Tenho lido muitos comentários de pessoas questionando as suspensões praticadas pela Anvisa. O assunto me chamou a atenção por causa dos contornos políticos que rapidamente assumiu. De um lado, há o pessoal que argumenta contra a decisão, e do outro, a galera que está chamando tais "protestos" de loucura (teve a pessoa que bebeu detergente, então também não dá pra tirar a razão).
Ora, um acontecimento estranho assim ativa minha curiosidade pra descobrir o que justifica este tipo de "loucura". Afinal, precisamos entender porque tem tanta gente zangada por causa de uma fiscalização recorrente, que parece ser simplesmente uma contribuição para o bem comum, ou até mesmo uma demonstração de efetividade da máquina pública.
No entanto, quando a gente destila as ideias centrais destas falas (e aqui não me interessa falar sobre os atores políticos que "investiram" na narrativa para se pautar), tais questionamentos, na verdade, ilustram muito bem o cenário atual de descrença com relação a tudo que é público. Veja só:
- O que essa gente está colocando em xeque é a legitimidade das instituições públicas. Existe uma crença de que tais estruturas agem em benefício próprio e usam seu poder para oprimir a população e os investimentos privados. Ou seja, é a mesma linha argumentativa perigosa que foi utilizada para atacar o STF e os veículos tradicionais de mídia nos últimos anos.
- Por seguinte, temos a negação da ciência. A crença de que o laudo técnico está enviesado e que não reflete a verdadeira segurança dos produtos da marca. Perceba que é o mesmo que aconteceu durante a pandemia com os ataques contra a vacinação e a defesa pelos "tratamentos alternativos".
- Também é possível notar que as pessoas já não concordam mais sobre qual deveria ser o papel do Estado. Afinal, as instituições públicas precisam fiscalizar? Provisionar educação, saúde e infraestrutura urbana? Quem deveria ter direito de tomar essas decisões e como esses representantes deveriam ser eleitos? Acredito que este aspecto talvez seja o mais perigoso, porque é neste campo de disputas que surgem ideias como o Iluminismo das Trevas de Nick Land, onde argumenta-se pelo fim da democracia.
- Por fim, o aspecto reacionário e do viralatismo. A ideia de que a suspensão é "frescura", e de que "brasileiro não pega nada", e que "antes não tinha essas coisas" porque é tudo culpa da "geração mimimi". As narrativas de retomada a um ideal de "masculinidade ancestral" que se perdeu com o tempo (quando o homem era "cabra macho" e não era afetado por essas "besteirinhas" da Anvisa), levam tais discursos para uma esfera ideológica que é no mínimo perigosa!
Mas, como pesquisadora, não estou aqui para moralizar essas narrativas. Meu interesse é entender o que acontecimentos como esse dizem sobre o nosso tempo. Então, começo argumentando que essas pessoas não estão "delirando". Existe uma fatia não-negligenciável da população brasileira que acredita em pseudociência, terraplanismo e teorias da conspiração. É gente funcional, que trabalha, estuda e paga impostos. Já não tem mais graça fazer piada com quem defende essas ideias. Meu ponto é que tanta gente acreditando neste tipo de informação não é engraçado, pois denota um problema sério de confiança, que causa a adesão em massa às desinformações.
E, quer saber? Não dá pra tirar a razão dessa gente toda! Vivemos em uma época onde TUDO TENTA TE ENGANAR O TEMPO TODO! O chocolate é sabor chocolate; a cerveja tem mais milho e arroz do que cevada; marcas de cosméticos utilizam marketing de rótulo antiético pra te vender produtos que não funcionam; plataformas digitais tentam roubar a sua atenção utilizando qualquer meio necessário; as bets e cassinos online "viralizaram" o vício em apostas; e eu poderia continuar a escrever exemplos e mais exemplos de armadilhas como estas!
Além disso, todos falam que o mundo tá estranho... e tá mesmo! Em 2026, você precisa se esforçar muito para manter o ceticismo vivo. Até pouco tempo, a ideia de que existia uma "cabala satânica de pedófilos da alta-burguesia" era teoria da conspiração das profundezas da internet (Pizzagate), mas, bem... depois do Epstein Files... será que ainda dá pra fazer piada? O mesmo vale pra quem ria das pessoas que falavam que os EUA conspiravam com as Big Techs em um esquema de espionagem global. Em 2013, o Snowden contou pra gente que isso de fato acontecia! Em meio a esse caos, é realmente "delírio" procurar "fatos alternativos" quando parece que já não podemos confiar em nada que é contemporâneo? Neste cenário, é realmente "loucura" que tanta gente defenda que deveríamos retornar a uma visão idealizada do passado onde (supostamente) tudo era melhor?
Digo também que a ascensão da pseudociência é, em parte, causada pela forma como a pesquisa científica funciona. Ao invés de fazer piada com as narrativas anticiência, a gente deveria difundir mais o método científico, e escrever artigos e livros de forma menos pedante, para que muitos ao invés de poucos possam entender como chegamos às nossas conclusões. A ideia de que a ciência é "aberta" não sobrevive à realidade dos artigos pagos e dos trabalhos encomendados e financiados por grandes empresas com interesses escusos.
Meu ponto é que as pessoas precisam ser levadas à sério em suas indignações. Entendo que, por mais que as conclusões sobre como resolver estes problemas esteja errada, existem motivos claros que justificam as razões pelas quais muitos confiam mais num influenciador que fala a língua de todos, do que num cientista distante e cheio de "não me toque".
Aqui, a argumentação não é defender que a Anvisa deveria rever a suspensão dos produtos, mas é necessário que as instituições públicas (especialmente o judiciário) desçam do pedestal e dediquem esforços para explicar para a população porque certas decisões são tomadas. É necessário que o espaço das plataformas digitais, tomado pelas desinformações, seja disputado com materiais, infográficos, vídeos e relatórios de transparência preparados para o entendimento da população brasileira.
Por fim, a adesão à pseudociência e as teorias da conspiração é problema sério e o combate deveria ser política de Estado, pois inclusive é uma das pautas que legitima políticos antidemocráticos. No entanto, para combater esses problemas é necessário entender as suas causas, e responder com ações efetivas e responsabilidade social. Quanto ao problema das informações prejudiciais, os trabalhos sobre desplataformização têm mostrado que suspender contas que propagam desinformações e discursos de ódio é sim uma medida efetiva, mas só funciona quando existe acompanhamento constante para que o problema não retorne de forma pior. Por isso, espero realmente que o Estado invista em comunicação efetiva com a população brasileira, assim como algumas prefeituras já estão fazendo há algum tempo nas plataformas digitais. É uma questão de respeitar o direito à informação do povo, e não apenas aplicar medidas que não convencem e que abrem precedente para a dúvida, pois é aí que se infiltram os fatos alternativos.