: "Bitcoin não é para aumentar a quantidade de fiat e nbtc. É para aumentar a sua liberdade e reduzir o poder dos bandidos, realinhar as motivações do oportunismo para cooperação e moralidade." (Bitcoinblackpill_BR, 2021, 13 encaminhamentos).

[122]: "O inimigo é sempre o estado, um grupo de pessoas que, por meio da força, toma para si a posição de últimos árbitros sobre todas as decisões tomadas sobre um determinado território [...]" (Patrulha da C4, 2021, 30 encaminhamentos).

[123]: "Globo engana leitores sobre pesquisa da Ivermectina na Malásia" (ANCAPSU Comentários, 2022, 16 encaminhamentos).

[124]: "A picada previne infecção? Não. A picada previne transmissão? Não. A picada previne mortes? Não. Então passaporte sanitário não é sobre saúde, é sobre controle." (ANCAPSU Comentários, 2021, 176 encaminhamentos).

[125]: "Bolsonaro atinge um milhão de inscritos no Telegram e esquerda se pergunta: como censurar isso?" (ANCAPSU Comentários, 2021, 29 encaminhamentos).

[126]: "[...] Não terceirize sua segurança, tenha armas, legal ou ilegalmente. A auto-defesa é um direito natural, portanto irrevogável [...]" (anarcocreche, 2021, 24 encaminhamentos)

[127]: "Investimentos da elite globalista podem ser evidência de colapso civilizacional." (ANCAPSU Comentários, 2021, 17 encaminhamentos)

[128]: "A mídia tradicional e aristocracia esquerdista quer proibir o Telegram" (ANCAPSU Comentários, 2021, 41 encaminhamentos)

[129]: "É incrível como a esquerda defende bandido" (Ativistas Direita Volver, 2021, 32 encaminhamentos)

[130]: "O lacre feminista estava pronto: mimimi o mercado de trabalho não foi pensado para as mulheres, mimimi é culpa do sistema, o futuro é feminino [...]" (República Brasileira Memes, 2021, 20 encaminhamentos)

[131]: "[...] A imunidade natural é muito maior que vacina. Está comprovado em estudos. Já incluí aqui no canal. Pare de acreditar nessa mídia globalista [...]" (Censura Livre, 2021, 192 encaminhamentos).

[132]: "⚠️⚠️ Atenção ⚠️⚠️ O juiz do tribunal do Vaticano critica Bill Gates, George Soros e Klaus Schwab por usarem a Covid para impor "controle total" sobre a população. As elites financeiras do mundo estão agora usando a pandemia e as medidas tomadas pelos governos para supostamente combater a propagação do vírus, para colocar as pessoas sob controle total e estabelecer um estado de vigilância global" (Censura Livre, 2021, 151 encaminhamentos).

[133]: "Tratamento Preventivo contra a Covid-19 (Ivermectina, vitamina D3, vitamina C, magnésio dimalato, zinco quelado, quercetina)" (Chat Escobar, 2021, 1,2 mil encaminhamentos).

[134]: "[...] Nosso Presidente não irá tomar a picada 👏👏. Se nos querem como presença, nossas regras. Esse é o meu Presidente, o seu também? 😉 [...]" (Ativistas Direita Volver, 2021, 100 encaminhamentos).

[135]: "Arcebispo Viganò: Apelo Global pela Aliança Anti-Globalista contra a Nova Ordem Mundial. Em uma carta aberta datada de 16 de novembro, o arcebispo Viganò fez um apelo para a criação de uma aliança antiglobalista para se unir contra a ameaça de um golpe de estado global: a Nova Ordem Mundial. "Se o ataque é global, a defesa também deve ser global", disse ele. [...] Vacinas, hoje contra o Covid-19! (a verdade das vacinas) Entre aqui 👇 [...] Não sou cobaia. Não as vacinas experimentais. Não ao Passaporte Sanitário. Compartilhem para que mais pessoas saibam o que está acontecendo." (Força Tarefa pela Liberdade, 2021, 62 encaminhamentos).

[136]: "A bíblia é uma agenda Illuminati, que foi projetada até para eliminar a humanidade, com o falso conceito de deus fazendo sua limpeza, assim separando o joio do trigo. Eles criaram o apocalipse bíblico, através e a mando de Constantino, para que em dado momento, a população fosse erradicada a mando de Deus. Mas como? Eles planejaram e previram, uma grande massa de pessoas encarnadas! E o grande momento do ritual e sacrifício em massa coletivo, fosse no tempo da superpopulação planetária! Esse seria o banquete programado pelas trevas. Reparem que a mídia sempre espalha o medo pela 3° guerra mundial e as religiões bíblicas, fomentam esse medo do apocalipse, como escrito no livro "sagrado". Desculpe a todos os religiosos, mas preciso alertá-los para essa demagogia, que muitos já até desconfiam. Vocês foram manipulados há milênios! Esse projeto foi bem arquitetado para vos escravizar, controlar e depois exterminar." (O Lembrador, 2022, 58 encaminhamentos).

[137]: "Palestra completa em Santa Catarina com o Dr. José Nasser Medico e Neurocientista PHD. IMPORTANTE EXPLICAÇÃO DO DR. NASSER: "ELAS VÃO MUDAR SEU DNA E VÃO GERAR DOENÇA GRAVES" [...] (CHAT A mídia não é sua amiga, 2021, 1,8 mil encaminhamentos).

[138]: "[FOTO] Estes são integrantes do alto escalão da OTAN e vários oficiais do Exército e da Marinha dos EUA e do Brasil. Resultado da cultura e doutrinação judaica maçônica sionista nos goyns do ocidente 🐮 1 em cada 6 adultos da Geração Z são LGBT. E esse número pode continuar crescendo." (O Lembrador, 2022, 43 encaminhamentos).

[139]: "🔥Dogolachan: LOGO NA SEQUENCIA VEM OS JUDEUS NÉ... DESVIRTUANDO TUDO E JOGANDO PRA BAIXO DO TAPETE DO ESQUECIMENTO. NO DIA QUE FOR TIRAR ALGUM ESTADO, COMECE DECAPITANDO JORNALISTAS. DAÍ TALVEZ NO FIM A MATÉRIA SEJA UM POUCO MAIS CONVINCENTE. [...] 🔥⬆️💥⛪✡📺👁💥⬆️🔥" (O Lembrador, 2021, 2 encaminhamentos).

[140]: "Neste contexto, uma visita sigilosa do Presidente Jair Bolsonaro ao Clube Bilderberg, um dos expoentes dessa Nova Ordem Mundial ligada ao mega bilionário George Soros, levanta suspeitas. No registro acima, é possível notar a postura subserviente do parlamentar perante a interlocutora do Clube Bilderberg,  Shannon K. O'Neil, que também representa interesses do poderoso grupo Rockefeller na América Latina." (O Lembrador, 2022, 125 encaminhamentos).

[141]: "Entrem no grupo: @aliancapelobrasil e mandem seus pornôs gay favoritos lá. Está acontecendo uma competição para ver qual pornô é melhor (mande seus pornôs com a legenda #ForaBolsonaro para contabilizar seu pornô na competição), aproveite! 💋" (Randão 11 anos, 2020, 14 encaminhamentos).

[142]: "Os judeus mobilizam a mídia inteira para atacar qualquer um que ouse questionar eles" (Juventude Revoltada, 2022, 93 encaminhamentos).

[143]: "Toma de graça, vagabunda. SIGMA RULE: NÃO DÊ MORAL PRA VAGABUNDA NENHUMA" (BRCHANNEL, 2021, 110 encaminhamentos).

[144]: "Você garoto que está perdido de amores por uma garota, olhe para esse vídeo e entenda que por mais perfeita e inocente que ela possa parecer, em algum momento da vida ela já foi ou será essa bêbada imunda [...]" (Juventude Revoltada Chat, 2021, 113 encaminhamentos).

[145]: "Você está sofrendo uma lavagem cerebral à vista de todos. O marxismo cultural está sendo direcionado diretamente para suas mentes e você pode nem saber." (Politicamente Incorreto, 2020, 197 encaminhamentos)

[146]: "Todo dia é uma oportunidade nova pra renovar seu ÓDIO POR JORNALISTA! [...]" (Politicamente Incorreto, 2021, 96 encaminhamentos).

[147]: "ENTENDAM O MILAGRE QUE ADOLF HITLER FEZ NA ALEMANHA EM 1933" (Politicamente Incorreto, 2020, 50 encaminhamentos).

[148]: "OS CARA VÃO TOMAR DUAS DOSE DE UMA VACINA FEITA NAS COXAS PRA UMA DOENÇA COM 0,02% DE MORTALIDADE E NEM AGLOMERAR E BEBER VÃO PODER KKK [...]" (Ordem de Cristo, 2021, 39 encaminhamentos).

[149]: "todo homem é macho, [mas] nem todo macho é homem" e "ser homem significava [...] ser corajoso, leal e verdadeiro, [...] não tirar proveito das mulheres, ser um marido protetor" (Seja Homem, 2017, sem encaminhamentos).

[150]: "O JOGO. A BÍBLIA DA SEDUÇÃO. PENETRANDO NA SOCIEDADE SECRETA DOS MESTRES DA CONQUISTA. Neil Strauss. SINOPSE: Cansado de se sentir um fracassado na arte da sedução, Neil Strauss, escritor e jornalista especializado em rock, assumiu sua dificuldade em atrair o sexo oposto. Com a ajuda de seu mentor, Mystery, Strauss desenvolveu as técnicas que o levariam a se tornar objeto do desejo feminino. Para proteger sua verdadeira identidade, adotou o pseudônimo Style, mudou radicalmente a aparência, pôs em prática as técnicas aprendidas e aumentou incrivelmente o número ínfimo de mulheres que havia conquistado em toda sua vida até aquele momento. Neste relato autobiográfico da sua transformação de um sujeito inseguro e desinteressante num dos maiores mestres mundiais da sedução, acompanhamos o mergulho real de Neil Strauss em um submundo sofisticado, inebriante e perturbador, habitado por homens que, inicialmente tímidos e pouco atraentes como o próprio autor, aprenderam a se apresentar e a se comportar de forma absolutamente irresistível diante das mulheres [...]". (Bibliotheca Ebooks, 2020, 8 encaminhamentos).

[151]: "HOMEM vs. MACHO. Macho é questão de biologia. Basta nascer com o cromossomo masculino. Ser homem é questão de formação, esforço e maturidade. Todo homem é macho. Nem todo macho é homem. #IntelliMen" (Homens de Valor, 2017, um encaminhamento).

[152]: "Neste livro você vai conhecer os importantes avanços da ciência da evolução humana e como suas descobertas se aplicam ao relacionamento entre homens e mulheres [...] Você vai saber entre outras coisas: Por que as mulheres se desesperam com o silêncio dos homens; por que os homens não devem mentir para as mulheres; por que as mulheres são mais fiéis do que os homens; por que os homens monopolizam o controle remoto; por que as mulheres têm dificuldade de estacionar junto à calçada; e por que os homens detestam crítica; por que quando estressados os homens se calam e as mulheres falam tanto." (Bibliotheca Ebooks, 2021, 2 encaminhamentos).

[153]: Ex-vereador Gabriel Monteiro é preso acusado de estupro. Disponível em: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2022/11/07/justica-decreta-prisao-de-gabriel-monteiro.ghtml. Acesso em: 22 fev. 2024.

[154]: "Entenda a verdade sobre a vacina da Pfizer! 💉🧬🦠 [...] Esse é mais um vídeo da série de denúncias que estamos realizando a respeito das vacinas, dos testes de PCR usados para diagnosticar o corona vírus e a fraude da OMS. O YouTube removeu o vídeo sem qualquer explicação. Por esse motivo estamos postando aqui no telegram. Nesse vídeo você irá compreender o que está envolvido na vacina da Pfizer, Boris Johnson e Bill Gates! Peço a todos que compartilhem aos seus contatos. Ajudem a outros a verem a verdade que o sistema 👁 está tentando ocultar! Vamos desmascarar essa fraude mundial. 💪🏻 [...]" (Despertando Consciência, 2021, 3,9 mil encaminhamentos).

[155]: "Os satanistas dos globalistas financiam a mídia e principais plataformas das redes sociais (Facebook, WhatsApp, Instagram, YouTube, Google e Twitter). Os inimigos de Deus, odeiam a verdade, honestidade, transparência, por isso vivem mentindo, manipulando e fazendo censuras. A "democracia" desejada pelas elites dominantes é escravidão através do comunismo. "E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará." [...]" (Censura Livre, 2022, 73 encaminhamentos).

[156]: "[...] Continuem se submetendo cada vez mais à Ditadura Comuno-Nazi-Fascista do SSTF E DO CN (POLITBURO SOVIETICO COMUNISTA ASSASSINO GENOCIDA ESCRAVAGISTA DO BRASIL)... até serem completamente ESCRAVIZADOS E MORTOS POR ELES! [...]" (Censura Livre, 2022, 21 encaminhamentos).

[157]: "A Sinistra Abortista do STF Carmem Lúcia assina carta pro aborto com lideranças feministas da esquerda" (Censura Livre, 2022, 54 encaminhamentos).

[158]: "O flagelo da NOM. 8 milhões de crianças desaparecidas no mundo todos os anos. Tempo em notícias: 0%. 3 milhões de supostas mortes por COVID19 por ano (principalmente idosos). Tempo em notícias: 200%. Agenda 2030 ☝🏿👇🏿☝🏿👇🏿☝🏿👇🏿 DE KLAUS SCHWAB, FAMÍLIA ROTHSCHILD, JUDEUS SIONISTAS..... PRECISA DESENHAR????" (Censura Livre, 2022, 25 encaminhamentos).

[159]: "[...] Homossexuais tem mais chances de serem pedófilos, mais de 50% dos "homens gays" são pedófilos e 33% dos LGBTs são convictos molestadores de crianças. Fonte: Freund, K., & Watson, R. J. (1992). The proportions of heterosexual and homosexual pedophiles among sex offenders against children: An exploratory study. Journal of Sex & Marital Therapy, 18(1), 34-43. [...]" (Politicamente Incorreto, 2021, 112 encaminhamentos).

[160]: "NEGRO BOTA O JUDEU PRA CHORAR. Esse é um daqueles momentos em que os racialistas branco bate palmas a um preto Red Pill, pra você ver que nem os pretos que é beneficiados pelos narigudos não aguenta o judeu. Pro nosso amigo está negando o holocausto é por que ele estudou o revisionismo histórico e sabe que Hitler não é esse monstro como a mídia judaica tanto fala, e o fato dele ser antissemita é que ele sabe que os judeus são os magnatas do mercado negreiro, e sabe que eles estão por trás de todo tipo de sujeira." (DespertarJá, 2022, 10 encaminhamentos).

[161]: "6 MILHÕES de Judeus MORRERAM? Alega-se que os extermínios de Auschwitz ocorreram entre maio de 1942 e outubro de 1944; para matar metade dos 6 milhões em 32 meses, os alemães teriam que matar 94.000 pessoas por mês, ou seja 3.350 por dia, durante vinte e quatro horas [...]. Os números não batem. [...] Morreram realmente seis milhões?" (Politicamente Incorreto, 2022, 176 encaminhamentos).

[162]: "Entender o Bolchevismo e o Holomodor é um dos primeiros princípios básicos para entender pelo que e por que Hitler lutou. Hoje, os comunistas bolcheviques conseguiram obter com sucesso uma aquisição globalista de nossas vidas em quase todas as nações do planeta" (A Queda dos Poderes, 2021, 32 encaminhamentos).

[163]: "2018: Vou votar em bolsonaro que ele vai fechar os três poderes e impor uma ditadura de extrema direita. 2022: Ditador cabeça de piroca bloqueia aplicativo e pede a cabeça do Edvan TI que antecipou a decisão. [...]" (Patrulha da C4, 2022, 5 encaminhamentos).

[164]: "Na realidade, as feministas em sua mais profunda essência não desejam nada mais do que serem mantidas às custas do homem. Assim como os judeus clamam em toda a parte por "igualdade de direitos" e entendem por isso apenas seu privilégio, assim também a emancipada de poucas luzes fica desconcertada pela constatação de que ela não exige igualdade de direitos iguais, mas uma vida parasitária provida no mais, de privilégio sociais e políticos, às custas da força masculina. O pensando alemão hoje exige, em meio do aniquilamento do velho mundo afeminado: autoridade, força formadora de tipos, limitação, disciplina, proteção do caráter racial e reconhecimento da eterna polaridade dos sexos." (Patrulha da C4, 2021, 9 encaminhamentos).

[165]: "🔥Nofap não te transforma num grande homem, você se transforma num grande homem. Nofap não te da superpoderes, ao praticar nofap você volta a sua verdadeira natureza. Não engane seu cérebro e a você mesmo com um falso prazer, que tira seu tempo, tempo que poderia ser utilizado pra focar em você. [...] Façam bom uso do tempo de vocês guerreiros, o tempo perdido não volta mais, estudem, se exercitem [...]" (Nofap Rebirth, 2022, 12 encaminhamentos).

[166]: "[...] Não sejam otarios! Nao banquem muié! Elas só querem te sugar. Se a mulher nao eh capaz de pagar as proprias coisas (em tempos de feminismo) ela nao serve pra nada! É uma inutil!" (Conservadorismo Libertário, 2021, 10 encaminhamentos).

[167]: "A FASE DO CARROSSEL DE PIROCA. Esse vídeo resume como as mulheres se comportam durante sua vida sexual.. Vão distribuir sua juventude e beleza para qualquer camarada, fazendo SECHO em lugares que fariam um porco vomitar. Aí no futuro quando começarem a se sentir mais lixos do que já são, que estiverem balzacas, com filho nas costas, procuram por um MIQUEINHA, e para este otário vão fazer as mais absurdas exigências para ter SECHO, e ainda correndo o risco de ser corno, porque a adrenalina delas por cafajeste e boy lixo nunca acaba, na primeira oportunidade ela vai chifrar o pobre MIQUEINHA... Você que é jovem, foque nos seus estudos, trabalhe, invista no seu desenvolvimento pessoal, cuidando da sua saúde/corpo, não dê ibope pra modernetes, e não assuma mãe solteira, Muié rodada, se não quiser tomar no c#" (ANCAPSU Comentários, 2021, 18 encaminhamentos).

[168]: "O casamento se resume em: 👉 Você trabalha, sustenta a casa 👉 ADM galudo macetando sua honradinha 😂😂😂 [...]" (ANCAPSU Comentários, 2022, 6 encaminhamentos).